Magno Borges/Agência Mural
Por: Carol Lima | Glória Maria | Isabela Alves | Raphaela Guimarães
Arte: Magno Borges
Edição: Paulo Talarico
Publicado em 25.05.2026 | 8:19 | Alterado em 22.05.2026| 21:33
‘Quando eu saio pra dar um giro, esqueço de tudo’, relata um motociclista. Essa foi uma das respostas de muitos condutores ouvidos pela Agência Mural. Ao longo dos últimos meses, a reportagem entrevistou jovens que praticam o grau pelas periferias de São Paulo. Apesar de ser considerado infração de trânsito e alvo de críticas devido ao barulho (o randandandan alto) e aos riscos, praticantes relatam que veem a atividade como uma “terapia”, além de uma cultura construída desde a infância. Também revelam as tensões em torno da prática
Tempo de leitura: 9 min(s)É domingo à noite quando uma mensagem no grupo de WhatsApp convoca para mais um encontro. O ponto de partida é na quebrada, mas o destino final ainda é incerto. A rota vai sendo definida no caminho, sempre em busca de ruas com pouco movimento de carros e pedestres. Um cenário ideal para “dar o grau”.
A cena se repete em diversas periferias de São Paulo e da Grande São Paulo, com a participação de jovens que veem na moto uma forma de expressão e até como um esporte. Na outra ponta, moradores incomodados com o barulho e com os movimentos realizados por esses jovens.
A atividade é considerada infração gravíssima pelo Código de Trânsito Brasileiro (Art. 244, III), podendo resultar em multa, suspensão do direito de dirigir e retenção do veículo.
Para além da legislação, os jovens relatam que a prática também enfrenta restrições dentro dos próprios territórios. Em algumas regiões, moradores e até grupos ligados ao crime passaram a proibir o grau após registros de acidentes e situações de risco.

Pelas ruas de bairros de algumas periferias de SP, motociatas se tornaram um movimento comum nos fins de semana @Magno Borges/Agência Mural
Placas com avisos como “Proibido dar grau, sujeito a cacete” apareceram em ruas onde os encontros eram frequentes, especialmente aos domingos, durante o chamado “Domingrau”. Segundo os relatos, a medida foi motivada por casos de atropelamentos e pelos transtornos causados pelas manobras em áreas residenciais.
Diante desse cenário de dupla repressão, o que faz com que jovens decidam fazer o som do “randandandandan” e manobras arriscadas nas quebradas de São Paulo? Nesta reportagem especial, a Agência Mural ouviu quem empina moto pelas periferias.
As histórias mostram que há críticas dos próprios condutores a quem exagera; que o começo do grau vem da adolescência ao ver os mais velhos na atividade; que trabalham na semana e acharam um tipo de lazer; e que por trás de cada manobra há uma sensação que anima a levar a moto para o alto, mesmo que perigosamente.
Professor de trânsito em Itapevi, na Grande São Paulo, P*, 32, participa aos fins de semana do encontro de grau no bairro onde mora.

@Magno Borges/Agência Mural








Paulo, 19, é motoboy. Desde criança almejava ter uma moto. Era parte de um sonho para realizar um hobby que, para ele, é especial e divertido: dar grau.
Ele passou parte da infância em Paraisópolis, favela da zona sul de São Paulo. Aos 8 anos, ganhou da mãe a bicicleta que tanto queria.
“Fiquei feliz quando ganhei a bike. Eu já tinha amigos que davam grau e outros que queriam aprender junto comigo, e foi aí que começou. Comecei a praticar”, comenta. Foi ainda na bicicleta que ele teve o primeiro contato com esse tipo de atividade.

