Antes do sol nascer, o fotógrafo e analista de dados Ederson Rodrigues, 35, já está de pé. De bicicleta, percorre ruas vazias do Jardim Planalto, periferia de Suzano, na Grande São Paulo, até chegar no “morrão”, um dos pontos mais altos do bairro onde mora. É dali que observa e fotografa cenas cotidianas que costumam passar despercebidas.
“O nascer do sol, o orvalho sobre os morros, os animais e a mata, mudam completamente a forma como a gente enxerga a cidade”, conta.
Formado em Comunicação Visual e Fotografia, Ederson já fotografou gastronomia, moda, eventos e shows, mas agora se dedica a uma nova ideia: usar suas fotos para divulgar os potenciais turísticos de Suzano e incentivar que a população conheça as periferias da cidade.
Ederson com a bicicleta na Represa de Taiaçupeba em Suzano @Renan Omura/Agência Mural
A Pedra do Estudante e a Represa de Taiaçupeba já fazem parte do seu roteiro fotográfico, que ele conhece tão bem como morador da cidade. Mirantes, trilhas, grutas e a vasta área de mata preservada também estão na lista de atrativos.
Para curtir e clicar os locais, ele acorda por volta das 4h30. Nesse horário, costuma pedalar com a Madalena, a bicicleta cinza que recebeu o nome em referência à música “Madalena do Jucu”, de Martinho da Vila, um dos artistas favoritos. Em seguida, vai para o trabalho de analista de dados na capital paulista.
“Pedalar e fotografar nas primeiras horas do dia me ajuda a renovar a energia, organizar a mente e manter meu lado criativo vivo”, explica. “Já fotografei de tudo um pouco, mas atualmente gosto de sair sem muita regra, só observando. É quando surgem as melhores imagens”.
Um novo olhar sobre a cidade
Criado em Suzano, Ederson usa a fotografia para registrar cenas da cidade que escapam ao olhar rotineiro. O objetivo é mostrar que o município, muitas vezes subestimado, guarda beleza e histórias em cada esquina, paisagem e detalhes.
“Existe uma máxima de que em Suzano não tem nada. A verdade é que quem diz isso às vezes não conhece, e nem busca conhecer a região. Também já pensei assim, mas hoje vejo de forma diferente”, relata.
O fotógrafo gosta de fazer imagens de trilhas, nas linhas férreas e da natureza @Renan Omura/Agência Mural
Desde que ingressou na fotografia, em 2010, Ederson passou a enxergar a cidade como um território a ser descoberto. A partir desse novo olhar, ele criou um vínculo maior com o local onde mora. “Redescobri Suzano com a fotografia”.
Para ele, o município tem um potencial que vai muito além do que se vê à primeira vista, principalmente o distrito de Palmeiras, que concentra áreas extensas de Mata Atlântica.
‘Suzano tem mirantes, trilhas, grutas e represas. Em Palmeiras, principalmente, tem uma vasta área de mata, que surpreende quem não conhece essa parte da cidade’
Ederson, fotógrafo
Entre os locais que Ederson costuma fotografar estão pontos turísticos fora do circuito tradicional de Suzano. Um deles é a Pedra do Estudante, um mirante cercado por mata nativa com vista panorâmica da cidade, localizada no bairro Fazenda Viaduto.
O fotógrafo também costuma fazer registros na Represa de Taiaçupeba, área de manancial cercada por vegetação e com amplo espelho d’água no bairro Chácara do Duchen.
No perfil do Instagram, ele compartilha as fotos e desperta a atenção tanto de quem mora em Suzano quanto de pessoas de outras cidades. Para Ederson, o alcance das publicações também reforça o potencial turístico do município.
Os cenários mais afastados do centro e pouco explorados, são justamente os que mais chamam a atenção do público nas redes sociais.
“Quando posto um stories, a galera sempre pergunta: ‘onde você está?’, ‘é aqui em Suzano mesmo?’. Muita gente se surpreende quando descobre que sim”.
