Isabela Alves/Agência Mural
Por: Isabela Alves
Notícia
Publicado em 18.03.2026 | 13:13 | Alterado em 19.03.2026 | 12:15
O teatro encontra constantemente novas formas de se reinventar e existir. É com esse propósito que o Grupo 011, sediado em um contêiner no CEU Vila Rubi, no Grajaú, zona sul de São Paulo, criou um espaço de permanência no território.
A companhia leva esse nome em referência ao prefixo telefônico da capital. Atualmente, é a única da cidade a manter uma sede dentro de um equipamento público como o CEU (Centro de Educação Unificado).

Teatro contêiner adquirido pelo Grupo 011 que fica dentro do CEU Vila Rubi @Isabela Alves/Agência Mural
“A gente deve sempre refletir sobre o lugar da cultura e o espaço que a gente habita. Dizem que estamos na margem, mas vejo o quanto somos centro entre nós”, afirma o ator e cantor Carlos Lourenço, 70, integrante do Grupo 011.
Com 14 anos de atuação, o grupo surgiu a partir do Programa Vocacional, política pública da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo que oferece orientação artística, com foco na iniciação e no aprimoramento da prática teatral.

Carlos acredita que a luta por políticas públicas nas periferias é constante @Isabela Alves/Agência Mural
Atualmente em processo de remontagem dos primeiros espetáculos ‘Todos São Paulo’ e ‘Em Busca da Revolução Romântica’, o grupo reflete sobre a importância da arte para os jovens das periferias e os desafios de se manter dentro de um contêiner.
“Comecei a frequentar o CEU [Vila Rubi], em 2011, porque tinha amigos que faziam parte de um grupo de dança. Entrei no Vocacional e, a partir daí, um novo mundo se abriu para mim”, conta o ator e arte-educador Felippe Peneluc, 32, ao relembrar a descoberta da paixão pelo teatro.
GRUPO 011
O grupo estreou em outubro de 2012 com o espetáculo ‘Todos São Paulo’ que aborda, a partir das idas e vindas entre as periferias e o centro, os encantados [entidades espirituais] do Grajaú e narrativas do cotidiano. A montagem fala das angústias e os desafios nos trajetos das linhas de trem e nas vidas dos moradores da capital.
Em outubro de 2015, a companhia apresenta ‘Em Busca da Revolução Romântica’, um experimento cênico itinerante que acompanha um grupo de guerrilheiros urbanos em lutas e memórias sobre o período da ditadura militar.
Para Carlos Lourenço, a cultura é uma das ferramentas mais potentes de resistência aos regimes autoritários, e a ausência dela nas periferias também é um legado desse período.

O espetáculo Todos são Paulo que foi apresentado em 2023 @Arquivo pessoal/Divulgação
“Sempre penso que não é periferia. Isso é uma construção da ditadura militar, a partir de um processo de achatamento cultural. Por isso, precisamos sempre questionar e ter senso crítico sobre o que está posto para nós”, reflete.
A escolha desse tipo de estrutura veio após as dificuldades enfrentadas desde o início do projeto em 2012. A falta de salas disponíveis para ensaios e as mudanças de gestão da prefeitura, fez o coletivo buscar uma solução que garantisse mais autonomia.
Felippe passou a assistir programas sobre moradias compactas, e teve a ideia de utilizar contêineres. “Era a nossa chance de ocupar um lugar que é nosso”, diz.

Felippe teve a ideia de utilizar contêineres para ter o próprio espaço cultural @Isabela Alves/Agência Mural
A ideia era com isso não ficar dependente de editais. Os participantes do coletivo avaliam que os grupos das periferias, ao serem contemplados, acabam destinando os recursos ao pagamento de aluguéis e, ao final dos projetos, voltam a ficar sem uma sede fixa.
Em março de 2018, o Grupo 011 conquistou a sede própria e instalou o espaço próximo à Portaria 1 do CEU Vila Rubi. “Ficamos pensando nas possibilidades de potencializar ainda mais esse lugar tão especial dentro da periferia”, conta Peneluc.

Grupo 011 é o único da cidade de São Paulo a manter a sede no CEU Vila Rubi @Isabela Alves/Agência Mural
Eles possuem dois contêineres e uma laje, espaços utilizados para ensaios, reuniões e para receber outros coletivos artísticos que precisam de um lugar para desenvolver as atividades. O grupo também propõe contrapartidas ao CEU.
‘Sempre fizemos apresentações em diferentes momentos, nesse lugar da parceria. Não só entre nós, mas também com os oficineiros, com outros coletivos que estão aqui e com os que já passaram por aqui’
Felippe, arte-educador
O contêiner foi adquirido em São Vicente, no litoral de São Paulo. O coletivo encomendou a estrutura já com os recortes necessários e com a estrutura adequada para a instalação de iluminação. O próximo sonho é a abertura de uma janela, para permitir a entrada de luz natural e melhorar a circulação de ar no espaço.

Giovanna, integrante mais jovem do grupo, ao lado da placa com regras de cuidado do contêiner @Isabela Alves/Agência Mural
Para o Grupo 011, há também o desejo de expandir as ações e fazer com que o espaço seja mais uma possibilidade de criação e cultura dentro do distrito do Grajaú.
“A gente quer continuar criando e trazendo um respiro, mesmo quando a estrutura política nos tira certas possibilidades. Mesmo que a gente seja de ferro, a gente é verde, a gente é rosa. Tem colagem, tem bagunça, mas também tem desejo por um futuro melhor”, afirma Giovanna Paixão, 27, arte-educadora, produtora e atriz – que integra a nova formação do Grupo 011.
Outro projeto similar vive situação delicada na capital. Em março de 2017, quem também inaugurou um espaço teatral em um contêiner foi a Companhia Teatro de Contêiner Mungunzá, localizada no bairro de Santa Ifigênia, na região central da capital paulista.
No caso da companhia, a decisão surgiu da recusa em destinar recursos de editais públicos ao pagamento de aluguel e da percepção de que há uma grande quantidade de espaços ociosos na cidade. A alternativa encontrada foi ocupar um terreno e criar ali uma estrutura própria.
No entanto, em setembro do ano passado, o grupo sofreu a perda do espaço. “Estamos nessa luta política para que, se houver realocação, que ela aconteça no próprio território e que sejam respeitadas as condições arquitetônicas do teatro de contêiner”, afirma Marcos Felipe, 42, jornalista, artista da companhia e um dos gestores.
Em nota enviada à Agência Mural, a Prefeitura de São Paulo afirma que, em cumprimento a uma decisão judicial, realizou a reintegração da área ocupada irregularmente por quase uma década pelo Teatro de Contêiner.
Segundo a gestão municipal, a companhia retirou do local equipamentos, mobiliários e pertences de interesse, e o terreno foi destinado à construção de um empreendimento habitacional e de uma área de lazer.
Marcos ressalta que o trabalho atendia uma área marcada por desigualdades sociais, e que o trabalho do grupo vai além da produção artístico-cultural. “Estamos em um território marcado por um consumo problemático de crack, então começamos a desenvolver uma tecnologia própria, que é o entendimento da arte e da cultura como redução de danos”, reflete.
Jornalista e cineasta da quebrada. Pós-graduanda em Mídia, Informação e Cultura e em Gestão de Projetos Culturais pelo CELACC/USP. Fundadora da Parasita Filmes, produtora independente dedicada a contar histórias do extremo sul de São Paulo.
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