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Coletivos criam Cinemateca de Quebrada para preservar história audiovisual das periferias

Evento marca o lançamento oficial da Cinemateca da Quebrada no Jardim Ibirapuera

Luci Riviere/ Divulgação

Por: Egberto Santana

Notícia

Publicado em 05.05.2026 | 17:30 | Alterado em 06.05.2026 | 13:10

Tempo de leitura: 5 min(s)

Preservação, valorização e difusão do cinema de periferia. Esses são os objetivos do projeto “Cinemateca da Quebrada”, uma ação lançada por quatro coletivos de audiovisual das periferias da zona sul de São Paulo, para organizar um acervo que catalogue e preserve imagens, vídeos e filmes produzidos nas periferias.

A iniciativa foi lançada oficialmente durante o Tela Mutirão – 1º Fórum Internacional do Cinema da Quebrada, realizado em 12 de abril, no Jardim Ibirapuera, zona sul de São Paulo. Apoiado pelo edital VAI, o evento promoveu exibição de filmes, oficinas e palestras, de temas como práticas de museologia em futebol de várzea e métodos de preservação de filmes e sua importância para as periferias.

“O nosso foco é construir um lugar seguro para as nossas memórias”, comenta Breno Shinn, 30, integrante do coletivo Ramo e responsável pela catalogação e acervo do projeto.

Steffany, Brenno e David seguram a placa ao lado de Daniel (coordenador do Ibiralab), que recebeu o presente da equipe da Cinemateca da Quebrada @Luci Riviere/ Divulgação

Além dele, fazem parte da equipe da cinemateca Stheffany Fernanda, 28, do Coletivo 609, como pesquisadora; David Andrade, 29, vice-diretor e responsável pela difusão do projeto, por meio do coletivo Quitus; e Lincoln Péricles, 30, cineasta da Astúcia Filmes e diretor da Cinemateca da Quebrada.

“A ideia surgiu quando, em meados de 2014, levei DVDs dos meus filmes na Cinemateca Brasileira e tentei deixar lá. Ninguém me orientou e entendi que ali não tinha espaço. Voltei para a minha quebrada e tive a ideia de distribuir os meus DVDs nas bancas de DVD pirata. Aí eu pensei que esse ato de distribuir filmes físicos precisava ser preservado”, conta Péricles, mais conhecido como LK e cria do Capão Redondo, na zona sul.

E foi justamente com essa imagem clássica das periferias que o público se deparou ao entrar no evento que lançou a Cinemateca: uma barraca de DVDs, que reunia títulos doados pela comunidade. Os filmes iam desde clássicos do cinema internacional até produções das periferias disponíveis na videoteca popular do Jardim São Luís, uma iniciativa criada em 2007 por videoativistas para a valorizar de produções das quebradas.

‘Foi justamente na cultura de banquinha de DVD que começamos a consumir audiovisual’

Breno, integrante do coletivo Ramo

Ele é morador do bairro Inocoop, no Campo Limpo, também na zona sul. Hoje, o objetivo do grupo é cada vez mais bem definido: preservar, fortalecer e difundir as produções audiovisuais criadas nas margens da cidade de São Paulo.

Um acervo das quebradas para as quebradas

O projeto tem o propósito de ser um espaço físico para a preservação das produções audiovisuais das periferias, com quatro eixos: educativo, pesquisa, difusão e autoformação. A ideia é, até o fim de 2026, catalogar ao menos 100 filmes das periferias paulistanas e incluí-los em um livro a ser lançado pela Cinemateca da Quebrada, ainda sem data definida, com o título “Manifesto Mutirão”.

Para distribuir os filmes que farão parte do acervo da Cinemateca da Quebrada, a ideia é fugir das estratégias comuns do cinema hegemônico e streamings e apostar no diálogo direto com moradores das periferias. Além disso, os organizadores preveem criar espaços de debate e realizar mostras locais, que permitam que os filmes circulem nas comunidades e além delas.

Evento reuniu pesquisadores e cineastas de diferentes regiões periféricas com o intuito de mapear filmes que estarão na Cinemateca da Quebrada @Luci Riviere/ Divulgação

“Nossa ideia não é vender para o mercado. Se vamos construir comunitariamente, temos que falar com os nossos, trocar ideia olho no olho”, defende David Andrade, vice-diretor da Cinemateca da Quebrada e morador do Rio Pequeno, na zona oeste de São Paulo.

