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Agência de Jornalismo das periferias

Arquivo pessoal/Divulgação

Por: Jacqueline Maria da Silva

Notícia

Publicado em 10.03.2026 | 11:19 | Alterado em 10.03.2026 | 11:28

Tempo de leitura: 4 min(s)

Era quarta-feira, 4 de março, dia de retorno no atendimento psiquiátrico de Gisele Lopes dos Santos, 44, moradora da ocupação Palestina Livre, em Diadema, no Grande ABC. Ela frequenta diariamente o serviço e, a cada 10 dias, tem consulta com psiquiatra para renovar receitas e tratar os sintomas de esquizofrenia.

Porém, quando chegou ao CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) Norte III, no Jardim Campanário, Gisele foi surpreendida com remarcação do atendimento para 18 de março. Saiu sem a medicação e ainda presenciou o caos do serviço lotado, pacientes sendo alocados em cômodos sem leitos suficientes, falta de refeições para todos.

“Eles [funcionários] não acharam meu prontuário e eu pego o remédio toda quarta-feira, não posso ficar sem. A gente toma café da manhã, almoça e toma lanche à tarde, mas não tem nem o que comer, nem para os pacientes internados e nem para os que frequentam”, descreve. “Os próprios funcionários contaram que têm feito vaquinha para custear a alimentação”, complementa a entrevistada.

Diadema possuía três CAPS adultos: Norte III, Sul III e até então o Leste III com funcionamento 24 horas e leitos de retaguarda para internação. Além disso, conta com uma unidade Infantojuvenil e uma voltada para Álcool e Drogas. Todos localizados em regiões centrais da cidade.

 

Fonte: Prefeitura de Diadema

O motivo da confusão é que no mesmo dia, outro CAPS do município, o Leste III fechou as portas. O aviso foi feito por meio de uma faixa fixada na porta, com os dizeres: “CAPS Leste à partir de 9 de março estará atendendo no novo CAPS – Rua Coimbra, 774 – Centro de Diadema”.

A interrupção repentina no funcionamento da unidade teria obrigado a transferência às pressas de pessoas internadas, sem leitos suficientes. Esse movimento superlotou o CAPS que Gisele frequenta.

“Os próprios pacientes transferidos pareciam não entender o que estava acontecendo. No quarto dos homens tinham quatro camas, no das mulheres cinco leitos para os pacientes internadas. Só que tinha mais pessoas chegando”, conta Gisele.

Anúncio do fechamento foi feito por faixa na frente do Caps Leste III @Arquivo pessoal/Divulgação

População se mobiliza contra fechamento do CAPS

Na sexta-feira seguinte (6), moradores e movimentos populares foram até a Câmara Municipal de Diadema manifestar insatisfação com o fechamento do CAPS e cobrar atendimento em saúde mental.

Caroline de Alencar Gonçalves, 26, moradora do Jardim Inamar e mestranda em educação, estava lá. Além de usuária de saúde no município, ela trabalhou como oficineira em 2025 no CAPS Infantojuvenil da cidade. Ela conta que em 26 de fevereiro leu rumores do fechamento em um grupo de Whatsapp do qual faz parte, junto com trabalhadores e conselheiros de saúde.

“Publicaram uma mensagem lá dizendo: ‘está confirmado’. As informações que chegaram é que houve uma reorganização da rede e que dividiram os atendimentos entre Sul e Norte”, conta. Apesar disso, a faixa só informa sobre o serviço Sul III.

Até hoje (9), nenhum comunicado sobre o fechamento da unidade foi oficialmente divulgado pela prefeitura de Diadema, como verificou a Agência Mural.

Caroline também integra um movimento de moradia do município e foi procurada por Gisele por conta das dificuldades de acesso ao serviço que frequenta. Com isso, a mestranda criou o Comitê Pró-CAPS Leste, um movimento para tentar reverter o fechamento da unidade.

O grupo quer dar visibilidade ao caso e articular uma denúncia formal com organizações sociais da região, coletivos de saúde, vereadores e movimentos populares, como o Fórum Popular de Saúde.

André Soares, 59, também morador da ocupação Palestina Livre, faz parte do Fórum. Ele já foi paciente de um CAPS em outro município do ABC e reconhece a importância desse serviço. Por isso tenta dialogar com o Conselho Municipal de Saúde, órgão deliberativo formado por gestão, trabalhadores e população, que também esteve no protesto em frente à Câmara de vereadores.

Os manifestantes, no entanto, saíram sem nenhuma resposta do poder público. “Essa descontinuidade [no atendimento] pode comprometer todo o tratamento da pessoa”, lamenta André.

Saúde mental em Diadema

Caroline, mestranda em educação, teme que o fechamento do CAPS Leste III afete não apenas os usuário da unidade, mas toda a rede de saúde da cidade. Pela sua experiência como oficineira do CAPS Infatojuvenil, ela lembra que os pacientes da saúde mental enfrentam também outras vulnerabilidades.

“[Muitos] chegavam a não ter dinheiro para pagar condução. Essa população está nos extremos das periferias. Os CAPS hoje estão centralizados, o que já não faz sentido. [Com o fechamento] pacientes terão que se deslocar mais ainda”.

Integrantes do Comitê Pró-CAPS Leste temem que a falta de transparência e as incertezas agravem quadros de saúde mental e comprometam o atendimento de pacientes. Eles avaliam que os serviços remanescentes podem ter dificuldade em absorver a demanda de saúde mental da cidade.

População foi a Câmara Municipal de Diadema para reivindicar retorno do Caps Leste III @Arquivo pessoal/Divulgação

Gisele estava em processo de dar entrada no BPC-Loas (Benefício de Prestação Continuada), que garante um salário mínimo para quem não tem condições de garantir o próprio sustento. No entanto, necessita de um laudo médico.

Desde 2017, ela vai diariamente ao CAPS Norte III, onde permanece das 8h às 16h em atividades e acompanhamento, mas por conta da confusão e perda do prontuário foi solicitado retorno apenas uma vez por semana. “Tenho minha saúde mental abalada. Lá no [CAPS] Norte, o pessoal sempre cuidou de mim”, conta Gisele.

‘Depois do que aconteceu, fiquei muito nervosa pela falta de atenção deles a respeito dos meus remédios’ e pela falta de tempo para orientar sobre a medicação’

Gisele, paciente do Caps

Ela afirma que houve uma piora na qualidade do serviço após nova gestão assumir a prefeitura em 2025. Uma percepção dos demais entrevistados, que têm se agravado com a terceirização dos serviços de saúde.

A reportagem tentou contato com profissionais de saúde que não quiseram dar entrevistas por medo de represálias. Em 2023, a Agência Mural já havia denunciado problemas nos serviços, com a internação de uma criança em um CAPS adulto e por um período de longa permanência.

Em nota, a Prefeitura de Diadema informou que o CAPS Leste “foi fechado temporariamente para adequação da estrutura física”. Segundo o órgão, durante as intervenções, os usuários serão atendidos no prédio recém- inaugurado do CAPS Sul, com 12 leitos de internação.

“Todos os profissionais/colaboradores do CAPS Leste foram remanejados para o CAPS Sul e, neste momento, nenhum usuário está aguardando leito. Além disso, o CAPS Norte ainda disponibiliza quatro vagas para acolhimento integral”, diz a nota.

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Jacqueline Maria da Silva

Jornalista, vencedora de prêmios de jornalismo como MOL, SEBRAE, SIP. Gosta de falar sobre temas diversos e acredita do jornalismo como ferramenta para tornar o planeta melhor.

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