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Ferraz de Vasconcelos tem bairros ‘isolados’ com pouca opção de transporte

Por: Ana Beatriz Alves

Desde 2020, moradores da Vila São Paulo, em Ferraz de Vasconcelos, convivem com a sensação de estarem isolados da capital. A descontinuação da linha 460 (Ferraz–Parque/Artur Alvim), operada pela Unileste por decisão da Prefeitura de São Paulo, eliminou a principal ligação direta com a Linha 3–Vermelha do metrô.

A mudança obrigou os passageiros a depender apenas de ônibus municipais e do trem. Hoje, a linha atende apenas até a estação Guaianases, distrito da capital que faz divisa com Ferraz.

Ônibus municipal via estação Ferraz @Beatriz Alves/Agência Mural

Para a analista comercial Ariane Teixeira, 22, moradora da Vila São Paulo, a mudança transformou o deslocamento diário em um trajeto mais difícil e mais caro.

‘Existe uma sensação clara de isolamento urbano. Não é só a distância, é a falta de ligação direta com o metrô’

Ariane, analista comercial

Hoje, para chegar ao trabalho na Vila Olímpia, ela precisa primeiro sair da Vila São Paulo até a estação de trem. Utiliza as linhas municipais FV 004 (Estação Ferraz/Vila São Paulo), FV 004D (circular – Estação Ferraz/Condomínio Parque Imperial) e FV 007 (Estação Gianetti/Vila São Paulo).

Na estação, ela pega a Linha 11–Coral. Depois do trem, ainda enfrenta integrações com metrô e ônibus até o destino final. O trajeto leva entre duas e duas horas e meia apenas na ida.

Para Ariane, se a linha voltasse a operar como antes, com ligação direta ao metrô, o tempo de viagem diminuiria e a rotina seria menos desgastante. “Eliminaria pelo menos uma baldeação e diminuiria o desgaste físico e mental”, afirma a jovem.

Outros bairros

A sensação de desconexão não se limita à Vila São Paulo. Em outras regiões de Ferraz de Vasconcelos, moradores também relatam dificuldade de acesso direto à capital e dependência de poucas linhas municipais.

A publicitária Ingrid Vitória Jesus Silva, 21, moradora do Jardim Bela Vista, utiliza a linha 269 (Poá- Metrô Itaquera), onde embarca na estação de Ferraz.

“O intermunicipal passa de hora em hora e o municipal a cada 20 ou 30 minutos. Às vezes é mais rápido ir a pé até a estação para não me atrasar”, diz.

À noite, o medo pelo horário a faz optar por aplicativos de transporte. “É perigoso andar sozinha, então pego Uber quando necessário.”

Usuários reclamam que os ônibus intermunicipais não passam no horário programado @Beatriz Alves/Agência Mural

Já o oficial de marcenaria Mateus dos Reis, 26, vive em uma região sem ligação direta com a estação de trem Antônio Gianetti Neto, onde embarca para a capital.

“Geralmente vou andando por uns 15 minutos, porque não há nenhuma linha que vá até lá do lado onde moro”, conta.

Segundo ele, o ônibus intermunicipal 293 (Cidade Kemel–Estação Guaianases) pode demorar entre 20 e 40 minutos para passar. “Acabo usando carros de aplicativo com frequência, porque o transporte público aqui é muito limitado”, diz. Para Mateus, a falta de vans que ampliem o transporte público na cidade agrava o problema.

Para moradores que vivem mais próximos ao centro da cidade, como na Vila Maria Rosa, ainda existe algum acesso às estações de trem e ao metrô.

Já em bairros como Jardim das Flores, Santo Antônio e Vila Piauí, onde moradores precisam caminhar mais de 15 minutos para chegar ao ponto de ônibus mais próximo, há apenas uma linha disponível para acessar o centro de Ferraz ou determinadas regiões, o que amplia o sentimento de isolamento.

Ponto de ônibus da estação Ferraz de Vasconcelos @Beatriz Alves/Agência Mural

Atrasos e falta de informação

Além das dificuldades no dia a dia, há outro problema: a falta de acesso prático aos horários dos ônibus. Atualmente, as únicas formas de consultar os itinerários e quadros de saída é pelo site da empresa Alto Tietê Transportes, que presta serviços ao município e pelo portal da EMTU.

Usuários apontam que não há nenhum aplicativo que funcione de maneira eficiente, e nem mesmo o Google Maps consegue oferecer dados precisos sobre as linhas.

Para piorar, os intervalos divulgados muitas vezes não se cumprem, já que os ônibus atrasam com frequência.

O que dizem os órgãos públicos

Procuradas, a Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Mobilidade e Transportes (SMT), afirma que as mudanças de itinerário feitas nas linhas intermunicipais 377 e 460 mantiveram a ligação do município de Ferraz de Vasconcelos com a cidade de São Paulo.

“As alterações foram realizadas com base em análises de um grupo de trabalho criado em 2019 para reduzir a sobreposição de trajetos com as linhas municipais e elaborar os estudos técnicos e normativos necessários às autorizações de itinerários de linhas metropolitanas no município de São Paulo”, diz a nota.

A gestão ressalta que a EMTU participou das discussões e que os passageiros seguem atendidos pelo transporte municipal da capital.

A EMTU, a Artesp e a Secretaria de Transporte e Mobilidade Urbana de Ferraz de Vasconcelos não responderam aos questionamentos da Agência Mural até a publicação desta reportagem.

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