Magno Borges/ Agência Mural
Por: Gabrielly Souza
Notícia
Publicado em 02.03.2026 | 16:32 | Alterado em 02.03.2026 | 16:40
Há dois anos, um incômodo persiste na rotina de um condomínio localizado ao lado da fábrica da Bauducco, no bairro dos Pimentas, em Guarulhos, na Grande São Paulo. Não se trata do ruído de máquinas nem do fluxo constante de caminhões. O problema é mais silencioso e contínuo: o descarte de água com forte odor em via pública, bem em frente ao condomínio e a poucos metros de um ponto de ônibus utilizado pela população do bairro.
Douglas Gomes, 42, síndico do condomínio, afirma que a situação já existia quando assumiu a administração do prédio, em 2024. Desde então, segundo ele, o caso se transformou em uma batalha silenciosa, marcada por reclamações formais e sucessivas tentativas de contato com a empresa e com o poder público.
Além da água acumulada, há o odor. Um cheiro forte, difícil de ignorar, que se intensifica em dias mais quentes e durante a madrugada. É justamente nesse período — quando a cidade desacelera e as ruas ficam mais vazias — que o problema se manifesta com maior intensidade, como se a noite ajudasse a encobrir aquilo que, durante o dia, muitos preferem não enxergar.

Fachada da fábrica da Bauducco, no bairro dos Pimentas @Gabrielly Souza/ Agência Mural
Procurada, a Pandurata, grupo do qual a Bauducco faz parte, afirma que a água mencionada não é esgoto, mas exclusivamente água da chuva, proveniente do sistema de captação pluvial da unidade. Segundo a empresa, em razão do grande volume de precipitação, essa água é armazenada em caixas específicas, aprovadas pela Prefeitura de Guarulhos, e liberada de forma gradativa, com o objetivo de evitar alagamentos na região.
A empresa sustenta que segue rigorosamente as normas ambientais e que mantém um sistema de prevenção de enchentes devidamente aprovado em projeto municipal. Reforça que qualquer efluente gerado pela fábrica é totalmente tratado em uma estação de tratamento interna, atendendo aos parâmetros da legislação vigente, e que a água liberada nas vias públicas não é contaminada.
Moradores, no entanto, contestam essa versão. Eles relatam que, além da suposta água da chuva, já foram observados descartes de líquidos amarelados, com tonalidade semelhante à de mostarda. Como a água da chuva se transformaria em um líquido colorido e com odor tão intenso? E por que esses descartes ocorreriam na madrugada? Essas são algumas das perguntas que permanecem sem resposta.

Vazamento de líquido amarelo de um cano da empresa, ocorrido por volta das 4h da madrugada @Gabrielly Souza/ Agência Mural
Douglas, o síndico, conta que alguns moradores evitam atravessar da calçada do condomínio para o ponto de ônibus. O receio é de que, a qualquer momento, ocorra o chamado “banho de esgoto” — inesperado, incômodo e impossível de prever.
Em 2024, houve uma reunião na prefeitura de Guarulhos com representantes da empresa, intermediada pelo vereador guarulhense Welliton Bezerra da Silva (PRTB). A explicação apresentada pela Pandurata foi o descarte de água da chuva, dentro das normas ambientais.
No entanto, a Secretaria de Desenvolvimento Urbano do município informou ter aplicado multa à empresa dias após o encontro. Na ocasião, um fiscal constatou o descarte irregular de esgoto no local.
Após a aplicação da penalidade, a situação foi considerada “solucionada” pelo poder público. Questionada, a pasta afirmou que não tinha conhecimento que o problema persistia mesmo após a multa – e as reclamações do condomínio junto à prefeitura.

Poça de esgoto próxima a um ponto de ônibus no bairro dos Pimentas @Gabrielly Souza/ Agência Mural
Em nota, a Pandurata afirma estar à disposição para dialogar com moradores e autoridades locais, reiterando seu compromisso com a transparência, o cumprimento da legislação ambiental e o bem-estar.
Na prática, a população segue lidando com um grande incômodo na porta de casa, sem solução no horizonte. O impasse permanece. Entre o relato de quem convive diariamente com o problema e as explicações técnicas apresentadas, fica a sensação de que alguns conflitos urbanos não fazem barulho — mas deixam marcas profundas no cotidiano de quem vive ao redor deles.
Jornalista e pós-graduanda em Jornalismo Cultural pela UERJ. Correspondente local em Guarulhos e moradora do bairro dos Pimentas. Também atuo como jornalista na TV Cultura.
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