Por: Jessica Silva | Renan Omura
Edição: Paulo Talarico
Foto: Renan Omura
Publicado em 17.12.2025 | 20:39 | Alterado em 06.03.2026| 19:39
Criado inicialmente como um "leprosário", o Hospital Doutor Arnaldo Pezzuti Cavalcanti, em Mogi das Cruzes, segue como símbolo da exclusão social; o terreno ainda abriga cerca de 9 famílias que podem ser despejadas a qualquer momento
Tempo de leitura: 9 min(s)Março de 2020. O Brasil e o mundo atravessavam o primeiro mês da pandemia de Covid-19. Em Jundiapeba, periferia de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, os moradores do Hospital Doutor Arnaldo Pezzuti Cavalcanti enfrentavam outro risco além do vírus: o de serem despejados de casa.
Um processo judicial movido pelo governo do Estado, em plena pandemia, está em andamento até hoje. A medida busca a desocupação de 12 casas habitadas por agregados — familiares de ex-pacientes hansenianos falecidos que viveram no hospital.
As casas reivindicadas ficam no terreno do hospital, que é o antigo Sanatório Santo Ângelo, uma das primeiras colônias de pessoas com hanseníase do Brasil. O local funcionava como uma comunidade isolada, onde homens, mulheres e crianças diagnosticados eram confinados pelo Estado.
Décadas após o fim da internação compulsória, os familiares dos antigos internos enfrentam agora uma nova forma de exclusão: a ameaça de perder o lar.
A Agência Mural esteve no local para ouvir os relatos de quem ainda mora no complexo e acompanha, dia após dia, a indefinição sobre o futuro das moradias.

Cemitério Nossa Senhora do Carmo, onde eram sepultados pacientes do antigo Hospital Colônia Santo Ângelo à margem da Rodovia Engenheiro Cândido do Rego Chaves @Renan Omura/Agência Mural
Ao passar pela primeira guarita do Hospital Doutor Arnaldo Pezzuti Cavalcanti, surge uma rua reta com cerca de um quilômetro e meio. Ao redor, vastos terrenos tomados por uma densa vegetação. No final da via, a segunda guarita dá acesso à área interna do complexo. Lá dentro, há alas hospitalares, casas, igrejas, um campo de futebol e até um cine teatro desativado.
O conjunto de saúde localizado no bairro Jundiapeba funciona como uma pequena cidade, isolada do mundo exterior e congelada no tempo.
As construções antigas se misturam com alguns espaços revitalizados. É nesse cenário que a diarista Sheila Rosana Costa, 60, vive há 34 anos. Ela foi morar no hospital-colônia para acompanhar o marido, ex-paciente hanseniano falecido, e hoje vive sob o risco de despejo.
“Tudo que tenho, tudo que vivi, está aqui dentro. A gente está passando por um trauma dentro desse hospital. Eles querem nos tirar, mas não tenho para onde ir”, lamenta.

Sheila é uma das cerca de 20 pessoas que o Estado tenta remover do local, em uma ação de despejo que as classifica como “invasoras” @Renan Omura/Agência Mural
Sheila está entre as cerca de 20 pessoas que o Estado tenta retirar do local por meio de um processo judicial que as define como “invasoras”.
Após a defesa apresentar as contestações em setembro de 2025, o caso segue em análise pelo juízo, mas a qualquer momento, uma decisão pode determinar o cumprimento da ordem de desocupação. Ao todo, 9 famílias estão envolvidas no processo.
“Quase tive um troço quando recebi as primeiras notificações de despejo em plena pandemia.”
‘Se põe no meu lugar: dormir sem saber que, a qualquer hora, o caminhão pode encostar na sua casa e levar tudo o que você tem’
Os moradores sob risco de remoção chegaram ao hospital por vínculos familiares ou afetivos. São filhos, netos, sobrinhos e ex-cônjuges que permaneceram após a morte dos parentes internados.
A maioria delas são idosas e dependem de aposentadorias ou trabalhos informais, o que dificulta a busca por moradia fora da colônia.
“Estou procurando uma casinha para alugar, mas está difícil. Não encontro nenhuma opção que caiba no meu orçamento”, relata Sheila.

