André Pereira/Divulgação
Por: Jessica Silva
Notícia
Publicado em 12.02.2026 | 12:34 | Alterado em 12.02.2026 | 12:34
“Aqui é pra chegar e se acomodar. O Quintal é de todos.” Com essas palavras, Marcinho, sócio-proprietário, resume a proposta do Quintal Secreto, espaço cultural que se tornou ponto de encontro no centro de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo.
Quem passa pela região central da cidade, dificilmente percebe que, a poucos metros da Prefeitura, um corredor estreito leva a um dos espaços mais ativos da cena musical local. O Quintal Secreto funciona como bar, palco e ponto de encontro de públicos diversos da região, reunindo gêneros como reggae, forró, samba, rap, trap, MPB, rock e brasilidades.

Beto e Marcinho são sócios do bar Quintal Secreto, em Mogi das Cruzes @Arquivo pessoal/Divulgação
Dirigido por dois amigos que viraram sócios, José Humberto Marques Aranda Amancio, 40, conhecido como “Beto” e Marcio Fernandes de Santana, 39, conhecido como “Marcinho” o Quintal Secreto possui um nome irreverente que segundo os donos, veio da própria experiência do espaço.
A entrada discreta e o ambiente “escondido” definiram tudo. “A porta é baixa, ninguém percebe que tem um bar ali. O Marcinho disse: ‘isso aqui é um quintal secreto’”, conta Beto, lembrando como decidiram o nome do local.
A ideia de abrir um bar surgiu das atuações dos sócios no mercado imobiliário, durante uma visita ao espaço, quando perceberam que aquele ponto não despertava interesse de venda ou aluguel. Foi então que Beto teve a ideia de criar ali um ponto de encontro.
De acordo com Marcinho, a primeira impressão do local passou longe de qualquer romantização. “Foi mais um susto do que qualquer outra coisa”, disse. Para ele, o estabelecimento estava abandonado, mas ainda assim a aposta foi feita, não pelo que o espaço era, mas pelo que poderia se tornar.

Espaço que reúne arte, símbolos e múltiplas narrativas culturais @Jessica Silva/Agência Mural
“Tinha certeza que seria algo legal por conhecer o Betinho e pelo propósito que impomos. Fazer um rolê no qual nós teríamos prazer de curtir”, resume Marcinho.
Desde a inauguração, em abril de 2022, o Quintal Secreto assumiu o compromisso de valorizar artistas da cidade e contribuir para o fortalecimento da cena musical local. A estreia foi marcada pelo show do cantor mogiano Júnior Castro, que hoje também se apresenta no litoral de São Paulo e na capital paulista. A casa de shows recebe bandas e projetos da região, especialmente ligados ao reggae, forró, samba e rap, que passaram a ocupar com frequência a programação da casa.
Não por acaso, o reggae se consolidou como eixo central do Quintal, atravessando não apenas a agenda musical, mas também a memória afetiva do espaço.
‘O reggae é uma música de periferia, de quebrada. A gente viveu isso por muitos anos. Trazer essa cultura pra Mogi também é resgatar algo que estava se apagando’
Beto, sócio do bar Quintal Secreto
Para os donos do Quintal, o reggae carrega um valor afetivo e simbólico profundo. Foi a partir desse gênero que nasceu a amizade entre os sócios, há mais de 20 anos, em viagens de trem e ônibus para assistir a shows em grandes casas de São Paulo. Na época, sentiam falta de um espaço mais acolhedor em Mogi, que abrisse as portas não só para o reggae, mas também para outras expressões musicais.
Embora o estilo ocupe lugar central na identidade do bar, a programação da casa é marcada pela diversidade. Samba de mesa, discotecagens, especiais dedicados a Djavan, Chico César e Los Hermanos, além de artistas que circulam pela cena musical nacional, compõem a agenda. O critério para subir ao palco não é o tamanho do público, mas a qualidade e a afinidade artística.

Espaço nasceu no centro de Mogi e recebe shows @André Pereira/Divulgação
“Pode ser uma banda desconhecida. Se a gente acredita, a gente aposta”, diz Beto.
O público reflete essa diversidade. Pessoas de diferentes idades, regiões e classes sociais compartilham o mesmo espaço em um ambiente que valoriza o respeito e o acolhimento.
As regras de convivência estão escritas nas paredes do bar e deixam claro o posicionamento da casa: respeito às mulheres, empatia e cuidado coletivo. “Se não tiver carinho e respeito, esse não é o lugar”, afirma Beto.

Espaço recebe artistas da cidade @André Pereira/Divulgação
Manter um espaço cultural noturno em Mogi exige resistência. O Quintal já enfrentou interdições, reformas obrigatórias e conflitos relacionados ao barulho, mesmo estando em uma região central e majoritariamente comercial. Após um período de três meses fechado em 2025, o local passou por ampliação e tratamento acústico, adequando-se às exigências legais.
“A cidade é jovem, universitária, mas ainda tem leis antigas. Falta diálogo e incentivo. A gente gera emprego, movimenta a economia e mantém as pessoas na cidade.” explica Beto.
Segundo Marcinho, há um público fiel que frequenta o Quintal justamente por reconhecer o esforço do espaço em fortalecer a cena cultural local. Ainda assim, ele ressalta que, mesmo trabalhando com o que ama, os desafios são constantes. “Trabalhar com o que realmente gosta é um grande desafio”.
Os planos para o futuro incluem a expansão do espaço, área de alimentação e novos serviços. Mas o principal objetivo segue o mesmo desde o início. “O que a gente quer deixar é o legado. Que as pessoas lembrem do Quintal como um lugar onde foram felizes, se sentiram acolhidas e respeitadas.” finaliza Beto.
Endereço: Avenida Vereador Narciso Yague Guimarães, 164 – Centro, Mogi das Cruzes
Horário de funcionamento: Quinta-feira: 19h às 01h / Sextas e Sábados: 20h às 02h aos domingos horários alternativos
Preço: Entrada é gratuita até as 21h. Após esse horário, é cobrado couvert artístico, com valor de R$ 15
Jornalista formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo. Mestra e Doutoranda em Educação pela PUC-SP. Pesquisa sobre informação, desinformação e educação midiática. Correspondente de Mogi das Cruzes desde 2013.
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