Na rua Integrada, a motociclista Gerlândia Costa, 42, reclama da qualidade do asfalto e das calçadas da rua, que é uma via de acesso tanto ao Parque Santo Dias quanto à Avenida Ellis Maas. “Tem muito buraco, tem um pertinho da minha casa, os carros desviam e quase encostam na minha moto, sempre tem o risco de pegarem a traseira dela”, conta a moradora.
Sobre a calçada, ela relata que as pessoas passam “de fileirinha” de tão estreita que é.
Investimentos em manutenção de asfalto e calçadas, como os relatados por Gerlândia, fazem parte de um custo previsto pela Subprefeitura do Campo Limpo com o nome “Intervenção, Urbanização e Melhoria de Bairros – Plano de Obras das Subprefeituras”.
Asfalto da rua Integrada tem buracos que dificultam o acesso de pessoas e veículos @Cleberson Santos/Agência Mural
No começo de 2025, havia a previsão de R$ 16 milhões em investimentos nesta área. O valor orçado caiu para R$ 5,2 milhões no decorrer do ano, mas ao fim dos 12 meses, o total liquidado (o que realmente foi gasto) foi de apenas R$ 1,6 milhão.
É o que mostram os dados do Orçamentômetro, plataforma criada pela Agência Mural, e que mostra se o orçamento da cidade foi cumprido em cada região.
Redução
Quando o orçamento de 2025 foi aprovado, a Subprefeitura do Campo Limpo tinha R$ 68 milhões previstos para ações, um dos maiores entre todas as unidades da cidade.
Ao final do ano, porém, a administração que engloba os distritos do Campo Limpo e Capão Redondo e Vila Andrade encerrou o ano com apenas R$ 46 milhões executados e boa parte do plano de melhorias do bairro cancelado.
Calçada da rua Integrada é estreita e as pessoas andam no meio fio ou na via pública, no Capão Redondo @Cleberson Santos/Agência Mural
Do prometido na LOA (Lei Orçamentaria Anual), apenas 67% foi realizado ao longo do último ano – apenas Perus, na zona norte, e São Mateus, na zona leste, tiveram uma execução tão baixa ao longo do ano. Em contrapartida, subprefeituras como a Sé, na região central, e a Mooca ultrapassaram os 100%.
As reclamações de Gerlândia se encontram com outros problemas no bairro, ligados também a ação de outras secretarias.
A reforma da Estrada de Itapecerica é alvo de reclamações, por conta do trânsito que gera, e a obra do piscinão na avenida Ellis Maas, no bairro Cohab Adventista, prometido para maio do ano passado, não foi entregue.
Ao longo do mês de janeiro, a região foi castigada por duas enchentes, nos dias 14 e 16. Esta segunda, de proporções maiores, deixou a via intransitável e resultou em carros arrastados e danos para os comerciantes e moradores da região.
Além de ainda não evitar os alagamentos, a obra já causou o afundamento de trecho da avenida Ellis Maas, no final de 2024, e um acidente com uma pedestre, que foi atingida por uma pedra de uma explosão no fundo da obra, em dezembro.
Bueiro aberto na rua Cortegaça, no bairro Chácara Santa Maria, no começo deste ano @Cleberson Santos/Agência Mural
De acordo com a SPObras, a construção do piscinão do Capão Redondo e a canalização do Córrego Água dos Brancos estão em andamento, com aproximadamente 70% dos serviços executados. A previsão de conclusão é para o primeiro semestre de 2026 e o valor contratual atualizado é de R$ 460,6 milhões.
Quanto aos gastos da subprefeitura da região com drenagem, os dados mostram que 87% dos R$ 10 milhões separados para esse tema foram realizados.
A Agência Mural visitou a região da Cohab Adventista no dia seguinte à enchente de 14 de janeiro e havia funcionários da Prefeitura trabalhando junto aos córregos Moenda Velha e Água dos Brancos. Também acompanhou as consequências das chuvas no dia 16 na região da Cohab Adventista, detalhadas nesta outra reportagem.
Ao lado da construção do piscinão fica o Parque Santo Dias, local onde está sendo feito uma reforma. A Prefeitura chegou a anunciar o fechamento provisório da área verde em setembro, mas recuou após repercussão negativa. Em setembro, o valor da obra foi reajustado para R$ 5,5 milhões.
Recursos não realizados
Na outra ponta do Córrego Moenda Velha, o bairro Chácara Santa Maria também enfrentou problemas por conta das chuvas da semana dos dias 14 e 16. O cruzamento entre a avenida Moenda Velha e a rua Feitiço da Vila encheu rapidamente em ambas as datas, conforme relata a frentista Sueli Domingues, 49.
‘O rio transbordou, passou por cima do muro, trouxe muito lixo, foi um caos, veio até a pista do posto de gasolina, coisa que não vinha acontecendo, chegou entrar água na loja. Foi um transtorno para todos’
Sueli Domingues, moradora do Capão Redondo
Segundo ela, que trabalha na região há 18 anos, a Prefeitura realiza trabalhos de podas dos matos à beira do córrego, mas não faz a coleta correta do lixo que é jogado ali: “Falta essa manutenção [do lixo], quando chove um pouco mais forte, enche. Isso vem acontecendo não é de hoje, vem de anos. A gente pede melhorias, precisa ser feito alguma coisa”.