Elenite e o marido investiram cerca de R$ 70 mil na reforma da casa ao longo da vida @Renan Omura/Agência Mural
A aposentada Elenite Maria de Jesus, 65, vive há 16 no complexo e carrega a mesma preocupação: para onde ir se for despejada. Ela se mudou para a unidade em 2009 após o marido, ex-paciente hanseniano falecido, retornar doente e ser reinternado.
“Tenho 65 anos. Para arrumar serviço aí fora é muito difícil. Além disso, eu tenho depressão e problemas na coluna. Todo mês, eu gasto quase R$ 500 só com medicamentos”, explica.
Parte das casas foi reformada pelos próprios moradores ao longo dos anos, sem apoio do poder público. Elenite e o marido usaram recursos próprios para ampliar cômodos, consertar o telhado e construir muros. Agora, ela vê todo esse esforço ameaçado por uma ordem de despejo.
‘Não é certo fazerem isso com a gente. Pelo menos, deveriam oferecer alguma assistência sobre para onde ir’
Exausta de viver na incerteza, ela busca uma solução digna: quer sair, mas precisa de indenização ou apoio do poder público para conseguir dar entrada em uma nova habitação.
“Prefiro sair porque, ultimamente, não tenho paz aqui. A gente nunca sabe se pode ou não ficar. Mas preciso de ajuda para recomeçar. Cheguei a me inscrever em um programa habitacional, mas precisa dar uma entrada e não tenho esse dinheiro”, afirma Elenite.
A Lei nº 11.520, de 18 de setembro de 2007, assegura pensão vitalícia aos pacientes com hanseníase internados compulsoriamente e aos filhos (crianças e adolescentes) separados pela reclusão obrigatória em hospitais-colônia, isolamento domiciliar ou em seringais até 31 de dezembro de 1986.
No entanto, o benefício não se estende a outros familiares, como cônjuges ou irmãos.
Após receberem as primeiras notificações extrajudiciais em março de 2020 com o assunto “despejo e desocupação da casa”, os moradores do Hospital Doutor Arnaldo Pezzuti buscaram auxílio jurídico. Raquel Rondon, 36, advogada, está à frente do caso e acompanha todo processo judicial.
“Solicitamos algumas medidas de amparo, como direito de permanência vitalícia, à indenização ou a inclusão das famílias em programas de habitação, como a CDHU, mas todas foram negadas”, explica a advogada.
De acordo com a decisão, o imóvel pertence ao Estado e os moradores não teriam buscado alternativas habitacionais após a hanseníase deixar de ser considerada contagiosa.
A casa de Sheila conserva a estrutura original do antigo hospital-colônia Renan Omura/Agência Mural
Na pandemia, Raquel apresentou um pedido à justiça para que as famílias pudessem permanecer nas casas até que fosse decretado o fim do estado de calamidade pública. Após mobilização social e a intervenção da Procuradoria-Geral do Estado, a ordem foi suspensa temporariamente.
Mas, após o fim da crise sanitária, o tribunal considerou improcedente o pedido de permanência das famílias. “Nós conseguimos manter eles nas casas por meio de uma liminar, porque era inconcebível despejar famílias em plena pandemia.”, afirma Raquel.
Depois de mais de três anos sem avanços, o processo voltou a andar. Em setembro de 2025, as famílias receberam oficialmente o mandato de desocupação, iniciando a contagem do prazo para deixarem as casas.
“A maior parte dos meus clientes que estão no processo não têm estrutura financeira nem condições para recomeçar”, pontua a advogada.