Manobras também costumam ser gravadas para aparecer nas redes sociais @Arquivo Pessoal
Desde pequeno, já imaginava como seria fazer aquilo em uma moto. “Quando crescer, vou dar grau de moto”, lembra. Aos 12 anos, mudou-se de Paraisópolis para Taboão da Serra, na Grande São Paulo.
Se antes o grau era apenas treino, foi lá que começou a acertar as manobras. “Não me lembro muito bem quando foi a primeira vez que fiz um grau que deu certo, mas lembro da sensação: de superação, de ter conseguido”, afirma.
Aos 17 anos, realizou o sonho de infância: comprou a primeira moto, uma 50cc, conhecida como “cinquentinha”, e passou a treinar com ela. O motoboy explica que há diferenças entre o grau de bike e o de moto. “Moto é mais difícil, por conta do freio no pé, que é preciso acostumar e saber a hora de pisar, mas o equilíbrio e altura é bem parecido com a bike”, comenta.
Hoje, Paulo treina perto de casa, em ruas mais paradas e com pouco movimento, justamente por uma questão de segurança. Ele reforça que, para quem está começando, é fundamental ter persistência e escolher locais adequados para praticar.
‘Quando faço, esqueço dos problemas, igual pessoas que se distraem jogando bola ou no videogame’
Paulo, motoboy
Ele também defende mais reconhecimento para a prática. “Todos nós que praticamos isso só queremos um espaço. Não queremos discriminação, ou pessoas apontando como crime, porque para nós é um esporte”, finaliza.
“O sentimento de fazer a primeira manobra é emocionante. Só quem empina vai entender”, resume William, 20, que pratica o grau há pelo menos seis anos.
Morador do Jardim São Luís, na zona sul de São Paulo, ele é conhecido como “Bolívia”. Cabeleireiro e apaixonado por motos desde criança, não faz parte de nenhum grupo, mas se destaca entre os amigos quando o assunto é dar grau e cortar de giro.
“Comecei a dar grau com 14 anos. Antes, já empinava bicicleta. Não é a mesma coisa, mas quem aprende na bike e é desenrolado, quando pega uma moto, a primeira coisa que quer tentar é empinar”, afirma.

Cruzar a perna é uma das manobras do grau @Magno Borges/Agência Mural
Na correria do dia a dia, sobra pouco ou quase nenhum tempo para a prática. Ele trabalha em escala 6×1, com jornadas que chegam a 12 horas diárias.
“Trabalho de terça a domingo. Acordo às 8h e, às 9h, já começo a atender os clientes. Paro apenas para o almoço e, às vezes, só encerro por volta das 22h”, conta.
‘O grau acaba sendo uma distração fora do salão, algo que eu tinha vontade de aprender desde moleque‘
William, cabeleireiro
Popular nas periferias, o grau mistura lazer, adrenalina e identidade, mas também é alvo de repressão. Em alguns territórios, a prática já foi associada a ameaças de punição física, com faixas que alertam “sujeito a cacete” para quem desrespeita regras locais.
Bolívia explica que existe um código dentro das próprias periferias. Segundo ele, a prática não pode ser realizada em qualquer lugar e exige respeito aos moradores.
“Já ouvi reclamação. Não tem o que fazer se a população não está de acordo, é respeitar. Aqui dentro da quebrada tem que andar normal. A gente se organiza em comboio para ir pra algum lugar onde dá pra empinar”, conta.
Entre esses espaços, um dos mais conhecidos era o chamado “RodoGrau”, ponto popular entre motociclistas pelas pistas largas e retas, que facilitam as manobras, o que acabou dando origem ao nome. O local ficava no trecho do Rodoanel Mário Covas, em Guarulhos.
“Parte da via chegou a ser fechada para obras e a gente aproveitava esse espaço para praticar. Hoje está mais difícil acessar, porque a área passou a ser mais monitorada pela polícia”, explica.