Sueli cita outro problema próximo do posto de gasolina em que ela trabalha, um bueiro que vem jorrando água constantemente na entrada da Rua Cortegaça, esquina com a Feitiço da Vila.
Segundo ela e outros trabalhadores da região com quem a Agência Mural conversou, trata-se de um problema que vem acontecendo desde antes das festas de fim de ano.
Maquinário no córrego Água dos Brancos, no dia seguinte à chuva de 14 de janeiro @Cleberson Santos/Agência Mural
Segundo a operadora Vania Santos, 38, funcionários da Prefeitura estavam realizando obras no bueiro horas antes da chuva do dia 14: “Pessoal veio arrumar na quarta, deixou arrumado, mas veio a chuva e voltou de novo [a transbordar]”.
Ambas as regiões, da Cohab Adventista e do Chácara Santa Maria, estão presentes nas diretrizes do Plano de Ação da Subprefeitura do Campo Limpo, que está sendo atualizado para o triênio de 2026 à 2029.
O documento detalha as prioridades de cada uma das 32 subprefeituras e serve de referência para os gastos em intervenção e manutenção.
Subprefeitura
A Agência Mural questionou a Subprefeitura sobre como funciona o Plano de Obras, qual era o plano vigente em 2025 e se o plano para o próximo triênio, mas os questionamentos não foram respondidos.
A reportagem questionou também sobre os valores orçados para “Intervenção, Urbanização e Melhoria de Bairros”.
Segundo nota enviada pela Secretaria de Comunicação da Subprefeitura de São Paulo, “a diferença entre o orçamento previsto e o atualizado decorre de contingenciamentos e remanejamentos orçamentários realizados pela Secretaria Municipal da Fazenda, conforme a arrecadação do município”.
“O orçamento das subprefeituras é elaborado de acordo com as necessidades locais. A liberação dos recursos é de responsabilidade da Secretaria Municipal da Fazenda”, reforçou a nota.
A subprefeitura do Campo Limpo explicou que o valor de R$ 1.631.810,71 foi direcionado para “contratação de obras de drenagem, readequação de vielas e reforma de equipamentos comunitários”. Além disso, há “R$ 3.332.939,31 foram inscritos em Restos a Pagar, com prazo de liquidação até 29 de junho de 2026”. O valor é R$ 296.806,27 inferior à diferença entre o orçado atualizado e o liquidado.
“Do total, R$ 586.684,81 foram destinados à execução de galerias de águas pluviais na Rua Francisco da Cruz Mellão, no Horto do Ipê, e R$ 1.045.125,90 à readequação de vielas no Jardim Catanduva e à reforma da Associação de Moradores no Jardim São Bento”, detalhou a administração regional.
Sobre as vias citadas na reportagem, a Subprefeitura do Campo Limpo afirma que “a rua Integrada, foi realizada a reforma da sarjeta. A rua Cortegaça passa por obras sob responsabilidade da Sabesp, com vistoria prevista. As avenidas Moenda Velha e Ellis Maas recebem limpeza regular de bueiros, poços de visita e córregos, com ações intensificadas no período de chuvas”.
Subprefeitura do Campo Limpo abrange os distritos do Capão Redondo e Vila Andrade @Cleberson Santos/Agência Mural
Vereadores
Dois dos gastos previstos para “Intervenção, Urbanização e Melhoria de Bairros” vieram de emendas parlamentares.
O vereador Dheison (PT) direcionou R$ 200 mil para a reforma e zeladoria de um escadão na rua Jorge Buoni, no bairro Parque Lígia. R$ 198.505,87 foram reservados para a execução da obra, mas não haviam sido liquidados até o fim de 2025.
“A obra é de total responsabilidade da Prefeitura e não temos como dar nenhuma previsão [a respeito da execução]”, informou o vereador em nota enviada à Agência Mural.
“Toda redução é prejudicial e sempre reflete no cotidiano da população, que é quem sofre com os inúmeros buracos nas vias públicas, nas ruas mal iluminadas e sem asfalto, e má conservação de áreas públicas.”
A outra emenda foi do vereador Jair Tatto (PT), no valor de R$ 750.000. Segundo o gabinete do parlamentar, o valor diz respeito à “obras de revitalização de uma quadra poliesportiva, localizada na Rua Letícia [Jardim Guarujá]” e que o valor remanescente da emenda será utilizado “em uma revitalização de viela na Rua Nina Stocco [Jardim Catanduva]”.
“O mandato do Vereador Jair Tatto tem reiteradamente cobrado do Executivo maior capacidade de execução orçamentária, especialmente em áreas sensíveis, como infraestrutura urbana, zeladoria e qualificação dos espaços públicos nas periferias”, destacou a assessoria do parlamentar na nota enviada à Agência Mural.
Esta reportagem e oOrçamentômetroforam produzidos com apoio doPulitzer Center

