Você está no Terminal Santo Amaro, saindo da estação Largo Treze para voltar para casa. De repente, escuta: “Se a poesia é louca, o poeta é 13!”. A frase, que sai como um grito, ecoa entre o cansaço e a poluição sonora dos ônibus, anunciando um corre que há 12 anos faz parte da rotina do local.
É o Slam do 13, um dos coletivos mais tradicionais de literatura periférica de São Paulo. Ele promove atividades como batalhas de poesias e saraus em espaços públicos, incluindo terminais de ônibus e escolas das quebradas.
Um dos fundadores é Thiago Peixoto, 39. Jornalista de formação e poeta desde os anos 1990, ele é cria do Jardim Ibirapuera e faz da poesia seu objetivo de vida, sempre à frente do grupo.
Thiago, poeta e um dos fundadores do coletivo @Daniel Santana/Agência Mural
Junto a outros poetas periféricos, como Santos Drummond, fundaram o coletivo em 2013, e ambos permanecem no movimento até hoje.
‘A gente frequentava muitos slams da cidade e sentíamos falta de um por aqui. Ai, decidimos criar um coletivo que fosse realmente no coração da região. As quebradas passam por Santo Amaro‘
Thiago, poeta
Atualmente, cinco pessoas compõem a organização: além de Thiago e Santos, também estão Caio Feitosa, Jéssica Campos e Maitê Costa.
Maitê, Santos e Thiago, integrantes do coletivo Slam do 13 durante apresentação da final deste ano @Daniel Santana/Agência Mural
Maitê, 31, é multiartista, como se define. Além de crocheteira e professora de pole dance, ela cuida da matemática dos eventos, somando as notas das batalhas de rimas. Mas, como todo trabalho é coletivo, ela também ajuda no que for preciso: produção, montagem de equipamentos e outras urgências. Como diz: “o que precisar, a gente faz”.
Participante do Slam há 10 anos e moradora do Grajaú, Maitê destaca que a poesia transformou sua vida pessoal e profissional.
“A poesia abriu caminhos. Me deu um companheiro, estamos juntos há sete anos. Me deu amor, um emprego, uma forma de me comunicar. A palavra me trouxe tudo, posso dizer isso.”
Jovem recita poesia no evento @Daniel Santana/Agência Mural
Ela e outros jovens estiveram presentes no Terminal Santo Amaro em 1º de dezembro, na grande final da temporada 2025, que reuniu os poetas que se destacaram nas edições mensais.
Na disputa, duas modalidades: o 13inho, com poemas de até 13 segundos, e o 13ão, com poemas de até três minutos e… 13 segundos. Na temporada de 2025, o poeta Sonho venceu o 13inho, enquanto o 13ão foi conquistado pela poetisa Tainara.
Além do troféu, os oito finalistas do 13inho e os seis do 13ão concorreram a premiações em dinheiro, viabilizadas graças ao edital “Fomento à Cultura das Periferias”, que contemplou o Slam do 13 em 2024 dentro do projeto “A Poesia é Compromisso”. Assim, as oito batalhas da temporada foram realizadas com apoio da verba pública.
“A gente remunera os poetas participantes, tem sempre um poeta convidado, temos intérprete de Libras para garantir acessibilidade. Assim, a batalha acontece de forma mais estruturada”, destaca Thiago.
Tainara Oliveira, vencedora do 13zão de 2025 @Daniel Santana/Agência Mural
Mileny, poeta bicampeã do Slam SP participou da final do Slam do 13 @Daniel Santana/Agência Mural
Jovem recebe o troféu das mãos do Santos @Daniel Santana/Agência Mural
O edital também garante recursos para produção e pré-produção, e permitiu a publicação de livros do coletivo, como a “Antologia do Slam do 13” (2025), que reúne 80 poetas que já passaram pelo movimento.
Ao longo de dois anos, foram mais de 200 contratações de poetas para participarem de atividades artísticas dentro e fora do terminal Santo Amaro, incluindo as etapas dos slams, além das batalhas de rimas e atividades educativas em 26 escolas públicas da capital paulista, a maioria na zona sul.
“Esse fomento nos ajudou a crescer e a mostrar que isso pode ser um trampo. Não é muito dinheiro, às vezes R$150 reais, mas para quem nunca imaginou ganhar algo com poesia já abre uma porta, ajuda os poetas a perceberem a possibilidade de profissionalização da escrita e da literatura.”
Para Maitê, o projeto promove engajamento coletivo e valorização da diversidade, ao levar a poesia gratuitamente a um espaço por onde passam milhares de pessoas todos os dias. É, para ela, uma forma de aproximar a literatura do povo e fortalecer a cena poética da região.
Integrantes do Slam do 13 na seletiva da Liga SP de Poesia 2025 @(Tarsila Coury/ Divulgação
‘Quando chegamos no Terminal, as pessoas que apenas estão passando se interessam, prestam atenção e ficam. Aqui todo mundo pode entrar, passar, assistir, participar’
Maitê, multiartista
A filosofia do coletivo parte da ideia de que a poesia une e aproxima as pessoas e – no contexto periférico – integrar a palavra ao cotidiano é uma forma de levar conhecimento e sentimento de pertencimento aos moradores das quebradas.
Final do Slam do 13 que ocorreu no início do mês, no Terminal Santo Amaro @Daniel Santana/Agência Mural
Na sua visão pessoal, Thiago avalia que “não fez grandes coisas da vida”. Mas, para ele, reunir a galera, fazer poesia e envolver a juventude periférica e preta em um movimento cultural tem um enorme valor. Seu sonho é transformar a poesia em um “esporte nacional”, uma paixão popular.
“Se todos entenderem a potência da poesia, nem precisa ser poeta, já ajuda no autoconhecimento. Uma sociedade melhor também é mais poética. Minha vontade é seguir cada vez mais trabalhando com ela.”