Jovem empinando a moto no Jardim São Luís, zona sul de São Paulo @Arquivo pessoal/Divulgação
Mesmo assim, o “RodoGrau” ganhou fama entre os motociclistas e ultrapassou o espaço físico: virou jogo de celular e cenário no Roblox, plataforma de jogos online, onde usuários simulam manobras.
Mesmo reconhecendo os riscos, ele explica por que continua: “Não traz benefício nenhum, só prejuízo. Estraga a moto. Mas, ao mesmo tempo, me alivia o estresse, o peso do dia a dia. Quando eu saio pra dar um giro, esqueço de tudo”, conclui.
Um dos desejos dos jovens do grau é parecido com o de produtores culturais das periferias, como os do funk: ter locais para a prática. “A nossa luta é só essa: ter um espaço para a gente.”
O pedido parte de um grupo de jovens do Grajaú, no extremo sul de São Paulo. Eles praticam o grau em diferentes pontos da cidade, como a Avenida Atlântica, a Ponte Estaiada ou até bairros mais distantes.
Mais do que o trajeto, o que importa é o momento: realizar manobras, testar limites e compartilhar, entre amigos, uma experiência marcada pela adrenalina e pelo sentimento de liberdade.
“Comecei a gostar porque via os caras mais velhos mandando grau na porta da escola. A gente, menorzão, ficava olhando e pensando: ‘quero fazer igual também’.”, conta Wesley, 21. Ele começou a treinar aos 13 anos.

Apesar dos perigos, jovens dizem que manobras são feitas com cautela @Magno Borges/Agência Mural
“Praticava na bicicletinha, levantava um pouco, descia, tentava de novo e assim fui aprendendo novas manobras. Você vai desenrolando até ficar mais velho e conseguir comprar sua moto”.
Com a experiência adquirida na bicicleta, ele afirma que a adaptação para a moto aconteceu de forma natural. “Quando você menos percebe, a roda já está pra cima e você tá mandando”, diz.
Alexandre, 23, ainda não tem moto própria, mas sonha em comprar uma para poder praticar.
‘De tanto ver os moleques mais velhos fazendo, fui tentando e acabei aprendendo. Até hoje é difícil acertar algumas manobras, mas a gente não desiste, porque é algo que vem do coração. É até difícil de explicar’
Motociclista da zona sul
Entre as técnicas mais comuns está o chamado “surfar no grau”, quando o praticante ganha velocidade, empina a bicicleta e segue sem pedalar, equilibrando-se apenas com o corpo. “Tem o grau de iniciante, que é pedalando. Mas quem já manja pedala, ganha impulso e puxa de uma vez”, explica.

Prática é questionada por moradores que reclamam do barulho. Praticantes criticam quem exagera @Magno Borges/Agência Mural
Enquanto as manobras realizadas com bicicletas seguem permitidas em ruas e espaços públicos, a prática com motos enfrenta cada vez mais restrições. No passado, os encontros reuniam grupos de jovens em grandes passeatas.
Em muitos casos, eles chegavam a retirar o DB Killer (dispositivo instalado no escapamento para reduzir o ruído) para intensificar o barulho das motos.
A prática, porém, passou a incomodar moradores, principalmente pelo som alto e constante, que afeta especialmente idosos, pessoas com deficiência, crianças e até animais.
Para quem pratica, o grau exige disciplina e responsabilidade. Ainda assim, os excessos cometidos por alguns acabaram prejudicando aqueles que buscam apenas fazer a arte das manobras. Muitos retiram a placa das motos e circulam sem retrovisores.
“Esses caras que causam desse jeito nem sabem mandar direito. Pelo erro dos outros, acabamos pagando”, afirma Luiz, 20.

