Daniel Santana/ Agência Mural
Por: Daniel Santana
Notícia
Publicado em 28.01.2026 | 14:28 | Alterado em 28.01.2026 | 14:28
“A comunicação é uma oportunidade de aprender a contar histórias. Por mais que haja técnicas, estamos falando de autoconhecimento”. É assim que a jovem Samara da Silva, 27, moradora de Embu das Artes, na Grande São Paulo, resume seu trabalho – ou melhor, seu projeto de vida.
Há um ano, ela é educadora em um dos projetos populares de comunicação que se espalham pela zona sul de São Paulo. As atividades, oferecidas por diferentes coletivos, unem práticas pedagógicas com técnicas de comunicação profissional para ajudar jovens das quebradas a reivindicarem direitos, empreender, multiplicar conhecimentos e escrever novos projetos de vida.
“Queremos que as pessoas consigam comunicar o que já fazem, sem que isso pareça um bicho de sete cabeças. Na periferia fazemos muita coisa e não comunicamos bem o valor do que já existe”.
Samara, educomunicadora
Todo o processo se baseia nos princípios da chamada Educomunicação, um campo interdisciplinar que une educação e comunicação para capacitar indivíduos a compreender, analisar e produzir conteúdos midiáticos de forma crítica e ética. Como educomunicadora, Sarama têm o objetivo de valorizar a população periférica por meio da produção de conteúdos midiáticos que façam sentido para a comunidade.

Samara da Silva leciona aulas em projeto do Jardim Ibirapuera @Daniel Santana/ Agência Mural
Mesmo não tendo formação acadêmica na área e morando em Embu das Artes, Samara sempre trabalhou em coletivos de comunicação na periferia da zona sul de São Paulo. Ela também foi social media no Instituto Patrícia Galvão, no coletivo de jornalismo Desenrola, Não Me Enrola e na associação cultural Bloco do Beco.
“Eu não me imaginava dando aula, e está sendo uma dinâmica bem diferente. É interessante perceber que posso compartilhar o que aprendi”, conta a jovem, que dá aulas na Agência Ibira 30, um projeto do Bloco do Beco criado em 2025 no Jardim Ibirapuera, na zona sul de São Paulo.
Antes disso, ela foi aluna do curso de educomunicação “Você, Repórter da Periferia” – um programa de formação em educação midiática e jornalismo comunitário, criado em 2013 pelo Desenrola, Não Me Enrola.
Foi lá que, em 2017 e 2021, Samara desenvolveu técnicas de jornalismo e entendeu que a periferia é um lugar onde se criam fortes vínculos por meio da comunicação.
“Fazíamos coberturas de eventos e publicávamos nas redes do Desenrola. Íamos de ônibus, carregando equipamento, vivendo o percurso. A comunicação periférica aproxima pessoas que vivem realidades parecidas, ainda que em regiões diferentes.”
Samara, educomunicadora
Além de educomunicadora, Samara é hoje social media no Bloco do Beco, organização que atua desde 2002 no Jardim Ibirapuera, promovendo atividades de educação e lazer para os moradores.

Jovens durante formação no projeto Agência Ibira 30 @Daniel Santana/ Agência Mural
Um dos projetos de comunicação da zona sul de São Paulo é a Agência Ibira 30, do Bloco do Beco, criado em 2025. Desde então, representantes de ao menos 15 coletivos periféricos já realizaram os cursos oferecidos. Só no último ano, pelo menos 40 jovens participaram das atividades de educomunicação, realizando a cobertura de eventos como Carnaval e da Festa Junina do Bloco.
Samara conduz oficinas para jovens e coletivos periféricos sobre Planejamento de Conteúdo para Redes Sociais. A formação é dividida em seis módulos realizados ao longo do ano, cada um com turmas de até 15 pessoas.

