Temas relacionados a religiões de matriz africana são os mais presentes nos sambas enredo; representantes de grupos de bairro reclamam de poucos recursos
Por: Cleberson Santos | Jacqueline Maria da Silva
Notícia
Publicado em 13.02.2026 | 17:05 | Alterado em 15.02.2026 | 10:20
“Vamos abordar a história da nossa escola de samba através dos enredos que marcaram época no carnaval de São Paulo, desde a sua fundação”, conta orgulhoso Gilson Caetano “Pica Pau”, 56, diretor de carnaval da escola de samba Leandro de Itaquera.
Na avenida, a agremiação da zona leste de São Paulo vai homenagear e relembrar seus desfiles históricos e marcantes, como “Querem Acabar Comigo”, de 1991, que ficou em quarto lugar no Grupo Especial, melhor colocação da história do grupo. A Leandro de Itaquera desfila no domingo de carnaval (15), à 0h20, pelo Grupo Especial de Bairros.
“Nosso carnavalesco, Eduardo Félix, fez uma pesquisa sobre a história da própria escola, buscando algo que pudesse envolver nossa comunidade”, conta Gilson Caetano.

O ensaio da escola Leandro de Itaquera acontece em baixo de viaduto na Avenida Jacu-Pêssego @Mateus Borges/ Agência Mural
Há quase 50 quilômetros do barracão da Leandro de Itaquera, no Jaraguá, zona oeste de São Paulo, a escola de samba Leões Zona Oeste também escolheu um tema que homenageia histórias das periferias.
“Vamos falar da trajetória [do ator] Ailton Graça. Ele foi camelô, fiscal de lotação e vendedor de loja de sapatos. Seu amor pelo carnaval sempre foi uma constante em sua vida, resgatando a história de resistência contra o racismo”, comenta José Carlos Lisboa, 63, carnavalesco da agremiação.
A escola do Jaguaré desfilará no carnaval de 2026 pelo Grupo de Acesso de Bairros 3, no sábado de carnaval (14). O enredo conta a história do ator que nasceu e cresceu no bairro de Americanópolis, periferia da zona sul da capital e atualmente é presidente da mais antiga agremiação de carnaval de São Paulo: Lavapés Pirata Negro.

Confecção de fantasias pela equipe da Leões da Zona Leste @Arquivo pessoal
Quem também leva a quebrada para a avenida é a escola “Em Cima da Hora Paulistana”, do Grajaú, zona sul, que também vai desfilar pelo Grupo de Acesso de Bairros 3, no próximo sábado (14). A escola vai retratar a vida do mestre-sala Ednei Pedro Mariano, o Mestre Ednei, como é conhecido no meio.
“Nosso samba enredo é uma homenagem a um dos maiores precursores da história do carnaval de São Paulo. Ele foi um dos fundadores da Barroca Zona Sul, do cordão carnavalesco Vai-Vai, que depois se transformou na escola de samba. Também é presidente da Associação de Mestre-sala e Porta-bandeiras do Estado de São Paulo”, justifica Jair Santos, 61, fundador e presidente da Em Cima da Hora Paulistana.

