Produzido a partir das vivências em 14 salões de cabeleireiros e barbearias das periferias de Barueri, na Grande São Paulo, o documentário “Estéticas Periféricas: o corte” está em circulação por festivais e escolas e será exibido no próximo dia 10 de maio, às 11h, no Museu das Favelas, em São Paulo. O filme retrata o dia a dia de profissionais que transformam estética em ferramenta de sobrevivência, identidade e pertencimento.
O projeto é um desdobramento da dissertação da diretora e pesquisadora Lidiane da Silva, 40, “Estéticas Periféricas nos corpos vestidos”, que investiga como a estética da periferia se manifesta por meio de roupas, cortes de cabelo, adornos e modos de se apresentar na sociedade.
Moradora do Parque dos Camargos, Lidiane afirma que o filme nasce de uma vivência pessoal e de uma investigação sobre pertencimento.
“Essa ideia nasce de uma experiência vivida, nasci na periferia, minha mãe teve salão, minhas tias, vi meus primos com luzes e cabelos na régua. Estudei estética periférica como linguagem de sobrevivência e pertencimento e descobri que os salões e barbearias são templos da construção da identidade”.
Documentário mostra a realidade dos cortes e identidade visual nas periferias @Divulgação
“O objetivo maior desse curta é trazer a estética nas periferias e a linguagem de sobrevivência. Acho que o principal é trazer a reflexão de que cuidar da aparência na periferia também é um ato político”, afirma.
O cabeleireiro Diego de Souza Fonseca, 33, que atua há nove anos na área com cortes de cabelo, barba e pintura, destaca a importância do reconhecimento do trabalho desses profissionais.
“Foi muito legal, ela apresentou o nosso trabalho na periferia, o nosso carinho com os clientes. Foi uma experiência surreal”, afirma.
A cabeleireira Marisa de Jesus Cruz, 53, especialista em cabelos afro, pintura, progressiva, alisamento e cortes, também moradora do Parque dos Camargos, vê a participação como uma conquista pessoal.
“Pra mim foi muito importante. Eu nunca pensei em participar de um documentário. Já tinha visto alguns na TV e pensava: ‘já pensou se um dia participo de algo assim?’ Pra mim foi muito satisfatório.”
“Eu tenho 35 anos de profissão, e a melhor coisa da minha vida é trabalhar como cabeleireira”, declara.
Marisa em seu salão de cabeleireiro @Arquivo pessoal
Lidiane explica que o filme evita uma abordagem quantitativa e aposta em uma leitura mais subjetiva do trabalho desses profissionais.
“É um empreendedorismo que aparece de forma mais qualitativa. A gente mostra como esses profissionais, além de gerar economia local, fazem a manutenção da autoestima dos sujeitos periféricos. Como esses espaços — salões, barbearias — são espaços de afeto, de apoio, de saúde mental, de troca.”
O produtor executivo Leonardo Escobar, 42, morador de Osasco, ressalta o impacto desse olhar.
“Quando a história nasce de dentro, ela cria identificação imediata. Não é só sobre estética, é sobre identidade e pertencimento”, afirma.
Equipe produzindo o documentário em salão de Barueri @Arquivo pessoal
A diretora também destaca o papel cotidiano desses locais como pontos de escuta e convivência.
“Nas barbearias, por exemplo, os homens se encontram pra falar dos problemas, o cara que senta ali pra cortar o cabelo às vezes tá num dia importante, de entrevista, e encontra apoio. E as mulheres também, elas trocam, falam dos problemas, se reconfortam.”
Lidiane durante a gravação do documentário @Arquivo pessoal
Na avaliação dela, esse ambiente revela um tipo de empreendedorismo centrado no cuidado e nas relações.
“Então é um empreendedorismo muito mais desse lugar do afeto, desse apoio, dessa saúde mental. A palavra ‘terapia’ aparece bastante, porque muitas periferias não têm acesso à terapia formal, e esses espaços acabam sendo outras formas de cuidado.”
Ela acrescenta que a estética também está diretamente ligada ao bem-estar emocional.
“A estética, a beleza, se sentir bonito, cuidar da aparência, isso também está ligado à saúde mental, à autoestima. O filme mostra como esses profissionais fazem esse cuidado de forma qualitativa”
Lidiane da Silva
A produção reuniu cerca de 40 participantes e foi realizada entre abril e novembro de 2025. Na primeira etapa, houve pesquisa e captação, com o mapeamento de 40 salões e barbearias em Barueri, além de mais de 20 entrevistas com empreendedores e clientes. Desses, 14 estabelecimentos foram selecionados para gravação, realizada entre maio e julho.
A pós-produção ocorreu entre agosto e novembro, com decupagem do material, montagem, edição e finalização do filme. O documentário foi realizado com recursos do edital Aldir Blanc, voltado a produções audiovisuais independentes.
O pré-lançamento ocorreu na Casa Griô, espaço cultural em Barueri, no dia 10 de novembro, com exibição para participantes do documentário.
“Foi lindo ver as pessoas rindo, se emocionando e se reconhecendo naquilo que estava sendo exibido”, comenta Escobar.
Direção: Lidiane Silva
Endereço: Museu das Favelas: Largo Páteo do Colégio, 148 — Centro Histórico de São Paulo (SP)
Horário de funcionamento: Dia: 10.05 (Domingo), às 11h
Ingresso: Retire seu ingresso gratuito em: https://www.museudasfavelas.org.br/ingressos/