O grau poderia ser reconhecido como outras modalidades, defendem @Magno Borges/Agência Mural
Os jovens defendem que o grau poderia ser reconhecido como um esporte de alto risco, assim como modalidades já consolidadas, como MotoGP, motocross e freestyle motocross (FMX).
Por viverem perto do Autódromo de Interlagos, apontam o local como ideal para a prática. No entanto, a realidade é outra: muitos não têm sequer condições financeiras de comprar ingressos para acompanhar as corridas de perto.
“Se tivesse um espaço apropriado para a gente praticar, ou se surgisse alguma oportunidade, muita coisa poderia mudar na nossa vida”, reflete Wesley.
Em muitos casos, os encontros não têm dia nem horário definidos. Por meio de um grupo de WhatsApp, os participantes combinam um ponto de partida. Eles saem do trabalho ou de algum rolê, e se reúnem geralmente à meia-noite em um posto de gasolina. Tem um tempo de até 15 minutos de espera e, depois disso, metem marcha.
“Querendo ou não, isso virou uma tradição em todas as favelas”, relata Wesley, ao comentar sobre esse modo de vida. Ele explica que, durante as manobras, é preciso ter foco total.
O que pensa na hora de fazer o grau? “Primeiramente, quando a gente está empinando, pensa em não cair para trás”, diz, aos risos. “Mas, quando você está com a mente atribulada, faz o que gosta e acaba esquecendo as preocupações.”
Eles ressaltam que o “grau” não é uma prática acessível a qualquer pessoa e exige técnica, controle e experiência. Entre as manobras mais difíceis está o “RL”. “É quando você freia e joga a moto para frente, levantando a traseira. Aí tem que controlar tudo no freio”, explica.
Existem também as manobras “raspa a mão no chão”, “perna cruzada” e até o estilo chamado de “suicida”, em que o praticante coloca os dois pés sobre o banco e controla a moto apenas pelo freio traseiro. Quem consegue fazer mais movimentos, é o que se destaca.

O automático é um dos mais difíceis, segundo praticantes ouvidos pela Mural @Magno Borges/Agência Mural
Ainda assim, os jovens reconhecem os riscos envolvidos: muitos já presenciaram acidentes graves, com pessoas que se machucaram seriamente e até perderam a vida após se desequilibrar.
Eles também afirmam que nunca foram abordados pela polícia enquanto praticavam. Já em relação às regras impostas dentro da própria comunidade, destacam a importância do respeito.
‘Tem que saber a disciplina da favela e a disciplina dos caras. É aquilo: respeito acima de tudo’
Praticante do grau na zona sul
Além disso, utilizam códigos e referências numéricas ligados à prática. Entre eles, o “244”, em alusão ao artigo do Código de Trânsito Brasileiro que proíbe a manobra; o “46”, número do piloto italiano Valentino Rossi, várias vezes campeão mundial de moto GP nos anos 2000 e uma das principais inspirações; e a expressão “59 de coração”, ligada a uma página sobre o grau criada durante a pandemia, em Diadema.
Eles avaliam que a cultura do “grau” também se expandiu para outros países, como na Europa e na América Latina. No entanto, destacam diferenças na forma de pilotagem.
Segundo eles, nesses lugares é mais comum o uso de motos do tipo scooter, que são semiautomáticas e não possuem embreagem, ou seja, basta acelerar e frear. No Brasil, por outro lado, predominam as motos manuais, o que, na visão dos praticantes, torna a experiência mais desafiadora e intensa.
Para eles, esse controle maior da máquina é parte essencial da prática, já que permite “sentir” melhor a potência da moto durante as manobras.
‘É igual a gente costuma falar: Grau é arte, cair faz parte. Você está sujeito a tudo’
“Quem virou, virou! E quem ainda não virou, vai virar”.
*Os entrevistados tiveram as identidades preservadas devido ao risco de exposição e possíveis represálias.”
Jornalista e digital influencer, amo contar histórias. Mãe de dois meninos, atualmente produzo conteúdo sobre maternidade e lifestyle nas redes sociais
Jornalista, produtora cultural e moradora de Paraisópolis. Graduanda em Gestão de Negócios, é cofundadora do 7 Notas, laboratório de criação.
Jornalista e cineasta da quebrada. Pós-graduanda em Mídia, Informação e Cultura e em Gestão de Projetos Culturais pelo CELACC/USP. Fundadora da Parasita Filmes, produtora independente dedicada a contar histórias do extremo sul de São Paulo.
Jornalista, pós graduada em Marketing pela USP e mãe de um menino. Apaixonada por comunicação com propósito, busca promover justiça social através da informação. Ama contar histórias que inspiram e gerar mudanças positivas.
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