Crocheteiras mostram como criatividade e persistência abrem caminhos de crescimento nas periferias
Willian Ribeiro/Divulgação
Por: Daniel Santana
Notícia
Publicado em 25.05.2026 | 16:52 | Alterado em 25.05.2026 | 16:52
Entre linhas que se cruzam e pontos que se repetem, o crochê vai desenhando mais do que peças: constrói caminhos. Nas periferias, a agulha e o fio se tornam ferramentas de criação, renda e, sobretudo, autonomia.
Para Susana Soares, 43, moradora do Jardim Ibirapuera, esse caminho ainda está no começo. Entre tentativas, erros e aprendizados, ela pratica os pontos com atenção, como quem entende que cada laçada pode abrir novas possibilidades.
Ao observar sua mãe, surgiu o interesse que a levou a buscar formas de aprender. Em março de 2025, entrou em um curso na Casa de Cultura do Jardim São Luís, onde foi se arriscando aos poucos.

Susana usa um top de crochê produzido por ela @Daniel Santana/Agência Mural
“Ali fui dando os primeiros passos. Minha primeira peça foi um biquíni que saiu todo torto. A professora me mandou guardar para, no futuro, ver a evolução. Com o tempo, eu percebo a diferença”, conta Susana, que, atualmente, está desempregada.
Ao longo de mais de um ano de prática, Susana já confeccionou diversas peças além do biquíni, como saias e tops. Por participar de atividades no bairro, como as aulas de dança no Bloco do Beco, parte das clientes são colegas dessas vivências.
‘Gosto de fazer as peças e postar nas redes sociais. As amigas sempre me incentivam, dizendo: ‘você consegue, pode fazer’. Mesmo quando não sei direito o ponto, eu vou lá e tento’
Susana, crocheteira
Ela destaca que crochetar é uma forma de reduzir o estresse e esquecer dos problemas, o tempo passa rápido, ao mesmo tempo em que desenvolve seus conhecimentos.
Atualmente, Susana faz um curso de design de moda no Jardim Monte Azul para se aprimorar. Assim, os cursos e a prática têm contribuído para ampliar os planos para o futuro, como abrir uma loja de crochê.
“Vejo que o aprendizado é importante porque traz independência. É uma renda extra que chega. É um complemento não somente financeiro, mas também um aprendizado novo.”

Biquinis, saias e tops são algumas das peças que a empreendedora já confeccionou @Daniel Santana/Agência Mural
Em outro ponto dessa mesma trama está Isabella Kuiawinski, 24, que começou como Susana: pelo interesse, pelo hobby. Mas o que era passatempo ganhou novos contornos com o tempo.
A jovem moradora de Interlagos teve o primeiro contato com o artesanato aos nove anos, em cursos feitos por incentivo da mãe. O crochê entrou em sua vida apenas em 2021, quando trabalhava no próprio estúdio de cílios e dividia uma sala com outros profissionais.
Uma colega que produzia peças artesanais à mão despertou o interesse pelas bolsas de crochê. “Ela me incentivou a tentar e comecei, aprendendo sozinha, vendo vídeos no YouTube e referências no Instagram”, relembra.

Isabella com as pochetes e bolsas de crochê que vende nos eventos e divulga nas redes sociais @Willian Ribeiro/Divulgação
Por um tempo, fazia mais por hobby. Mas, ao vender algumas peças e perceber que tinha habilidade, passou a dar mais atenção ao talento com a linha e a agulha.
Assim, em fevereiro de 2025, surgiu a Fio de Brisa. Apaixonada pelo ambiente litorâneo, a inspiração para o nome e, consequentemente, para as peças que confecciona, veio das viagens para regiões praianas.
‘Estava indo muito à praia, e sempre tive essa vontade de crochetar. A marca nasceu dessa conexão com o mar e com a natureza. Criei a identidade visual no ano passado’
Isabella, empreededora
Focando em bolsas, pochetes, saias e biquínis, Isabella também levou o crochê para as redes sociais, transformando a produção em conteúdo e fonte de renda.
Além de divulgar os produtos no Instagram e TikTok, a jovem investe na produção de vídeos para atrair novos clientes.
“Eu penso bastante na estética, que tudo esteja alinhado com a identidade. Crio cenários com a decoração do meu quarto, tentando construir um ambiente coerente para não ficar desconectado.”
Hoje, ela diz acreditar que os conteúdos ajudam a despertar novos hobbies entre os mais jovens, embora ainda enfrente resistência de pessoas mais experientes na área. Isabela conta que já recebeu críticas em vídeos por ser considerada “nova demais” para crochetar.
“Estava tirando uma dúvida comum no vídeo e a pessoa disse que eu ainda tinha muito a aprender, porque era jovem. Foi estranho. Infelizmente, algumas pessoas deslegitimam por você ser jovem e estar no crochê”, desabafa.
Independente das adversidades, ela segue divulgando os trabalhos nas redes e em eventos. Isabella também marca presença em feiras de artesanato e em forrós, onde criou conexão com o público que passou a adquirir produtos como a pochete, que auxilia no transporte de pequenos itens.
“Comecei a expor em um forró na zona sul e depois passei a levar minhas peças para festivais em São Paulo e fora também. É um público com o qual tenho conexão, e eles comigo, porque adoro um forrozinho.”
Assim, o trabalho da jovem apresenta o crochê como uma tendência, na qual também pretende, a longo prazo, ensinar técnicas com aulas presenciais ou online.
Para Isabella, o momento atual é de valorização do trabalho manual, o que ajuda a inspirar pessoas. A artesã espera que o crochê transforme a vida de outras pessoas, como transformou a identidade dela.
“O crochê trouxe um lado mais colorido, mais artesanal, mais verdadeiro para mim. Eu consegui integrar tudo para me sentir mais livre, mais eu mesma. Foi um ponto de virada.”

