Simony Maia
Por: Isabela Alves
Notícia
Publicado em 17.12.2025 | 7:19 | Alterado em 17.12.2025 | 18:45
“O que eu mais gosto é ver o sorriso das crianças e a emoção dos adultos que dizem que viveram a vida toda sem ver um Papai Noel preto. Eles vêm, me abraçam e choram. Outros dizem que me pareço com o avô ou o pai. Isso me emociona”. A fala, cheia de afeto, é de João Carlos de Araújo, 68, o Papai Noel do Shopping Light, no centro da capital paulista.
Nas semanas que antecedem as festas de fim de ano, todos os dias, ele saí de São Miguel Paulista, na periferia da zona leste, com a missão de alegrar o dia de crianças e adultos. Por onde passa, chama atenção por ser um Papai Noel negro, que além de espalhar o espírito do Natal, leva representatividade para pessoas de todas as idades.
Aposentado, João Carlos teve diversas profissões ao longo da vida. É pedagogo, sociólogo, astrônomo, ator de teatro e dramaturgo. Toda essa bagagem educacional e artística ajudou a moldar seu personagem, cheio de magia, que hoje ocupa o imaginário de tantas gerações.
“Desde criança, minha mãe dizia que o Papai Noel traria presentes para nós, e ele era sempre uma pessoa branca. Eu nunca imaginei alguém com a minha cor de pele nesse lugar e, mesmo assim, aconteceu”.
Há três anos, recebe diariamente visitantes de diferentes regiões da Grande São Paulo, e os convida para sentar ao lado do seu trono e bater um papo: “como foi seu ano?”, “o que você sonha para o próximo?”, “o que gostaria de ganhar de presente?” Com cabelos grisalhos e barba naturalmente branca, coloca o gorro, as botas pretas e uma roupa especial, com estampas africanas.
Esta vestimenta vem carregada de ancestralidade. Para a cultura negra, as cores verde, amarela e vermelha, junto do preto, formam as Cores Pan-Africanas, simbolizando unidade, luta e valorização da herança africana.
O verde representa a terra, a natureza e a esperança; o amarelo simboliza a riqueza, o ouro e a prosperidade; e o vermelho remete ao sangue derramado na luta por liberdade e resistência, homenageando guerreiros. Essas cores aparecem em diversas bandeiras de países africanos.

Papai Noel diz que pessoas de todas as idades ficam felizes pela representatividade negra que ele traz ao Natal @Simony Maia
Vestido com tantos simbolismos, ele abre um grande sorriso para receber cada pessoa que o visita. O amor, a paciência e o bom humor são as marcas mais fortes do seu Bom Velhinho. Brincar e ouvir com atenção os pedidos também fazem parte da rotina. “Eu cativo pela simpatia. A grande maioria me pede saúde, paz e pix”, brinca.
Quando alguém chega com um nome que remete a músicas brasileiras, João costuma cantar um trecho ou fazer referências a livros. “Se vem uma Sofia, por exemplo, eu digo: ‘você sabia que seu nome significa sabedoria? Já leu O Mundo de Sofia? Vai gostar’.”
Moradores das quebradas que tiveram a sorte de conversar com este Papai Noel tão cheio de significados também se emocionaram. A jornalista Simony Maia, 27, moradora de Diadema, no ABC Paulista, lembra que seu primeiro encontro com o Bom Velhinho foi em 2023 – e a marcou até hoje.
“Um dia eu estava indo comer no shopping e o encontrei. Eu nunca tinha visto um Papai Noel negro. Apesar de ser uma figura mística, trouxe representatividade”, diz.
Halitane Rocha, 29, conta que esperou um ano para conhecê-lo, pois só soube de sua presença no shopping depois que as festas de 2024 já haviam passado. Moradora de Cotia, na Região Metropolitana de São Paulo, ela reservou o Dia da Consciência Negra para levar as duas filhas gêmeas, de 5 anos, para o encontro.

Simony Maia ao lado do Papai Noel em 2023 e 2025 @Arquivo pessoal
“A gente explicou para elas que era um Papai Noel pretinho, igual a gente. Elas ficaram super felizes e pediram brinquedos de Natal. Eu e meu marido também pedimos uma foto, porque foi um momento muito importante”, conta.
João acredita que esse carinho do público também nasce da relação que tem com seus cinco filhos: Diana, 41, Diego, 43, Roberta, 39, João Miguel, 10, e Heitor, 9. Apesar de viverem em cidades diferentes, ele sempre se esforça para estar junto, visitando a família em Indaiatuba (SP) e no Rio de Janeiro (RJ).
Para João, ser um Papai Noel Negro tem enorme importância, especialmente por representar a maioria da população brasileira.
“Ainda somos minoria entre os Papais Noéis, então espero que essa realidade vá se transformando aos poucos. A maior magia é se enxergar e se ver representado”, conclui.
Endereço: Rua Coronel Xavier de Toledo, 23, Centro – São Paulo
Horários: Segunda a sábado, das 12h às 20h, e aos domingos e feriados, das 12h às 18h
Jornalista e cineasta da quebrada. Pós-graduanda em Mídia, Informação e Cultura e em Gestão de Projetos Culturais pelo CELACC/USP. Fundadora da Parasita Filmes, produtora independente dedicada a contar histórias do extremo sul de São Paulo.
A Agência Mural de Jornalismo das Periferias, uma organização sem fins lucrativos, tem como missão reduzir as lacunas de informação sobre as periferias da Grande São Paulo. Portanto queremos que nossas reportagens alcancem outras e novas audiências.
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