As primeiras imagens
A ligação de Ederson com a cidade nasceu ainda na infância, quando ajudava a mãe a vender verduras e legumes pelas ruas do Jardim Planalto. Isso fez com que ele desenvolvesse um olhar atento para o cotidiano do bairro.
“A gente saía cedo, batia de porta em porta ou montava nossa barraca na rua. Foi ali que comecei a criar um vínculo com o bairro e a observar detalhes que, mais tarde, seriam importantes na minha fotografia”, lembra.
Aos 17 anos, Ederson frequentava ensaios e shows de bandas locais. Não como músico, mas como observador. O irmão mais velho, que tocava em um cover de AC/DC chamado “1000 Volts”, foi sua principal referência artística. “Olhava e pensava: quero ser ele.”
Registro de apresentação musical feito por Ederson com longa exposição @Arquivo pessoal/Divulgação
Sem instrumento musical, encontrou na câmera um jeito de fazer parte daquele universo. Depois de muito insistir com a mãe, ganhou uma cybershot – uma câmera digital compacta, bastante popular nos anos 2000 – e passou a fotografar amigos músicos da região de Palmeiras. Aos poucos, começou a se aproximar das bandas, fazer flyers, circular pelos bastidores e construir uma rede.
O circuito era pequeno, mas ativo, com eventos no Centro Cultural de Palmeiras e shows independentes. Foi nesse ambiente que aprendeu algo essencial para sua produção fotográfica: o tempo. “Conhecia a música, sabia a hora do ‘punch’ e esperava o instante exato, muitas vezes quase invisível no canto do palco”, lembra.
Ederson fez curso técnico de Comunicação Visual em 2015, onde teve contato acadêmico com processos fotográficos. “Foi ali que eu perdi o medo de mexer em uma câmera profissional”, lembra.
Em 2018, iniciou a graduação em Fotografia. A escolha, segundo ele, não foi apenas pela técnica, mas pela possibilidade de ampliar seu olhar. “Você entra achando que sabe tirar foto, mas sai entendendo tudo o que pode fazer com a câmera”.
Para o fotógrafo, a época da faculdade representou um marco na vida. Durante a pandemia e no último ano dos estudos, aproveitou o seguro-desemprego que estava recebendo para adquirir a primeira câmera profissional, uma Canon T5i.
‘Naquela época, foi um investimento considerável, levando em conta que estávamos vivendo uma crise econômica por causa da pandemia. Mas eu decidi arriscar’
Ederson
Nos anos de quarentena, passou a explorar o bairro de bicicleta nas primeiras horas do dia e iniciou sua trajetória profissional, oferecendo fotos para negócios locais que vendiam pelo iFood e precisam de boas imagens para divulgar seus produtos.
“Foi assim que eu fui me encontrando. Passei por estúdios, fiz fotos de bandas em bares e pubs, e hoje sigo nessa trajetória”.
O que vem pela frente
Ederson deseja cada vez mais aliar a fotografia com o turismo em Suzano. A proposta é acompanhar grupos em trilhas guiadas, realizando registros ao longo do percurso.
“Minha ideia é que os visitantes levem não só a experiência, mas também imagens do passeio. A Pedra do Estudante tem uma vista linda, dá pra ver boa parte da região e isso surpreende quem não conhece”, ressalta.
Ederson utiliza a fotografia para destacar aspectos da cidade que passam despercebidos @Renan Omura/Agência Mural
Ele também desenvolve projetos autorais, como produção de scrapbooks, os álbuns artesanais que combinam fotos, textos e elementos gráficos. A intenção, segundo ele, é voltar a realizar ensaios fotográficos e, junto, oferecer o scrapbook como um diferencial.
“É uma forma de entregar algo mais pessoal, não só a imagem, mas um material que a pessoa possa guardar, revisitar e criar uma conexão com aquele momento”, afirma.
