Criador da marca “A Favela Me Criou”, o ‘paraisopense’ transformou a cultura do rap em caminho para organizar moradores e enfrentar desigualdades habitacionais
Por: Glória Maria
Notícia
Publicado em 28.05.2026 | 12:11 | Alterado em 29.05.2026 | 14:57
“Eu sou paraisopense”, afirma com orgulho Valdemir José Trindade, 45, morador de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo. Mais conhecido como ‘Guga Brown’, ele usa na cabeça um boné com a frase “A Favela Me Criou”, item da sua marca, que lançou nos anos 2000, como símbolo de orgulho de morar na comunidade.
Para além da moda, ele se destaca por seu trabalho de mobilização social, que une pautas de saúde e cultura hip hop com a luta por moradia digna para as famílias mais pobres de São Paulo.
“O Hip Hop sempre me deu uma visão de lutar pelo trabalho social. Ao longo da minha trajetória, vi muitas letras de rap nascerem dentro de ocupações. Sempre percebi essa relação entre os eventos de Hip Hop e esses espaços, e entendi que não era só sobre cantar, era também sobre reivindicar direitos”, diz Guga.

Guga Brown, liderança comunitária pelas ruas de Paraisópolis @Glória Maria/Agência Mural
Foi a partir dessa vivência nos territórios que ele passou a acompanhar de perto os impactos das políticas públicas na vida da população mais pobre. Desde 2015, ele circula pelos conselhos das unidades de saúde em Paraisópolis e também já atuou como conselheiro de cultura no CEU Paraisópolis, em 2013.
Uma das principais pautas é o aluguel social. Guga afirma acompanhar casos de pessoas que chegaram a falecer aguardando uma moradia social e que permanecem por mais de 15 anos recebendo subsídios do governo para pagar por habitação.
Os valores, segundo ele, são insuficientes para cobrir o custo de um aluguel e há desigualdade nos repasses. “Algumas famílias recebem R$400, outras R$600. São valores diferentes, mas nenhum paga um lugar para morar. As famílias precisam complementar do próprio bolso”.
Apesar da luta e dos desafios, um dos marcos conquistados pela comunidade foi a construção do conjunto habitacional social chamado Parque Sanfona, reconhecido pelos prédios amarelos, que foi entregue em 2024 para 349 famílias.
Guga conta que foram cerca de 6 anos de muitas idas e vindas no poder público, de conversas com lideranças e mobilização social, já que o espaço estava destinado para ser construída uma escola de música. A necessidade da moradia, porém, era mais urgente.