Devota de Nossa Senhora Aparecida, Sheila deposita na fé a esperança de permanecer em casa @Renan Omura/Agência Mural
A defesa apresentou as contestações dentro do período legal, e o caso agora aguarda decisão. Se os recursos forem negados, o juiz deverá determinar o cumprimento da ordem de despejo.
‘É lamentável. Historicamente, eles ficaram à margem das políticas públicas, e agora, o Estado pretende expulsá-los de suas casas’
Neste impasse jurídico, ainda há um outro processo envolvendo a mineradora Itaquareia e o governo de São Paulo. A empresa discute na justiça os direitos do Estado sobre a área onde o Hospital Dr. Arnaldo Pezzuti está instalado.
Procurada, a Itaquareia afirma que, embora não questione a presença do hospital, contesta a extensão da área reivindicada pelo Estado, no qual sustenta haver divergências entre a metragem ocupada de fato e aquela que o governo busca reconhecer oficialmente.
Ainda explicou que a decisão encontra-se dentro do prazo legal para eventual interposição de recurso.
A disputa se arrasta há anos e segue sob segredo de justiça. Até a resolução, os moradores ficam sem respostas claras vivendo sob incertezas.
O assistente jurídico e estudante de direito Felipe Bitante, 30, viveu por 26 anos no hospital e enfrentou preconceito dentro e fora da escola.
“Ouvi que tinha a ‘doença do macaco’, fui chamado de ‘leprozinho’ e cheguei a ver pessoas mudando de lugar no ônibus quando descobriam que morava no complexo hospitalar”, conta.

Após crescer na colônia, Felipe Bitante encara o contraste entre dois mundos e fala sobre o peso do preconceito @Arquivo Pessoal
A expressão ‘doença do macaco’ não tem base científica e surge no relato apenas como reflexo do estigma e da desinformação.
Felipe se mudou para colônia aos 3 anos, junto com o avô e o tio-avô que eram portadores de hanseníase, mas, em março de 2025, saiu do hospital em busca de melhor acessibilidade no dia a dia e passou a morar no bairro Jardim Universo. Por transitar desde cedo entre a vida na colônia e a rotina fora dela, ele sente intensamente o contraste entre esses mundos.
“Existe um choque de realidade quando saímos da colônia. Imagine viver a vida toda em um mundo isolado e, de repente, precisar lidar com tudo lá fora. Muitos lá dentro, não têm profissão ou estudo.”
‘Eles viveram a vida toda numa realidade alternativa. Sair dali é como nascer de novo, mas sem tempo para recomeçar’
A aposentada Isabel Aparecida Bitante, 62, tia de Felipe, mora no Dr. Arnaldo Pezzuti há 27 anos. Ela chegou ao hospital-colônia junto com o pai, um ex-interno. Para a moradora, o hospital não é apenas um espaço físico: é o lugar onde construiu a vida e criou laços.

