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Agência de Jornalismo das periferias

Léu Britto/ Agência Mural

Por: Barbara Paula | Jacqueline Maria da Silva

Notícia

Publicado em 29.12.2025 | 14:18 | Alterado em 13.01.2026 | 23:16

Tempo de leitura: 6 min(s)

Um dia de sol de dezembro. Um grupo se encontra em frente a casa de alvenaria em construção na favela Nuno Roland, no Capão Redondo, zona sul de São Paulo. O isopor cheio de bebidas geladas marca o encontro entre amigos, mas também a maneira encontrada por eles para suportar o calor extremo.

Os termômetros marcam 35ºC, mas nas quebradas a temperatura pode ser bem maior. Uma pesquisa do Centro de Estudos das Favelas (CEFAVELA), ligado à UFABC (Universidade Federal do ABC), mediu a temperatura de superfícies, como telhados, ruas e solo, e revelou diferenças de até 15°C entre favelas e bairros vizinhos na cidade de São Paulo.

Sair de casa para tentar aproveitar uma brisa, ligar os ventiladores no máximo e improvisar banhos de mangueira já virou hábito comum nas periferias de São Paulo, mas ainda assim o calor ultrapassa a barreira do conforto térmico e só vem aumentando nos últimos tempos.

Moradores da Favela Nuno Roland, no Capão Redondo, tentam se refrescar no dia de calor extremo
O distrito possui quatro das favelas mais quentes do último verão, segundo levantamento do CEFAVELA
O ar condicionado ajuda a regular a temperatura de modo mais progressivo, mas o custo do frescor é alto. População periférica tenta driblar o calor com ventiladores
Questões estruturais e socioeconômicas aumentam a vulnerabilidade ao calor de famílias que vivem nas favelas

Moradores da Favela Nuno Roland, no Capão Redondo, tentam se refrescar no dia de calor extremo @Bárbara Paula/ Agência Mural

O distrito possui quatro das favelas mais quentes do último verão, segundo levantamento do CEFAVELA @Bárbara Paula/ Agência Mural

O ar condicionado ajuda a regular a temperatura de modo mais progressivo, mas o custo do frescor é alto. População periférica tenta driblar o calor com ventiladores @Bárbara Paula/ Agência Mural

Questões estruturais e socioeconômicas aumentam a vulnerabilidade ao calor de famílias que vivem nas favelas @Bárbara Paula/ Agência Mural

“Já passei mal no transporte público, minha pressão cai”, comenta a dona de casa Maria Helia Brito, 50. “Estamos aqui sempre com o ventilador ligado”, conta o vendedor Felipe Américo, 38. “O calor é bem ruim, porque atrapalha toda a vida. É difícil até descansar”, complementa Gabriela Araújo, 29, analista de exportação que já teme que esse verão seja ainda mais intenso.

A queixa dos moradores da favela Nuno Roland é legítima. No último verão, o local teve a maior temperatura registrada da capital paulista: 47.4ºC, segundo o levantamento do CEFAVELA.

A análise foi feita entre dezembro de 2024 e fevereiro de 2025 com uso de imagens de satélite. Elas levantaram a temperatura das superfícies, como asfalto e telhado de casas, que é superior a temperatura do ar.

Existem 32 estações meteorológicas na capital paulista. No entanto, elas não cobrem com detalhe cada distrito. A medição da temperatura por satélite tornou possível a pesquisa pelo menor custo e permitiu comparação entre as favelas.

Calor é marcador de desigualdade

Os resultados da pesquisa chamam atenção sobretudo por revelar um contraste entre áreas de alto padrão e regiões mais pobres. Em áreas nobres do distrito do Morumbi, na zona sul, a temperatura média chegou a 30ºC, enquanto que na favela de Paraisópolis, ao lado, ela alcançou 45ºC.

Os pesquisadores classificam essa diferença como desigualdade térmica. O geógrafo Victor Fernandes Nascimento, um dos responsáveis pelo estudo, explica que a vulnerabilidade social somada aos efeitos das ilhas de calor aumentam o risco de morte para a população mais pobre e periférica.

“Os mais ricos saem de sua casa com ar condicionado direto para o carro. Eles têm condições financeiras de instalar ar condicionado em casa e pagar contas de energia elétrica altíssimas para mantê-los ligados no verão. Quem tem na sua casa ou condomínio uma piscina para se refrescar no calor? Se você navegar no Google Maps vai identificar que várias casas [nos bairros nobres] têm piscina. Isso não acontece na favela”, exemplifica.