Projeto da prefeitura para o Conjunto Habitacional Parque Sanfona @Reprodução SEHABSP/Divulgação
“A conquista da habitação foi resultado da mobilização de moradores e lideranças comunitárias que organizaram cadastros das famílias afetadas, muitas vezes realizando um trabalho que deveria ser feito pelo poder público. Foram anos de luta e de persistência, defendendo que a moradia era a urgência do momento. Essa conquista me deixa orgulhoso da minha trajetória coletiva”, conta.
O ativista foi um dos companheiros de Zé Maria, liderança que faleceu em 2025 e que atuava junto da UBMCSP (União em Defesa da Moradia e Melhorias das Comunidades do Estado de São Paulo), fundada em 2013. Ele também lutou ao lado das lideranças comunitárias de Paraisópolis Maria Betânia e Brizola, que faleceu no início de 2026.
‘Zé Maria, Maria Betânia e algumas lideranças mais velhas, são grandes referências para mim e companheiros de luta, com quem eu aprendi e aprendo muito, a ter garra e a ter persistência na luta coletiva‘
Guga Brown, liderança comunitária
Nascido e criado na maior favela de São Paulo, Guga relembra a infância marcada por brincadeiras que, às vezes, escondiam necessidades. Ele conta que caçava preás (pequeno roedor silvestre) com os amigos para matar a fome. “Éramos crianças e levávamos como brincadeira, mas não era. A gente ia caçar preás com os cachorros e os adultos e depois eles assavam para comer”.
Jogar bola nos campos barrentos e improvisados de futebol também fazia parte do cotidiano. Guga recorda dos diversos times que existiam na comunidade. “Tinha o Renascença, Palmeirinha, Grêmio, Juventus… A nossa fé era o futebol. Era o sonho de ser jogador, ter dinheiro e tirar sua mãe da pobreza. Esse era o sonho da molecada”.
O córrego Antonico, que hoje carrega sujeira e mau odor, já foi um lugar onde ele tomou banho e pescou peixes. Também se recorda de um bambuzal em um grande lote, que pertencia a uma família japonesa. “A gente pulava o quintal e ficava soltando pipa. Pegávamos frutas e legumes da horta”.
No início de 1998, com o crescimento do hip-hop em São Paulo e influenciado pelo irmão mais velho, que era DJ e apresentava a ele os sons do rap, Guga se aproximou do movimento. Foi nesse período que surgiu o sobrenome “Brown”, quando criou o primeiro grupo de rap, chamado ‘Rap de Raiz’, que durou cinco anos.
Com o tempo, ele decidiu se dedicar à produção cultural, organizando festas e shows na comunidade. Um dos eventos mais marcantes foi um show com o grupo brasiliense Viela 17 e o grupo paulistano Facção Central, realizado em um salão de festas popular da comunidade, conhecido como “Sol de Verão”.
Outra lembrança importante em sua trajetória foi de abrir, como mestre de cerimônia, o show do Mano Brown, realizado em 2008 em Paraisópolis, no campo do Palmeirinha. Mano Brown usava a camisa da marca de Guga, “A Favela Me Criou”. No mesmo ano, o cantor e rapper americano Ja Rule visitou a comunidade e também posou com a camisa.
“A marca nasceu quando percebi que muitas pessoas de Paraisópolis, ao saírem para trabalhar ou para outras situações, diziam que moravam no Morumbi ou na Vila Sônia, por receio de dizer que eram daqui. A marca surge como um símbolo de orgulho e pertencimento”.
Guga diz que o hip hop ensinou a ele muitas coisas e é uma ferramenta que salva vidas. Até 2014, ele promoveu ao menos 80 eventos de rap com grupos de Paraisópolis e de outras periferias, com foco na arrecadação de alimentos.
Em 2025, ele foi mestre de cerimônia no evento “Hip Hop Contra a Fome”, que acontece todos os finais de ano em Paraisópolis, com o propósito de arrecadar alimentos e montar cestas básicas para famílias da comunidade, além também de ser um espaço de celebração para que artistas independentes se apresentem.
Em 2005, a mãe de Guga, Iraci Aparecida, que morava em um barraco na avenida Hebe Camargo, teve a casa desapropriada. Enquanto ela estava no trabalho de empregada doméstica, a prefeitura derrubou o barraco e os móveis que ficaram do lado de fora foram levados por pessoas que passavam pelo local.
O episódio despertou em Guga um sentimento de indignação e foi o que o levou a se aproximar da luta por moradia no território. “Comecei a ir em manifestações, reuniões e a me unir com as lideranças que já estavam nessa luta”, comenta.

O ativista criou uma grife com o foco nas periferias @Glória Maria/Agência Mural
Sem ter onde morar, a mãe dele passou cerca de uns 4 anos vivendo de favor na casa de uma amiga. Ele morava com o pai e os três irmãos em Paraisópolis, na região conhecida como Caixa Baixa.
Dois anos se passaram e a indenização prometida pela prefeitura não chegava. Foi então que em 2015, em um show dos Racionais MC’s na Festa 100% Favela, no Capão Redondo, o ativista conheceu o então senador Eduardo Suplicy (PT) e contou sua história.
“Um amigo escreveu a carta [sobre a situação] e entregamos para o Suplicy. Ele mandou para o Gilberto Kassab [então prefeito de São Paulo, pelo PSD]. A partir dali, minha mãe e outras famílias conseguiram uma indenização, que na época era de cinco mil reais”.
Guga diz que voltou a estudar no EJA ( Educação de Jovens e Adultos) neste ano para entender as burocracias institucionais e tem se dedicado a orientar pessoas que recebem aluguel social.
‘Parei na 6ª série e voltei para poder entender mais sobre leis da habitação. Sou liderança e esse papel pede que eu estude e entenda das burocracias para ajudar mais pessoas’
Guga Brown
Ele afirma ter aprendido caminhos jurídicos na Defensoria Pública com o Zé Maria, com as ocupações de moradias, com as reuniões públicas e pretende compartilhar essas informações para que outros moradores não enfrentem as mesmas dificuldades que ele enfrentou.
“Acredito que falta acesso à informação sobre saúde, moradia e possíveis caminhos para a população. E o que eu sei quero compartilhar”, diz.
Para ele, sua história com a comunidade mostrou que é preciso lutar coletivamente. “É preciso brigar pelo direito, brigar pelas coisas, independente de qual grupo seja, mas construir um movimento em que todos falem a mesma linguagem e lutem por uma bandeira”, diz. “O hip-hop é isso. É brigar pelas nossas vidas”.
Jornalista, produtora cultural e moradora de Paraisópolis. Graduanda em Gestão de Negócios, é cofundadora do 7 Notas, laboratório de criação.
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