Arquivo pessoal/Divulgação
Por: Gabrielly Souza
Notícia
Publicado em 18.12.2025 | 20:48 | Alterado em 05.03.2026 | 10:36
Sem uma estação meteorológica própria em funcionamento, Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo, ainda depende de informações de cidades vizinhas para entender seu próprio clima. Para mudar essa realidade e reduzir os efeitos das ilhas de calor nas periferias, um grupo de jovens decidiu tomar a iniciativa.
Felipe Prata, 22, estudante de Engenharia Mecatrônica e morador dos Pimentas; Edigar Martins, 19, também da Engenharia Mecatrônica e morador de Bonsucesso; Luiz Henrique Macedo, 18, estudante de Engenharia da Computação e morador da Vila Galvão; e Leonardo Celestino, 20, estudante de Gestão Pública e morador do Cocaia, arregaçaram as mangas para criar o Guarulhos Cidade Motriz.
O projeto desenvolve e instala estações meteorológicas de baixo custo em bairros periféricos da cidade, para analisar microclimas e entender melhor o fenômeno das ilhas de calor (aquecimento desigual de algumas regiões, devido à absorção e retenção de calor por construções).

Luiz à esquerda, Leonardo ao centro junto de Felipe, e Edigar à direita, no Jardim Vermelhão, durante a instalação da estação @Arquivo pessoal/Divulgação
Cada integrante assumiu uma parte do projeto: Edigar criou o design e a interface da estação, impressa em 3D; Felipe garantiu que tudo funcionasse, incluindo a montagem dos circuitos e a instalação dos sensores; Luiz montou a rede de coleta de dados; Leonardo ficou responsável pela comunicação e parceria com a comunidade.
O trabalho conjunto permitiu construir as primeiras estações meteorológicas, que já funcionam na Associação MHC – Unidos pela Terra, no bairro do Taboão, e na Associação do Vermelhão, nos Pimentas, duas organizações comunitárias periféricas de Guarulhos.
As estações foram desenvolvidas com sensores específicos, cada um com uma função própria. O sensor de chuva, por exemplo, precisa ficar exposto para medir a quantidade de milímetros precipitados e enviar esses dados para a rede do projeto.

A iniciativa recebe apoio da Bloomberg Philanthropies, organização internacional que financia ações ligadas à sustentabilidade e à melhoria da vida urbana. Segundo o grupo, a meta é tornar Guarulhos uma cidade mais sustentável e atenta às necessidades das periferias.
‘Instalar uma estação no Bosque Maia, no centro de Guarulhos, seria mais do mesmo. O impacto real está em levar tecnologia para as bordas da cidade, onde os efeitos do clima são mais severos’
Felipe, estudante de Engenharia Mecatrônica
No bairro do Taboão, área que costuma sofrer com enchentes provocadas pelo rio Baquirivu, as medições podem ajudar a prevenir alagamentos. As novas estações permitirão, por exemplo, identificar períodos de cheia, rota das chuvas e comportamento de rios e córregos.
Para o aposentado Amilton Guimarães da Silva, 55, morador do bairro, o equipamento pode aumentar a segurança de quem vive na região.
“Já tivemos duas ou três enchentes que prejudicaram várias famílias. Com esse aparelho, poderemos ser avisados com antecedência e sair das áreas de risco”.

Veronica, moradora do Vermelhão desde o surgimento da comunidade no fim da década de 90 @Gabrielly Souza/Agência Mural
Além de monitorar chuvas, as estações ajudam a mapear ilhas de calor, áreas mais quentes devido à falta de vegetação e ao excesso de concreto.
Este é o desafio no bairro do Vermelhão, marcado por intenso adensamento de casas e poucas áreas verdes. A moradora Verônica dos Santos Matos, 57, auxiliar de limpeza, conta que algumas ruas são muito mais quentes que outras.
“A Rua Pátria é mais fresca. Já a Rua Liberdade esquenta demais, principalmente no fim da tarde”, relata.

Soraia, moradora do Vermelhão, em uma das ruas do bairro @Gabrielly Souza/Agência Mural
Ela lembra que, desde a instalação de paralelepípedos, há 14 anos, o bairro deixou de sofrer com lama em dias de chuva, porque a pavimentação com blocos é mais permeável que o asfalto e ajudam a evitar alagamentos.
Para a dona de casa e também moradora do Vermelhão, Soraia Santos, 38, a instalação das estações ajuda a combater a circulação de informações falsas sobre o clima.
“Teve uma ventania esses dias e circulou uma notícia alarmante. Com o equipamento, teremos informação da comunidade para a comunidade, sem pânico”, avalia.
Segundo Felipe, integrante do projeto, os dados também ajudam a identificar pontos mais frescos e reforçar a importância da arborização. “Às vezes, uma rua é muito mais quente porque há descarte de lixo nela. Duas ruas abaixo, o clima já muda. Tudo varia de quarteirão para quarteirão”, explica.
Em 2021, durante fortes chuvas, o córrego Cachoeira transbordou @Amilton Guimarães/Divulgação
Estação meteorológica de baixo custo pronta para instalação @Gabrielly Souza/Agência Mural
Fachada da Associação do Vermelhão, um dos pontos que receberam a instalação das estações @Gabrielly Souza/Agência Mural
Logotipo do projeto Guarulhos Cidade Motriz @Leonardo Celestino/ Divulgação
O grupo ainda planeja instalar uma nova estação no Cabuçu, uma das áreas mais verdes de Guarulhos, por ser próxima ao Parque da Cantareira. Durante a fase de pesquisa, eles observaram que, no Cabuçu, as temperaturas podem ser dois ou três graus mais baixas do que no Vermelhão.
Porém, o avanço do projeto depende das parcerias com associações e ONGs locais. “Instalar a estação dentro da comunidade faz a prefeitura voltar o olhar para esses territórios e reconhecer seus moradores. Isso gera pertencimento e valorização”, diz Leonardo.
A expectativa é que os dados coletados pelas estações meteorológicas passem a aparecer diretamente no Google Maps. A integração permitirá que qualquer pessoa acompanhe, em tempo real, indicadores como temperatura, umidade e os pontos mais frescos da cidade.
Os jovens responsáveis pelo projeto esperam que essas informações também sirvam de subsídio para que a prefeitura desenvolva políticas públicas baseadas em dados.

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Jornalista e pós-graduanda em Jornalismo Cultural pela UERJ. Correspondente local em Guarulhos e moradora do bairro dos Pimentas. Também atuo como jornalista na TV Cultura.
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