Desfile de anos anteriores da Em Cima da Hora @UESP
As três escolas dão o tom do carnaval paulistano de 2026. Entre as 81 agremiações que desfilarão na cidade de São Paulo, nas sete divisões do carnaval, nove delas levam para avenida temas ligados às periferias ou a cidades da Grande São Paulo, incluindo a história da própria escola, do bairro ou de personagens do carnaval das periferias.
Religiões de matriz africana e personagens históricos são os temas mais recorrentes nos sambas enredo de 2026. A “Amizade Zona Leste”, de São Mateus, por exemplo, falará sobre a relação entre Xangô e Iansã, no Grupo de Acesso 2. Já a União da Vila Albertina (Acesso de Bairros I), do Tremembé, zona norte, traz um enredo sobre o império de Mali.
Existem sete divisões do carnaval da capital paulista e 81 escolas. O Grupo Especial e Acesso 1 e 2, de responsabilidade da Liga das Escolas de Samba de São Paulo, desfilam no sambódromo do Anhembi com ingresso pago.
Já as divisões ligadas à União das Escolas de Samba Paulistanas desfilam na Vila Esperança (Grupos de Acesso de Bairros 1 e 2) e no Butantã (Especial de Bairros e Acesso 3), com ingressos gratuitos.
A Agência Mural analisou os sambas enredo das escolas das três divisões da Liga SP e das quatro divisões da UESP (União das Escolas de Samba Paulistanas) e identificou nove escolas que contarão histórias que se conectam às periferias ou cidades da Grande São Paulo.
São exemplos, a Unidos de São Miguel (Especial de Bairros), que contará a história da “Aldeia de Ururaí: O Berço de São Miguel Paulista”; e Mocidade Amigos do Graja (Acesso de Bairros 3) que fará uma homenagem ao próprio distrito, Grajaú.
José Carlos, da Leões Zona Oeste, é também carnavalesco e historiador e reforça que o termo “periferia” remete aos locais das cidades onde vivem as classes populares e também onde nascem as manifestações culturais “excluídas” e “marginalizadas”. A escola de samba revela essa realidade nos desfiles, retratando temas que se aproximam do seu cotidiano.
“Mesmo que o participante seja um mero desfilante, ele assume uma autoridade simbólica neste espaço”,
José Carlos, da Leões da Zona Oeste.
Há quem escolheu celebrar o próprio carnaval e seus personagens e quem celebra o orgulho pelo bairro. Veja o tema de cada escola no carnaval 2026.
Vai- Vai com “Estúdios de cinema Vera Cruz, à cidade e às pessoas de São Bernardo do Campo”
Unidos do Peruche com “História do pandeiro e dos 70 anos da agremiação”
Unidos de São Miguel Paulista com “Aldeia de Ururaí: O Berço de São Miguel Paulista”
Leandro de Itaquera com “Leandro de Itaquera: uma jornada de glórias e conquistas”
Explosão da Zona Norte com “Homenagem aos 70 anos da Unidos do Peruche”
Mocidade Amigos do Graja com “Grajaú: Uma viagem multifacetada de cultura, história, gastronomia e festas, um bairro que canta e encanta”
Império do Samba Cohab II com “A Império apresenta a origem do samba em Pirapora de Bom Jesus”
Leões da Zona Oeste com “Homenagem ao Ailton Graça (cresceu na região do Americanópolis e é presidente da Escola Lavapés, no Jabaquara)”
Em Cima da Hora Paulistana com “Homenagem a Mestre Edinei, tradicional Mestre Sala do carnaval paulistano”
A maioria das escolas de samba localizadas nas periferias da capital paulista desfilam nas divisões de bairros, organizadas pela UESP. Na última divisão (Acesso de Bairros III), 13 das 14 escolas estão em bairros fora da região central, em 2026. No outro extremo, no Grupo Especial, somente cinco escolas são das periferias de São Paulo.
Em 2025, o carnaval de São Paulo injetou R$6,7 bilhões no estado e em 2026 esse valor pode chegar a R$7,3 bilhões.
Contudo, as agremiações das divisões de Bairro reclamam que os recursos não chegam às escolas periféricas e acabam concentrados nas agremiações do Grupo de Acesso e do Grupo Especial. Estas, porém, contam com outras fontes de renda, como pagamento por transmissão do evento, patrocinadores, arrecadação com ingressos e apoiadores políticos.
Passista da escola de samba Em Cima da Hora @UESP
Casal de mestre-sala e porta-bandeiras da escola de samba Em Cima da Hora @UESP
Confecção artesanal de fantasias na escola de samba Leões da Zona Oeste @Arqueivo pessoal
“O valor é bem discrepante e vai diminuindo conforme o grupo, porque parece mais importante investir naquilo que mais aparece. Nosso desfile é gratuito, acessível e a fantasia é de graça para quem quiser desfilar. Você não desfila no grupo especial sem pagar ao menos R$1.000. Se investe muito na elite e pouco na periferia”, comenta Jair, da “Em Cima da Hora”.
As escolas que desfilam no Grupo Especial de Bairros (a quarta divisão do carnaval paulistano) recebem um subsídio da Prefeitura de São Paulo de R$169 mil cada. Trata-se de valor bem abaixo do recebido pelas escolas da terceira divisão, o Grupo de Acesso 2, que recebem R$ 457 mil. Essa divisão desfilou no último sábado (7), no Sambódromo do Anhembi, e teve a Morro de Casa Verde como campeã.
Já para a última divisão do carnaval paulistano, o Acesso de Bairros 3, o subsídio é o mais baixo. Por lá, cinco escolas falarão sobre temas ligados às periferias de São Paulo – a Leões da Zona Oeste e a Em Cima da Hora são duas delas.
Além da desigualdade no valor, Jair aponta demora e burocracia no repasse de recursos pela Secretaria de Cultura. Isso dificulta o planejamento das escolas de bairro, que têm a prefeitura como principal fonte de recurso.
“Para comprar o galpão da escola, vendi um terreno na praia. E já vendi um carro para pôr nessa escola. Durante o ano, um diretor põe um pouquinho do bolso, outro coloca outro pouquinho e a gente vai fazendo assim, mantendo a escola com muita dificuldade”,
Jair, da escola de samba Em Cima da Hora.
Essa limitação orçamentária faz com que o reaproveitamento de fantasias e materiais também seja uma prática comum: “as escolas hoje se preparam para tais dificuldades optando por reaproveitar fantasias, adereços e esculturas de grupos acima”, explica Gilson, da Leandro de Itaquera.
O desafio que a escola terá esse ano é grande. Em 2025, ela foi considerada responsável pelo incêndio que atingiu carros alegóricos da própria Leandro de Itaquera e na Unidos de São Miguel. O acidente ocorreu na véspera do desfile no Butantã, em 2 de março de 2025. Por conta disso, sofreu uma punição de – 0.5 na pontuação e perdeu 50% da verba que teria direito para produzir o desfile de 2026.
Mas isso não afeta a confiança da agremiação. “Apesar de termos perdido metade da verba, conseguimos seguir fielmente, alcançando 80% do planejado. Não foi possível recorrer [da punição], mas estamos apostando tudo na nossa comunidade. Temos um bom samba e uma comunidade fiel. Isso só nos dá força para fazer o nosso melhor”, garante Gilson.
Endereço: Avenida Eliseu de Almeida (metrô Vila Sônia)
Data e horário: 15 de fevereiro, das 20h à 0h e 16 de fevereiro, das 21h40 à 1h
Preço: Gratuito
Endereço: Rua Alvinópolis – Vila Esperança (Metrô Vila Matilde)
Data e horário: 15 e 16 de fevereiro, das 21h40 à 1h
Preço: Gratuito
Endereço: Avenida Eliseu de Almeida (metrô Vila Sônia)
Data e horário: 14 de fevereiro, das 19h00 à 1h30
Preço: Gratuito
Fonte: União das Escolas de Samba Paulistanas
Correspondente do Capão Redondo desde 2019. Do jornalismo esportivo, apesar de não saber chutar uma bola. Ama playlists aleatórias e tenta ser nerd, apesar das visitas aos streamings e livros estarem cada vez mais raras.
Jornalista, vencedora de prêmios de jornalismo como MOL, SEBRAE, SIP. Gosta de falar sobre temas diversos e acredita do jornalismo como ferramenta para tornar o planeta melhor.
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