Isabel Bitante, 62, mora há quase três décadas no antigo sanatório, lugar onde sua família viveu por gerações @Renan Omura/Agência Mural
“Gosto daqui, das pessoas, da companhia. A vida toda foi aqui. Como é que vou imaginar sair?”, questiona.
“A história se repete. Seus ascendentes foram marginalizados, internados e isolados à força, sendo obrigados a deixar seus lares. Agora, os descendentes seguem marginalizados da mesma forma, sendo expulsos de suas casas.”, afirma Felipe Bitante.
Não há estudos ou documentos recentes sobre o número de pessoas com hanseníase internadas compulsoriamente no Brasil. A única referência é uma pesquisa feita na década de 1950 pelo médico hansenologista Heraclides Cesar de Souza Araújo, que apontava 60 mil internados até aquele momento.
O Sanatório Santo Ângelo foi construído em 1928 com apoio da elite paulistana e de médicos ligados ao movimento higienista. A corrente que teve início no século 20 defendia o isolamento de pessoas com doenças contagiosas em nome da “ordem e limpeza social”.
Inspirado em modelos franceses, o sanatório funcionava como uma cidade à parte, com casas, escola, cinema, igreja, área de esportes e até cemitério próprio. A ideia era que o interno não precisasse sair dali para nada, vivendo toda a rotina de tratamento, trabalho, lazer e fé, dentro dos limites da colônia.
“Tentava-se ‘humanizar’ para que o convívio ali dentro fosse um pouco mais leve, mas era um isolamento compulsório, sim”, explica Glauco Riccieli, 38, professor e historiador. “Tinha festas, desfiles de moda, bailes, campeonatos de futebol, cassino. Tudo isso para tentar distrair, porque estavam com suas vidas segregadas.”
Com o fim da Política de Combate à Lepra (doença hoje conhecida como hanseníase), na década de 1960, o Sanatório Santo Ângelo foi adaptado para funcionar como um hospital geral.
Hoje, o complexo abriga o Cerapc (Centro Especializado em Reabilitação Dr. Arnaldo Pezzuti Cavalcanti), oferecendo atendimento psicossocial, fisioterapia, oftalmologia, pneumologia, entre outras especialidades.
Além disso, o conjunto de saúde é reconhecido como patrimônio tombado, desde 2018, pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo).
Para Glaucco, o Estado falhou no cuidado destinado aos ex-internos e seus familiares, ao não promover políticas de reintegração, reconstrução familiar, moradia e apoio psicológico. A ausência dessas ações deixou muitas famílias desamparadas.
“O Brasil não conseguiu fazer uma política pública de construção das identidades desses pacientes com suas famílias”, afirma.
‘Houve rompimento, décadas de separação, pouca política pública de inclusão e acesso. Houve uma falta gigantesca disso’
De acordo com o Boletim Epidemiológico Especial 2025, que analisa a hanseníase no Brasil entre 2014 e 2023, a doença permanece distribuída de maneira desigual pelo país, refletindo cenários regionais muito distintos.
Esse quadro dialoga diretamente com a realidade encontrada no antigo Sanatório Santo Ângelo: mesmo após o fim da internação compulsória, as marcas do estigma e da falta de políticas estruturais continuam presentes.

Exausta da situação, a aposentada Elenite Maria de Jesus, 65, quer sair da casa, mas necessita de ajuda do poder público para dar entrada em uma nova habitação @Renan Omura/Agência Mural
A Secretaria Estadual de Saúde, juntamente com a Procuradoria-Geral do Estado, afirma que os imóveis localizados na área do hospital eram destinados exclusivamente ao tratamento de pacientes com hanseníase. Portanto, a ocupação por parte de familiares desses ex-pacientes passou a ser considerada irregular.
Assim, não há possibilidade de usucapião nesses casos, pois a Constituição Federal proíbe a posse de bens públicos por particulares. A PGE informa ainda que já existe decisão judicial reconhecendo a área como patrimônio do Estado.

Moradores construíram sua vida dentro do antigo sanatório, onde laços e rotinas se formaram ao longo de décadas @Renan Omura/Agência Mural
Já a Prefeitura de Mogi das Cruzes reportou que faz o acompanhamento do processo judicial, uma vez que não é parte dele, por não ser a proprietária da área. A gestão ressalta que todas as pessoas que lá residem têm acesso aos serviços públicos disponibilizados pelo município.
Sobre a questão habitacional, a Secretaria Municipal de Habitação Social e Regularização Fundiária mencionou que todos que lá residem podem se inscrever no Cadastro Municipal de Habitação, desde que atendam aos critérios do programa, conforme a disponibilidade de unidades de interesse social.
O Centro Especializado em Reabilitação Doutor Arnaldo Pezzuti Cavalcanti declarou que todos os moradores que residem na colônia são assistidos e acolhidos conforme seus quadros clínicos.

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Jornalista formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo. Mestra e Doutoranda em Educação pela PUC-SP. Pesquisa sobre informação, desinformação e educação midiática. Correspondente de Mogi das Cruzes desde 2013.
Jornalista. É fotógrafo por hobby (as vezes por trabalho), é amante dos dias frios e nunca dispensa um café. Correspondente de Suzano desde 2019.
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