Após seis anos sem um álbum novo, Emicida voltou com “Emicida Racional Vl2 – Mesmas Cores & Mesmos Valores”, uma homenagem direta a “Cores & Valores”, dos Racionais MCs.
O álbum volta com força nas rimas e abre uma fase mais marcada pelo tom pessoal, aproximando o rapper da energia que moldou ele na cena no início da carreira, trazendo até Rashid e Projota em uma das faixas. Lembra com força os velhos tempos.
Depois dos ótimos álbuns de estúdio “AmarElo”, “Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa” e “O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui”, Emicida volta naquele ritmo de freestyles, com rimas afiadas e no espírito das mixtapes que ouvíamos há uns bons anos nas quebradas. São dez faixas encadeadas de forma firme, em um álbum bem conectado.
Como ele mesmo recomendou em seu Twitter (me recuso de chamar de X), peguei tudo com calma, apaguei as luzes, fechei os olhos e dei o play. “É pra ser experienciado”. E ele tem razão. O álbum inteiro faz parte desse processo sensorial que o álbum transporta. Toda faixa atravessa um processo completo, faixa por faixa.
Capa do álbum do disco do Emicida @Reprodução/Divulgação
Mas vou deixar para a crítica especializada destrinchar o álbum todo. O que me move aqui é exclusivamente “Bom dia né gente? (ou saudade em modo maior)”, a primeira faixa do álbum e única em que Emicida (ou melhor, Leandro) decide não cantar.
Para todos nós que amamos a cultura periférica paulista, a multiartista Jacira Roque de Oliveira é uma das responsáveis por nos ajudar a criar essa paixão pela arte e cultura. Mas nessa faixa, ela é apenas a Dona Jacira. A mãe da Kátia, Katiane, Leandro e Evandro.
São seis minutos de áudios dela, que fez sua passagem em julho deste ano, seguidos de dois minutos de silêncio e choro. O que fica é a sensação de estar diante de alguém próximo e, ao mesmo tempo, diante de um lado meu que também perdeu a mãe há 10 anos.
Eu entendo que cada um vive o luto de um jeito. É sempre individual com características parecidas para todos que já sentiram. Algo parecido com a experiência que cada um vai ter ouvindo esse álbum pela primeira vez. É interessante como a música pode se tornar individual pelo luto, em uma sensação coletiva de forma interpretativa. Essa aqui é uma delas.
Lembro que quando tudo aconteceu com minha mãe, eu perdi um pedaço bem grande de mim mesmo. E tive que recomeçar. A vida não para. É aí que o álbum também pega em revisitar os lugares onde passamos.
Começa com a faixa em questão, depois vai para as referências aos Racionais – que quase todo mundo da minha idade e na quebrada ouviam, as memórias da infância e adolescência com o rap e o hip hop, espírito das batalhas de rima, tudo aparece reorganizado por esse novo momento de forma individual e coletiva. Li quem dissesse que o grande resgate do álbum é o “Emicida do velho testamento”, mas não concordo. O que retorna, de fato, é o Leandro se reconstruindo.
Comentei com um colega sobre essa faixa antes de ouvir. Tenho interesse no tema do luto, até para entender o meu próprio. Para ele, a grande expectativa era ser tocado pelas rimas, mas entendi que o impacto vinha de outro lugar.
‘A trilha melancólica, o silêncio e o choro formam um dos momentos mais fortes do álbum. Reconheci ali (como muitas outras pessoas nos diversos comentários por aí) a mesma sensação que vivi quando perdi minha mãe. É aí que é coletivo’
Essa faixa me atinge como um murro direto na boca. Ouvir os áudios de dona Jacira é como ouvir mensagens da minha própria mãe: o acolhimento, o desabafo, as risadas, a saudade. E, nesse ponto, entendi o que Leandro quis dizer sem cantar uma palavra. Quando terminou, tive que pausar para continuar. É a experiência.
Naquela noite em que perdi minha mãe, entre as decisões burocráticas, houve um instante em que restaram apenas o silêncio, eu, o sofá vazio e o choro. Ouvir esse álbum novo dói e cura ao mesmo tempo. É transformar a dor em arte. E a lição que fica é que, se o meu mano Emicida consegue, eu também posso. Você aí, também!
Só quem entende o que é a saudade em tom maior vai sentir.
