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Agência de Jornalismo das periferias

Deka Carvalho/Divulgação

Por: Isabela do Carmo

Notícia

Publicado em 23.04.2026 | 18:18 | Alterado em 23.04.2026 | 18:18

Tempo de leitura: 4 min(s)

Em Heliópolis, na zona sul de São Paulo, a literatura tem se transformado em ferramenta de geração de renda e fortalecimento comunitário. Quem garante é Elaine Vital, 46, e o marido dela, Paulo César Marciano, 47, que criaram e mantêm a Editora Gráfica Heliópolis, uma iniciativa para impulsionar autores periféricos e criar novos espaços de cultura em uma das maiores favelas da capital paulista.

Além de publicar ao menos 78 títulos de autores das periferias ao longo de seus oito anos de atuação, a editora também promove feiras literárias, saraus e oficinas de iniciação à escrita em escolas públicas.

Em 2026, o projeto dá mais um importante passo: a criação da primeira 1ª Festa Literária de Heliópolis. No evento, marcado para 26 de abril, às 10h, na Praça Padre Pedro Balint, serão lançados 20 títulos de escritores de quebradas, como “A Última Noite de Escravidão”, de Rogério Santos, “Meu Amigo Imaginário é Uma Ancestral”, de Yara Lopes, e Bucólica, de Alice Seixas.

Oficina de literatura promovida pela Editora Gráfica Heliópolis @Deka Carvalho/Divulgação

“Se com a editora a gente busca fomentar e lançar novos escritores, o objetivo da feira é reunir esses talentos em um grande evento, para que a literatura periférica possa, enfim, ter um espaço no calendário anual [da região]”, conta Elaine.

A editora foi fundada com um investimento de R$ 100 mil, proveniente de um edital do Itaú Cultural. Em 2025, recebeu um aporte de R$ 480 mil por meio do programa Fomento à Cultura da Periferia, da Prefeitura de São Paulo.

Os investimentos permitiram estruturar equipe, contratar profissionais de revisão, design e recursos humanos e fortalecer a circulação de renda dentro de Heliópolis. Desde então, a editora ampliou sua atuação para outros territórios periféricos, chegando a Rio Branco, no Acre.

Elaine é fundadora da Editora Gráfica Heliópolis e idealizadora da Feira Divas do Sol @Deka Carvalho/Divulgação

Entre as obras publicadas estão: “A Cidade das Dores”, de Fábio Portela, e “Cabelo Enroladinho e Pele Pretinha, Por Que Minha Vó é Branquinha?”, de Juliana Roshel.

Para Elaine, empreender na favela muitas vezes é algo que começa pela necessidade, mas que pode se transformar em um caminho de autonomia e valorização de saberes locais. “É uma forma de fazer bem aquilo que se conhece e gosta, ao mesmo tempo em que se gera renda dentro da comunidade”, aponta.

‘Muitas propostas priorizam o social ou o empreendedorismo. A gente entende que os dois são fundamentais

Elaine, fundadora da Editora gráfica Heliópolis

“Não é só dar a vara ou ensinar a pescar, mas construir junto com o escritor, transformar o talento em possibilidade real de renda. Porque a arte literária precisa ser valorizada.”

Gerando desenvolvimento

A trajetória de Elaine nos negócios criativos começou muito antes de ela se nomear empreendedora. Desde jovem, buscava formas de garantir renda para ajudar nas despesas de casa. Viu familiares venderem gelinhos, cocadas e trabalharem em mercearias de bairro para conseguir pagar as contas.

Na juventude, também atuou como revendedora de produtos de beleza. Em 2015, trabalhou em uma distribuidora de pneus, mas deixou o emprego após enfrentar episódios de machismo e violência. Após mais de uma década no setor de autopeças, decidiu empreender de forma definitiva.

A empreendedora na Feira Divas do Sol, realizada no Sesc Ipiranga @Deka Carvalho/Divulgação

Nesse mesmo ano, passou a atuar como produtora na Companhia de Teatro Heliópolis. Em 2018, ao lado do marido, criou a Editora Gráfica Heliópolis, inicialmente instalada no CEU Heliópolis, com a proposta de acolher escritores da periferia que não encontravam espaço no mercado editorial tradicional — uma resposta à recorrente dificuldade de acessar espaços de publicação de livros.

Com a pandemia de covid-19, entre 2020 e 2021, a editora precisou fechar o espaço físico e migrar para um modelo de produção terceirizada, passando a operar em casa. Foi nesse contexto que o projeto se expandiu para além dos livros.

Em 2021, Elaine e Paulo criaram a Feira Divas do Sol, voltada a empreendedoras das áreas de artesanato, beleza e vestuário, que ficaram sem renda na pandemia. A iniciativa começou com oito barracas improvisadas próximas à Igreja São João Clímaco e hoje reúne ao menos 100 expositoras de forma rotativa, ocupando mensalmente diferentes espaços da cidade. A programação da feira está disponível no Instagram oficial do evento.

1ª Festa Literária de Heliópolis

A ideia de criar a 1ª Festa Literária de Heliópolis nasceu de uma inquietação antiga de Elaine: dar visibilidade à potência cultural do território. Mais do que um encontro pontual, a ideia é consolidar Heliópolis como referência literária nas periferias de São Paulo, em um caminho que exige continuidade.

‘A gente não está falando só de um evento, mas de um processo: formar leitores, incentivar novos escritores, publicar autores da quebrada e garantir que esses livros circulem dentro e fora do território

Elaine

A proposta também dialoga com os desafios históricos enfrentados por escritores periféricos no mercado editorial. A falta de acesso, de recursos e de visibilidade ainda são barreiras que impedem ou limitam novas publicações de autores das quebradas.

Slam promovido pela Editora Gráfica Heliópolis, com a presença de escritores locais @Deka Carvalho/Divulgação

“Os desafios são muitos: falta acesso às grandes editoras, falta recurso financeiro para publicar, falta representatividade e, principalmente, falta espaço para circular com as obras. O que a gente faz é criar alternativas e fortalecer a produção independente”, afirma.

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Isabela do Carmo

Jornalista e pós-graduanda em Direitos Humanos e Lutas Sociais pela UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo). É correspondente de Heliópolis desde 2023.

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