Para isso, os organizadores selecionaram dez curadores de diferentes periferias da capital paulista para ampliar a busca por obras de cineastas, produtores e moradores das quebradas. Há também duas curadoras bolivianas, com a intenção de expandir a ideia para outros países. “Queremos conectar periferias do mundo através de suas memórias”, ressalta LK.

A internacionalização das ações teve início em 2025, quando o cineasta foi convidado pela equipe do projeto Cinemateca Ideal das Periferias do Mundo para ir à França apresentar a Cinemateca de Quebrada no Centre Pompidou, um dos mais renomados complexos culturais e museu de arte moderna de Paris.

Nos últimos dois anos, LK também tem desenvolvido trabalhos em favelas de Nairobi, no Quênia, co-produzindo filmes, dando mentoria para cineastas locais e ajudando a organizar um acervo audiovisual dessas comunidades. Ele também atua em campos de refugiados sudaneses no leste da África, ministrando oficinas de cinema e construindo parcerias com centros de memória audiovisual sobre a guerra no Sudão.

Muito além dos filmes

Ao contrário das cinematecas tradicionais, a ideia do projeto é reunir mais do que filmes produzidos por cineastas das periferias. Vídeos de casamentos, fotos de família, filmagens de aniversários ou vídeos e fotografias amadoras de cenas cotidianas têm lugar especial no acervo.

‘Não procuramos unicamente filmes catalogados como ‘cinema’. Pode ser vídeo de casamento, de batizado, aquele filme que você gravou com seu amigo no skate. Porque isso representa uma época específica que nós vivenciamos e que nós entendemos’

David, vice-diretor da Cinemateca da Quebrada

Participantes do 1º Fórum Internacional do Cinema da Quebrada foram os primeiros a compartilharem imagens digitais do seu arquivo pessoal com o projeto, em um dos momentos mais emocionantes do evento.

A produtora audiovisual Karine Santos, 26, exibiu fotografias antigas de sua mãe e avós, destacando as mulheres como base estrutural da família, de ascendência negra e indígena. “Penso nessas fotografias como preservação da memória, do que é a cultura negra na periferia. Também quero fazer um documentário e usá-las como personagem”, destaca a moradora de Itaquera, na zona leste de São Paulo.

Até o final deste ano, a meta é catalogar 100 filmes das quebradas de São Paulo e publicar o livro “Manifesto Mutirão” @Luci Riviere/Divulgação

Para Steffany, esse foi um dos momentos mais significativos do Fórum, que exemplifica o propósito da Cinemateca da Quebrada. “Poder sentar e ver famílias, corpos e coisas que se assemelham muito nos territórios. [As periferias] são lugares de troca e de disputa e esse é o nosso trabalho primordial: valorizar nós mesmos e os nossos corpos”, detalha a moradora do Jardim Ângela, na zona sul da capital paulista.

Um espaço para as memórias

A Cinemateca de Quebrada está começando a reunir seu acervo. Até o final de 2026, as ações do projeto se concentrarão em pesquisa, curadoria e formação da equipe em técnicas de preservação. No próximo ano, a ideia é ampliar as pesquisas e produzir dados que mostrem a importância de políticas públicas de preservação audiovisual.

A médio prazo, nos próximos cinco anos, a meta é construir uma sede ou estabelecer parcerias com associações de bairro para criar um espaço físico para receber e manter os materiais físicos.

Os realizadores querem dialogar e ocupar espaços culturais já existentes nas periferias, sem se sobrepor aos trabalhos e projetos que já ocorrem.

“A gente vem fazendo estudos, pesquisas, conhecendo pessoas, entrando nos territórios e trocando ideias para que seja possível, quem sabe, ter uma banquinha de DVD da Cinemateca da Quebrada em cada esquina”, sonha Breno.

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Egberto Santana

Jornalista, também é crítico de cinema e redator. Sempre ouvindo ou assistindo alguma coisa, do novo ao velho, do longa-metragem ao reels do Instagram ou Tik Tok. Correspondente de Poá desde 2021.

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ERRAMOS

06.05.2026O texto foi alterado para corrigir os dados de dois entrevistados. Anteriormente o cargo de David Andrade estava como vice-presidente e de Lincoln Péricles como presidente da Cinemateca da Quebrada. Porém, eles utilizam o termo diretor e vice-diretor.

06.05.2026O nome correto da organização de Stheffany Fernanda é Coletivo 609 e não 909 como publicado inicialmente.

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