Alunos do Curso de Mídias em aula com Léu Brito @Reprodução / Instagram – ibira30
As aulas ocorrem na região do Jardim Ibirapuera, na sede do projeto, e abrange temáticas como criação de vídeos curtos para redes sociais, estratégia de conteúdo, tráfego pago e fotografia mobile.
A proposta das atividades é apresentar conceitos, técnicas e práticas do dia a dia da produção de conteúdo nas redes, ampliando horizontes e fortalecendo o protagonismo dentro da comunicação periférica.
“Criar conteúdo é gerar conexão com o sentimento das pessoas. E uma das maiores conexões é o pertencimento”
Samara, educomunicadora
A ideia do projeto é dar protagonismo às histórias, ao cotidiano e às reivindicações dos moradores das regiões periféricas – uma população que tem muito a dizer, mas pouco espaço para ser ouvida.
Um dos frutos do projeto é a trancista Daniela Alves, 24, do Capão Redondo, na zona sul de São Paulo. A jovem empreendedora possui um salão de tranças, o Império Nagô, no Jardim Horizonte Azul, também ao sul da capital paulista.
Ao lado dos irmãos, Denise Dourado e Gê Dourado, ela toca o salão há 10 anos, em uma trajetória marcada por superações. Desde criança, Daniela sofria com a timidez, o que a impedia de divulgar seu trabalho como trancista. A história mudou depois das aulas na Agência Ibira 30 – em especial com as oficinas de gravação de vídeos.

Daniela Dourado afirma ter enxergado seu protagonismo por meio das atividades @Daniel Santana/ Agência Mural
“Eu não conseguia explicar o que fazia, só falava que era trancista, mas sabia que poderia melhorar. A Samara me mostrou como eu poderia evoluir”, conta Daniela, também conhecida como Danny. Com apoio e acolhida, ela ganhou a coragem que precisava para narrar conteúdos sobre seu trabalho e até colocar a cara nos vídeos.
“As pessoas passaram a me enxergar, a ver o Império Nagô. Causou curiosidade em saber o que a gente faz. Ganhamos clientes que se tornaram amigos”.
Daniela, empreendedora e trancista
Outra figura que atua como educomunicador – ou melhor, como “Educador de Quebrada” – no Jardim São Luís é Rafael Lucas, 27.
O estudante de Letras sempre esteve ligado à comunicação graças ao pai, José Carlos, que trabalha com gravações de eventos e fotografia. Mas o interesse cresceu em 2017, quando passou a participar de mobilizações populares por educação e memória da periferia.
“A ideia era entender como o cinema e o audiovisual periférico funcionavam não só como registro de histórias, mas como ferramentas para documentar as nossas vivências”, conta.
Ele, então, arregaçou as mangas e participou de cursinhos populares, podcasts e pesquisas sobre o tema. Hoje, leciona no projeto-piloto “Jovens Multiplicadores do Bem Viver Escolar”, da Fundação Julita.

Rafael Lucas enxerga a educomunicação como algo crescente nas periferias @Daniel Santana/ Agência Mural
As atividades são desenvolvidas em duas unidades de ensino da região sul de São Paulo: a Escola Estadual Antônio Manuel Alves de Lima e a Escola Municipal de Educação Fundamental Boi Mirim II. Rafael organiza com os alunos cineclubes e cine-debates, além de gravações de podcast e oficinas de captação de áudio – sempre discutindo o cotidiano dos estudantes.
“A proposta das atividades é formar jovens com ferramentas de educomunicação, para que eles multipliquem isso nas suas escolas. Tudo o que comecei lá atrás, hoje construo com esses jovens”, conta o educador. “É sabedoria popular combinada com ferramentas de comunicação, e isso gera uma mistura muito potente”.
Rafael espera que, em um futuro próximo, a educomunicação avance mais em projetos periféricos, ampliando o conhecimento dos jovens sobre seus territórios e sobre seu lugar de fala.
“Quero que as tecnologias sirvam para garantir uma vida digna, para sermos realmente ouvidos e para que nossas demandas sejam divulgadas. Que sejamos nossos próprios agentes de transformação”.
Rafael, educomunicador
Jornalista, apaixonado por livros, samba e carnaval. Corintiano, vivo o futebol de domingo a domingo. Adoro contar histórias através do jornalismo.
A Agência Mural de Jornalismo das Periferias, uma organização sem fins lucrativos, tem como missão reduzir as lacunas de informação sobre as periferias da Grande São Paulo. Portanto queremos que nossas reportagens alcancem outras e novas audiências.
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