“A maior afronta para o machismo é não deixar que ele molde o que uma mulher tem que ser, tá ligado?”, afirma Yasmim Bonfim, 24, conhecida como MC Ktrine. Natural de Mauá, no ABC Paulista, e moradora de Santo Amaro, a artista passou a se posicionar nas redes sociais sobre um debate que ganhou força em abril: a associação entre o funk, o machismo e o movimento red pill.
A discussão explodiu após um vídeo do criador de conteúdo PH Côrtes viralizar ao afirmar que “o funk atual anda lado a lado do movimento red pill”. A repercussão mobilizou pesquisadores, artistas e comunicadores ligados ao próprio movimento funk.
O QUE É O MOVIMENTO RED PILL
“Nascido em fóruns on-line angariando homens, traz uma ideia distorcida sobre as relações de gênero e sobre as mulheres. Fazendo alusão ao filme Matrix, tomar a ‘pílula vermelha’ significa despertar para a ideia de que as mulheres dominam a sociedade e teriam vantagens em relação aos homens.”
Isabela Venturoza, antropóloga, docente da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e diretora-presidente do Instituto Feminista de Cuidado (IFC)
Enquanto criadores como Thiagson responderam contestando a análise, a pedagoga e pesquisadora Renata Prado criticou a generalização e alertou para o risco de reforçar a criminalização histórica do gênero. Dias depois, PH Côrtes apagou o vídeo e publicou uma retratação reconhecendo que ignorou a pluralidade do funk.
É nesse cenário que MC Ktrine propõe um recorte mais específico. Ela discorda da associação com o movimento redpill mas questiona se não há momentos em que o “funk putaria”, com letras mais explícitas sobre a sexualidade, deixa de ser expressão musical e passa a reproduzir discurso de ódio contra mulheres.
“Precisamos tirar essa imagem de que o movimento artístico é um movimento à parte da sociedade. O machismo que encontramos no funk é o mesmo que lidamos no dia a dia”, afirma a MC, que canta e compõe desde os 12 anos.
“Não acho que o funk tenha associação com o movimento red pill, mas infelizmente existem pessoas que consomem nossa cultura e reproduzem comportamentos alinhados a esse discurso”, comenta.
‘O red pill é algo pensado, estruturado, muito ligado a homens de classe média e alta. Quando esse tipo de discurso aparece vindo de um homem periférico, vejo mais como reprodução de comportamento do que algo arquitetado‘
MC Ktrine, artista
Para ela, existe diferença entre misoginia estrutural e o red pill, que define como um movimento “pensado e estruturado”, ligado principalmente a homens de classe média e alta. “Quando esse tipo de discurso aparece vindo de um homem periférico, vejo mais como reprodução de comportamento do que algo arquitetado.”
Risco de criminalização
A leitura é compartilhada por pesquisadoras que analisam o funk como fenômeno cultural. Renata Prado, curadora da exposição “Funk: Um Grito de Liberdade e Ousadia”, em cartaz no Museu da Língua Portuguesa, afirma que associar funk ao red pill é perigoso porque aproxima um movimento cultural periférico de grupos organizados que disseminam violência e discurso de ódio contra mulheres.
Renata Prado pesquisa o segmento do funk @Luan Batista/Divulgação
“Estamos falando de elementos semelhantes, sexo e corpo da mulher, mas de formas completamente diferentes”, afirma. “No funk, existe a possibilidade de viver a sexualidade da forma que se deseja. O red pill utiliza a violência sexual como ferramenta de controle.”
Renata lembra ainda que o funk já enfrenta um histórico de criminalização, mesmo em expansão mundial. Para ela, parte da confusão acontece porque músicas com forte conotação sexual acabam sendo automaticamente associadas à misoginia.
Ainda assim, reconhece que há disputas internas no próprio movimento, inclusive impulsionadas pela indústria cultural, que muitas vezes reforça narrativas em que a mulher aparece como objeto de consumo e símbolo de poder masculino.
