Letícia Vieira/Divulgação
Por: Glória Maria
Notícia
Publicado em 20.03.2026 | 12:49 | Alterado em 20.03.2026 | 13:47
No final de 2023, Bruno Magno, 32, morador de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, se inscreveu em um projeto voltado à criação de jogos socioeducativos. Naquele momento, ele não imaginava que anos depois estaria ajudando a fortalecer o ensino de história afro-brasileira e africana, a valorizar heróis negros e a combater preconceitos. O melhor? Ele faz tudo isso brincando.
A atividade foi o pontapé inicial para a criação de “Minhas Raízes”, um jogo de tabuleiro que apresenta a trajetória da população negra de forma afirmativa. Lançado em abril do ano passado, as cartas trazem mini biografias de personalidades do movimento negro brasileiro, além de curiosidades sobre o continente africano, cultura, instituições e fatos históricos.

Gabriela, Bruno e Gleiziele são os organizadores do coletivo Nós Raízes @Arquivo pessoal/Divulgação
“A ideia é falar da nossa história de forma positiva. Não só sobre dor ou escravidão, mas mostrar cientistas, pesquisadoras e líderes negros”, afirma Gleiziele Oliveira, 31, multiartista, produtora cultural e jornalista. Ela também é companheira de Bruno.
O jogo é alinhado à Lei 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana nas escolas.
‘A África do Sul, por exemplo, é o único país com três capitais e teve dois ganhadores do Nobel da Paz morando na mesma rua’
Gleiziele, produtora cultural
Quando começaram a formação, a ideia era criar algo voltado à participação escolar, alinhada aos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) da ONU (Organização das Nações Unidas).
Juntos, eles realizaram pesquisas, organizaram a proposta e estruturaram a ideia inicial. No começo, pensaram em desenvolver um jogo sobre reciclagem, projeto que chegou a ser aprovado. Porém, após encontros formativos, eles começaram a se questionar sobre a ideia e perceberam outro incômodo: eram a única dupla formada por pessoas negras.

Crianças com o jogo educativo Minhas Raízes, no Pró-Saber SP @Glória Maria/Agência Mural
“Somos os únicos negros aqui e estamos criando um jogo que foge do ambiente corporativo. Será que era isso mesmo que queríamos fazer? Foi uma virada de chave”, conta Gleiziele.
A partir dessa reflexão, repensaram completamente a proposta e começou a nascer o Minhas Raízes, que também deu outros frutos.
Ainda em 2023, o casal criou o ‘Coletivo Nós Raízes’, já com o protótipo do jogo desenvolvido, com o objetivo de pensar ferramentas pedagógicas afirmativas para professores e escolas, além de disseminar a riqueza das histórias e contribuições da população afro-brasileira e africana.
Para fortalecer a identidade visual e a comunicação do projeto, juntou-se à equipe Gabriela de Souza, designer gráfica e social media.
Ainda como protótipo, feito em papel machê e papelão, o jogo ‘Minhas Raízes’ foi testado em 2023 em instituições locais como o PECP (Programa Einstein na Comunidade Paraisópolis), a Casa da Amizade e o Pró-Saber SP.
Com a consolidação da proposta, o Coletivo Nós Raízes, foi contemplado pelo Programa VAI (Valorização de Iniciativas Culturais) 2024. No ano de 2025, o apoio viabilizou a produção de 120 exemplares, sendo 75 distribuídos gratuitamente a escolas públicas e organizações sem fins lucrativos.

Tabuleiro do jogo educativo criado pelo coletivo Nós Raízes @Letícia Vieira/Divulgação
Além da distribuição, o grupo realizou ações pedagógicas com crianças, adolescentes e idosos que consistiram em aplicações do jogo com mediação do coletivo. Em algumas dessas atividades, também foi desenvolvida a dinâmica complementar “Chave-amuleto”, na qual os participantes montavam um amuleto Adinkra inspirado no jogo para levar para casa.
Já nas formações voltadas a professores e educadores, as atividades incluíam uma aplicação mediada do jogo, seguida de uma conversa sobre as possibilidades de uso do material em sala de aula.
A Biblioteca do Pró-Saber SP, possui o jogo oficial. Para o assistente de biblioteca Guilherme Mendes, graduando de história, o tabuleiro cumpre o papel de aprendizado coletivo e questionamento.
“Pude perceber que com passar das rodadas, o que antes era desconhecido torna-se familiar. É emocionante ver uma criança apontar para uma carta e dizer com propriedade: “Esse aqui é o Luiz Gama, Maria Firmina dos Reis, Lélia Gonzalez e Conceição Evaristo”, afirma Guilherme.
‘Essas personalidades deixam de ser apenas nomes em um jogo e passam a se tornar referências, de quem elas são e da importância que o seu povo tem na construção do mundo’
Guilherme Mendes, assistente da Pró-Saber-SP
O jogo pode ser disputado em duplas. O objetivo é atravessar um portal simbólico, representado por um Baobá, rumo ao continente africano.
Para isso, é preciso conquistar uma chave dividida em três partes, adquiridas com búzios. Os búzios são obtidos ao responder perguntas sobre personalidades negras, cultura e história africana, além de casas especiais do tabuleiro.

Manual do Tabuleiro com algumas peças do jogo @Letícia Vieira/Divulgação
Vence quem completa a chave primeiro, mas o objetivo principal é o aprendizado coletivo e a troca de saberes.
Com a presença em organizações de educação, o coletivo sonha em ampliar o projeto, captar recursos para produzir uma nova edição e estruturar um modelo que una distribuição gratuita e comercialização, garantindo sustentabilidade ao Nós Raízes.
Jornalista, produtora cultural e moradora de Paraisópolis. Graduanda em Gestão de Negócios, é cofundadora do 7 Notas, laboratório de criação.
A Agência Mural de Jornalismo das Periferias, uma organização sem fins lucrativos, tem como missão reduzir as lacunas de informação sobre as periferias da Grande São Paulo. Portanto queremos que nossas reportagens alcancem outras e novas audiências.
Se você quer saber como republicar nosso conteúdo, seja ele texto, foto, arte, vídeo, áudio, no seu meio, escreva pra gente.
Envie uma mensagem para republique@agenciamural.org.br