PRINCIPAIS ACHADOS DA PESQUISA

1

A temperatura média das 10 favelas mais populosas (incluindo Heliópolis e Paraisópolis) ficou entre 36ºC e 41ºC.

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As favelas com temperaturas mais baixas detectadas, normalmente estão em territórios mais próximos à corpos d’ água ou corredores verdes –  como Jardim Apurá (23,7ºC), próximo a Represa Billings, e o Alto da Riviera/ Jardim Guanabara (23,6ºC), na região da Represa Guarapiranga. Ambos territórios da zona sul da capital.

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A média de temperatura de todas as favelas, tanto as mais frescas como as mais quentes, chegou a 40°C.

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Quatro das favelas mais quentes estão no Capão Redondo Jardim Capelinha/Nuno Rolando, a ‘campeã’, registrou 47,4° C, seguida por Jardim D’Abril II (47,3°C) e Basílio Teles (47,2°C). 

A densidade demográfica das favelas, a falta de vegetação, a estrutura das casas e as ruas estreitas aumentam a sensação térmica e impactam na circulação do vento. O material utilizado para os telhados, muitas vezes de metal, esquentam ainda mais o ambiente e aumentam o desconforto.

Ainda assim, não poucos os programas públicos para arborização de favelas ou climatização de escolas nas periferias, que poderiam ajudar a amenizar o calor, segundo especialistas.

Uma em cada 10 casas de São Paulo está em favela, segundo levantamento da Agência Mural. Vila Andrade, onde se localiza Paraisópolis, é o distrito com maior número de domicílios em favelas (39%), seguido por Capão Redondo (28%) e Sacomã (25%), onde está Heliópolis. Os dois últimos distritos têm menos de 18% de sua área coberta por vegetação, segundo o Mapa da Desigualdade de 2024.

Calor: um perigo silencioso das periferias

Na casa do coordenador de projetos João Victor da Cruz de Paula Pinto, 24, um ventilador não dura mais que um verão. “Todo começo de ano a gente compra um, porque o anterior não aguenta por sobrecarga”.

Ele mora em Heliópolis, na zona sul, maior favela em área de São Paulo, com mais de 1 milhão de metros quadrados e população de mais de 55 mil pessoas. Agora o local é também um dos mais quentes da capital paulista, com registros de até 44ºC, segundo o levantamento da CEFAVELA.

A casa de João Victor tem três cômodos, cada um com uma janela, mas ainda assim o ar não circula, porque não consegue entrar nos becos e vielas de Heliópolis.

Favela de Heliópolis, uma das mais quentes da capital paulista @Léu Britto/ Agência Mural

O calor extremo o leva para a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do bairro com frequência, devido à piora em um quadro crônico de sinusite. A preocupação se estende ao tio e à mãe, que são diabéticos – a mãe ainda é hipertensa. “Ela fica mais ofegante e com dificuldade para subir as escadas”.

Esses sinais, segundo a médica de família e comunidade Jasmine de Matos Cavalcante, já são importantes alertas sobre as condições de saúde de quem está exposto ao calor. Os sintomas mais comuns são dor de cabeça, tontura, enjoo e estresse.

O que o poder público deve fazer?

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Financiar a pintura de telhados e lajes de branco, pois a cor ajuda a refletir a radiação solar e dá sensação de menor temperatura.

2

Criação de parques, jardins de chuva e corredores verdes para enfrentar ilhas de calor.

3

Transporte público com climatização para auxiliar no percurso em dias de calor.

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Criação de ilhas de frescor, que são espaços onde a temperatura é mais baixa, como parques públicos, escolas arborizadas e corredores verdes.

Doenças do calor e a saúde planetária

Doença do calor é um conjunto de sinais e sintomas causados pela interrupção na termorregulação devido à exposição ao calor extremo.

“Populações periféricas acabam sendo mais vulneráveis por conta da situação de moradia, de arborização e ventilação para resfriamento do ambiente. Quantos pacientes sofreram um infarto e precisaram parar de trabalhar, porque ficaram com sequelas? Isso impacta na renda da família”, conta a médica Jasmine.

A média de todas as favelas chegou a 40°C @Léu Britto/ Agência Mural

Ela integra um grupo de estudos de saúde planetária na Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade. É um campo novo da medicina que busca entender como as alterações do planeta, principalmente as questões climáticas e ecológicas, impactam a saúde das pessoas.