‘O funk é uma produção de jovens, majoritariamente negros e periféricos, que constroem narrativas sobre suas vivências. O red pill é um movimento que estrutura e dissemina o ódio‘
Renata, pesquisadora
A antropóloga Isabela Venturoza reforça que o red pill funciona como uma comunidade organizada, com linguagem própria e forte atuação on-line. “O machismo atravessa toda a sociedade. Já o red pill envolve adesão mais consciente, com discursos bem definidos”, explica.
Quem consome
Na visão da produtora artística Rachel Daniel, é possível gostar de funk e ao mesmo tempo criticar letras e comportamentos. “Isso é natural quando a gente constrói cultura coletivamente”, afirma ela, que também é consumidora do estilo.
Rachel destaca que o gênero também funciona como espaço de formação política e critica o fato de o mesmo tipo de cobrança raramente ser direcionado a gêneros mais elitizados, como o sertanejo.
Rachel Dantas consome funk e vê que outros ritmos também sofrem reflexos do machismo @Arquivo pessoal/Divulgação
Ela lembra que o público já pressionou artistas em casos de músicas acusadas de banalizar violência contra mulheres, como “Só Surubinha de Leve”, de MC Diguinho, alvo de críticas em 2018. Para ela, a reação de meninas e mulheres nas redes sociais também educa os artistas sobre o que não é mais aceitável.
Afirma ainda a importância das mulheres dentro do funk, seja cantando sobre seus próprios desejos e corpos, seja produzindo funks conscientes e críticos. “Se o meu corpo, os meus desejos e a minha vivência são centrais para a criação artística do movimento, então eu também quero ser ouvida”, diz.
Machismo estrutural X movimento red pill
Segundo a pesquisadora, há uma diferença importante entre machismo e red pill. “O machismo é um sistema que atravessa toda a sociedade, se expressa em instituições, práticas e relações cotidianas. Já o red pill envolve uma adesão mais consciente, com referências e discursos bem definidos.”
Isabela aponta que o funk não está isolado dessas dinâmicas sociais. “O funk não está fora da sociedade. Ele pode reproduzir machismo e também ser influenciado por correntes contemporâneas, como o movimento red pill, assim como pode ser espaço de contestação, sobretudo por mulheres”, afirma.
Nesse sentido, o funk aparece como um espaço em disputa, onde convivem tanto a reprodução quanto o enfrentamento do machismo.
De acordo com Renata Prado, parte do mercado reforça narrativas que colocam a mulher como objeto de consumo e símbolo de status, o que entra em conflito com iniciativas dentro do próprio movimento que buscam outras representações.
“Existe uma disputa de narrativa. A lógica da indústria vende a mulher como objeto de poder, enquanto as mulheres dentro do funk estão tentando construir o oposto: se colocar como protagonistas”, diz.
Ideia da pílula vermelha (red pill) que mostra uma ideia de homens são mais atacados do que mulheres @Magno Borges/Agência Mural
Machismo nos bastidores
Na prática, o machismo também aparece nos bastidores. MC Ktrine relata já ter sido invisibilizada em estúdios, acompanhando projetos sem ser chamada para participar criativamente.
Ainda assim, vê na própria trajetória uma forma de enfrentamento, especialmente ocupando o espaço do chamado “funk consciente”, ainda dominado por homens. Esse gênero traz letras que retratam vivências periféricas e levantam questionamentos sociais.
Renata também destaca a atuação de coletivos e artistas que vêm tensionando essas estruturas, como a Frente Nacional de Mulheres do Funk, a Frente Parlamentar do Funk e MCs que incorporam perspectivas femininas e críticas, como MC Vitória, MC Lalao TdS e a própria MC Ktrine, “Essas são artistas que já são muito mais ligadas ao funk consciente e que trazem uma ideia a partir da perspectiva feminina”, afirma.
Para ela, o debate não deve servir para criminalizar o funk, mas para enfrentar estruturas mais amplas. “O funk vem de um lugar de sobrevivência. Se não for um movimento de resistência e de melhoria para todos na sociedade, perde o sentido”, afirma.
Para a artista, combater o machismo — dentro e fora do funk — é uma responsabilidade coletiva.
