O sumiço silencioso de uma estrutura que receberia um monumento exemplifica como a história é tratada na cidade
Paulo Talarico/Agência Mural
Por: Paulo Talarico
Notícia
Publicado em 19.02.2026 | 12:00 | Alterado em 19.02.2026 | 12:00
Do mesmo modo que ela surgiu, ela desapareceu. Silenciosamente. Era 2016, quando vários tapumes guardavam um segredo na praça em frente à Prefeitura de Osasco, na Grande São Paulo. Quando terminaram as eleições daquele ano, os tapumes saíram e surgia ali uma rampa, imponente, grande, e que não ligava nada a lugar nenhum.
Perto do Natal de 2025, a simpática estrutura, que já recebeu inclusive o trenó figurativo do Papai Noel e as renas, desapareceu. Foi destruída. Sem anúncio. No lugar, surgiu uma roda-gigante provisória, no Natal iluminado da cidade.

Rampa surgiu sem anúncio e ficou na praça por quase uma década @Paulo Talarico/Agência Mural
A rampa misteriosa foi revelada pela Agência Mural em 2017. Por trás dela, há a história de como obras públicas podem se tornar um problema, causar prejuízos e não ter nenhuma punição pelos equívocos do projeto.
Em cima da rampa deveria ser instalada uma réplica de um avião de 18 metros. Ela representaria o Aeroplano São Paulo, construído por Dimitri Sensaud de Lavaud, e que foi usado no primeiro voo da América Latina, justamente em Osasco.
Na época, a região ainda era um bairro da cidade de São Paulo, e Dimitri voou de onde está o Museu de Osasco até a estação de trem no centro, em 1910. Uma baita história e que receberia uma réplica num projeto que teve a participação de moradores do município.
Mas a prefeitura não buscou o avião. Ele ficou no Jabaquara, no ateliê de Juvenal Irene, o responsável pela obra. Em 2021, a Mural foi até o ateliê e presenciou o problemão. O local estava lotado das peças dessa obra, e não havia perspectiva de retirada.
O que levou a essa situação? Aparentemente, as eleições. Há dez anos, o então prefeito Jorge Lapas deu início ao projeto e houve uma correria para a entrega até antes da campanha eleitoral começar. Mas deu errado. O prazo para inaugurações foi ultrapassado e só seria possível entregar após a votação.
Na disputa daquele ano, Lapas perdeu para Rogério Lins (Podemos). E a réplica do aeroplano deixou de fazer parte dos planos da prefeitura.
Após a derrota, a então gestão não concluiu o processo para o transporte do monumento. E entregaram a rampa. Vazia!
A nova gestão que assumiu em 2017, com Rogério Lins (Podemos). Em oito anos, disse estar impossibilitada de concluir o projeto porque não havia licitação.

Rampa colocada em frente à Prefeitura foi destruída no fim do ano passado @Paulo Talarico/Agência Mural
Procurada nesta semana, a gestão disse que já respondeu em 2020 e que nada mudou. Desde 2025, a cidade é governada por Gerson Pessoa (Podemos).
A prefeitura também não respondeu sobre o custo estimado para a destruição da rampa, realizado pela Secretaria de Serviços e Obras.
Fato é que após quase dez anos, a estrutura serviu para skatistas, curiosos e, claro, o Papai Noel.
Já a homenagem ao primeiro voo da América Latina ficou de lado. Curiosamente, o Museu de Osasco, onde viveu Dimitri e de onde partiu a aeronave, também segue fechado, sem perspectiva de abertura. Osasco celebra neste 19 de fevereiro mais um aniversário.

Local serviu para decorações natalinas @Ariane Costa Gomes/Agência Mural
Diretor de Treinamento e Dados e cofundador, faz parte da Agência Mural desde 2011. É também formado em História pela USP, tem pós-graduação em jornalismo esportivo e curso técnico em locução para rádio e TV.
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