O calor é um desses fatores que têm afetado a população. Quem fica exposto pode ter agravamento de doenças pré-existentes ou desencadear as chamadas doenças do calor, em especial exaustão e insolação. Esses efeitos acontecem em escala, que começa com sintomas leves até chegar ao coma e à morte por dificuldade em controlar a temperatura.

Os seres humanos possuem um centro de regulação térmica no cérebro. Quando a temperatura do ambiente e a do nosso corpo ultrapassa os 35 ºC pode haver efeitos negativos sobre o organismo. A exaustão pelo calor inclui fraqueza e náusea por perda de líquidos e piora a capacidade de responder ao calor do ambiente. A insolação é um quadro grave de risco de morte em que há um mau funcionamento dos sistemas orgânicos.

Fonte: Manual de Saúde para a Familia

O calor tende a afetar mais pessoas com a regulação do termostato ainda prematura, como crianças, idosos ou pessoas com doenças prévias. Estudos mostram o que a médica já vivencia na prática clínica no posto em que atua na periferia da zona sul da capital: temperaturas elevadas provocam a descompensação de doenças cardíacas, renais, respiratórias e psiquiátricas, como esquizofrenia e depressão.

Acidente vascular cerebral (derrame) e infartos também aumentam neste período. Pacientes em situação de vulnerabilidade também manifestam maior ansiedade climática pelo futuro.

As favelas com temperaturas mais baixas detectadas, normalmente estão em territórios mais próximos à corpos d’ água @Léu Britto/ Agência Mural

“É bem estressante viver assim. O calor extremo é incompatível com a vida. Não dá vontade de fazer nada. Você sente que mexe com o seu emocional”, desabafa João de Heliópolis.

Profissionais de saúde lidam ainda com subnotificação de casos de mortes por calor e dificuldade de sensibilizar centros de saúde para detectar esses acometimentos, apesar de serem uma realidade cada vez mais frequente.

“Todas as soluções são coletivas e conjuntas. É difícil tentar resolver todo o problema da onda de calor sozinha no meu consultório”, desabafa Jasmine.

Desigualdade térmica revela racismo ambiental

Um ponto que preocupa Victor e Jasmine é a falta de políticas públicas que mitiguem e antecipem as ondas de calor, com foco especial nas favelas e periferias.

“Tivemos recentemente no Brasil a COP30 com debate de como regular o aumento da temperatura no mundo. Dos resultados divulgados, vi pouco sobre a questão dos impactos das temperaturas para pessoas vulneráveis que moram em grandes áreas urbanas e de como regular a temperatura dentro das cidades e muito menos para as pessoas mais vulneráveis”, diz Victor.

Cor, raça e condição social da desigualdade térmica

1

De acordo com o SEADE, Sistema Nacional de Análise de Dados, existem mais de 1,7 milhão de pessoas (15%) vivendo nas 1.359 favelas da cidade de São Paulo. A maioria é negra (52%). 

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Estudo “Panoramas Climáticos das Favelas e Comunidades Invisibilizadas” mostrou que 86% das lideranças entrevistadas em territórios do Brasil relataram passar por pelo menos um evento extremo ao ano. O mais citado foi ondas de calor, por 79 comunidades. 

3

Segundo o censo do IBGE, 3 em cada 10 pessoas moradoras de favelas viviam em trechos arborizados, enquanto em outras áreas da cidade são 7 em cada 10. 

4

Com relação a raça e cor, a cada 10 pessoas pretas moradoras de favelas no Brasil, 7 viviam em trechos de vias sem árvores.

5

Em 1970 ocorriam até três ondas de calor por ano em áreas urbanas do Brasil. Em 2010, chegavam a 11 por ano, segundo a pesquisa “Desigualdades Demográficas e Sociais do Século XXI nas Mortes Relacionadas ao Calor em Àreas Urbanas”.

6

Entre 2000 e 2018, a morte por ondas de calor foi 20 vezes maior que por deslizamentos de terra. A maior mortalidade em pessoas de baixa escolaridade, negros e pardos, idosos e mulheres, segundo a mesma pesquisa. 

Victor anseia e reforça que a pesquisa possa ser um desses instrumentos norteadores para entender e agir sobre as desigualdades em termos de planejamento urbano e políticas de saúde local, assim como proposições para um plano diretor que inclua cuidados específicos com as regiões mais quentes da cidade.

Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo informou que, de janeiro a novembro de 2025, foram registrados 570 atendimentos com a hipótese diagnóstica principal de efeitos do calor e da luz (CIDs T670-T679).

Segundo o órgão, existem ações previstas pela prefeitura para orientação dos riscos e cuidados com altas temperaturas e atividade de vigilância para acolhimento emergencial de casos. Medidas para conter os efeitos do calor e altas temperaturas estão descritas no Plano Municipal de Contingência para situações de Altas e Baixas Temperaturas, que contempla ações da SMS e de outras secretarias.

“Acredito que a situação de vida ficará cada vez mais crítica. É de extrema importância que os governos se unam e desenvolvam medidas a fim de minimizar os impactos e preparar a população adequadamente para as mudanças de temperatura”, desabafa Gabriela, moradora do Capão Redondo, que aguarda que este verão seja mais ameno.

O calor está afetando a minha saúde?

Fique atento aos seguintes sintomas: dor de cabeça, náusea, vômito, fadiga, tontura, pressão baixa, temperatura do corpo acima de 40ºC, desmaio, convulsão e alteração do estado mental, como confusão ou alucinação. 

Fonte: Material do grupo de trabalho Saúde Planetária da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade

Como diferenciar a doença do calor de outros males?

Em dias de calor intenso ou ondas de calor, a hipótese de doença de calor deve ser uma das primeiras. O corpo pode apresentar sinais de febre que podem ser confundidos com outras doenças como gripe. É preciso ficar atento se a temperatura não baixa com remédios e os sintomas não cessarem

Por que devo me preocupar?

Quando o corpo alcança temperaturas acima de 35ºC, ele pode ter dificuldade de conseguir controlar o termostato, entrando em um colapso. Isso pode desencadear  exaustão pelo calor, onde os sintomas são mais leves, como tontura e mal estar. Se não tratado, pode se prolongar e intensificar chegando a outra doença mais grave causada pelo calor, como a insolação, que leva a desmaio, coma e até morte. 

Como prevenir?
  • Beber água mesmo sem sede, de preferência gelada
  • Evitar bebidas alcoólicas, refrigerantes, suco de caixinha.
  • Usar roupas claras, largas, finas e frescas que permitem o corpo suar, processo importante para resfriamento do corpo
  • Preferir alimentos leves, como salada, e evitar os pesados como churrasco ou feijoada que exigem maior gasto energético para digestão
  • Se possível, aguarde a temperatura se amenizar para sair de casa
  • Procure ambiente com ar condicionado ou ventilação para permanecer um tempo até se refrescar, por exemplo, shoppings, farmácias ou estabelecimentos no percurso de casa ou do trabalho
  • Usar compressas frias em região do corpo como pescoço e axilas
O que devo fazer em dias de calor excessivo?

Quando ocorre o aumento da temperatura e da exposição ao sol, os cuidados com a saúde precisam ser redobrados, devido a maior perda de líquidos e de sais minerais pela transpiração. Crianças, idosos e população em situação de rua são os mais sensíveis a essas perdas.

Em casos de sintomas de hipertermia (aumento da temperatura corporal) – como sede, dor de cabeça, vômito, sonolência, taquicardia, pressão baixa, confusão mental e perda de consciência -, é fundamental procurar uma unidade de saúde. 

O serviço da rede mais próximo pode ser encontrado na plataforma Busca Saúde: http://buscasaude.prefeitura.sp.gov.br/ . 

Fonte: Secretaria Municipal da Saúde (SMS), por meio da Coordenadoria de Vigilância em Saúde (Covisa)

E se eu ver alguém com sintomas da doença do calor?
  • Chame o SAMU
  • Mova a pessoa para local fresco
  • Deite a pessoa com as pernas elevadas
  • Remova o excesso de roupas
  • Borrife água gelada e ofereça água gelada para beber
  • Coloque compressas frias em áreas de dobras

Fonte: Material do grupo de trabalho Saúde Planetária da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade

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Barbara Paula

Jornalista, comunicadora e modelo. Apaixonada por moda, poesia, fotografia, arte e cinema. Uma geminiana, humanista e ovolactovegetariana muito falante e risonha. Correspondente de Capão Redondo desde 2023.

Jacqueline Maria da Silva

Jornalista, vencedora de prêmios de jornalismo como MOL, SEBRAE, SIP. Gosta de falar sobre temas diversos e acredita do jornalismo como ferramenta para tornar o planeta melhor.

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