Agnes, empresária e artesã administra a ‘Agnes Rasta’, ateliê de costura criativa e crochê @Arquivo pessoal/Divulgação
Se Susana representa o início e Isabella o crescimento, Agnes Martins, 42, simboliza a sustentação dessa rede. Cria do Heliópolis, ela teve o primeiro contato com o crochê em casa aos sete anos com a mãe, Aguimar Martins, 62.
Aguimar produzia tapetes e outras peças para ajudar nas despesas da casa e na compra de material escolar dos filhos. “Minha mãe aprendeu crochê quando estava grávida de mim. Depois, aos 7 anos, eu também comecei a aprender”, destaca Agnes.
Após a aposentadoria, o crochê ganhou ainda mais importância na vida da enfermeira. Ela chegou a interromper a prática, mas retomou há cerca de dez anos, com a chegada da primeira neta.
Já Agnes ampliou a atuação para outras áreas do artesanato, como ponto cruz e costura, despertando o desejo de empreender. Em 2010, após sair de um emprego, investiu a rescisão em uma máquina de costura e começou a vender ecobags para amigos e em eventos. Depois de cursos do Emprega São Paulo e do Senai, se especializou na produção de bolsas de tecido e transformou o que começou por necessidade em profissão.
Em 2017, passou a oferecer cursos online e, em 2020, abriu uma loja de materiais de costura e conteúdos artesanais. Após enfrentar a pandemia e dificuldades financeiras, transformou o negócio no ateliê Agnes Rasta, em Santo Amaro, voltado ao ensino de costura criativa e crochê.
Desde 2025, o espaço também reúne tecidos, aviamentos e oficinas onde são produzidas bolsas, tapetes e acessórios de decoração nas atividades com as alunas.
As aulas de crochê passaram a ser ministradas por Aguimar, mãe de Agnes, que a convidou como uma forma de retribuir tudo que ela fez. “Eu falei: ‘Mãe, por que você não começa a dar aula de crochê? Eu tenho espaço e rede para divulgar. Tá super em alta’. Insisti e deu certo”, conta.
Hoje, Aguimar dá aulas semanais para turmas de seis a oito alunas, enquanto Agnes atende cerca de vinte mulheres.
Segundo ela, o apoio da família foi essencial para consolidar o negócio. “Os problemas em trabalhar no comércio sempre vão aparecer e acabam desanimando um pouco. Mas com o tempo e o apoio dos meus, as coisas foram dando certo”.
Atualmente, o foco está no ensino e na formação de novas artesãs da zona sul, onde o ateliê promove o encontro entre mulheres de diferentes idades e realidades. “Meu negócio virou um ambiente seguro. Mais do que ensinar uma técnica, é criar um espaço de acolhimento, troca e pertencimento”, finaliza Agnes.
Jornalista, apaixonado por livros, samba e carnaval. Corintiano, vivo o futebol de domingo a domingo. Adoro contar histórias através do jornalismo.
A Agência Mural de Jornalismo das Periferias, uma organização sem fins lucrativos, tem como missão reduzir as lacunas de informação sobre as periferias da Grande São Paulo. Portanto queremos que nossas reportagens alcancem outras e novas audiências.
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