Ícone do site Agência Mural

Como os cursinhos populares cumprem lei sobre história afro e ampliam acesso às universidades

Por: Isabela Alves

O cumprimento das leis 10.639/2003 e 11.645/2008, que tornam obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena, ainda enfrenta barreiras em escolas de ensino público pelo país e na cidade de São Paulo.

Um estudo do Geledés, em 2023, mostrou que 7 em cada 10 municípios realizam pouca ou nenhuma ação para garantir essa implementação.

No entanto, cursinhos populares têm assumido um papel central nesse processo. Criados para apoiar alunos de periferias a acessar uma vaga no ensino superior, eles têm adotado práticas pedagógicas que valorizam a cultura negra, indígena e periférica.

Nos últimos meses, a Agência Mural ouviu educadores e alunos de cinco cursinhos populares em diferentes regiões da capital e da Grande São Paulo para entender como essa transformação acontece na prática.

Eles defendem que os métodos têm garantido a formação de jovens críticos, conscientes de sua identidade e mais preparados para disputar uma vaga no ensino superior.

Thais Santos, conhecida como Tata, cofundadora da Comunidade Cultural Quilombaque, atua na promoção da educação antirracista @Isabela Alves/Agência Mural

Educação popular e identidade

No Cursinho Cultural Quilombaque, em Perus, na zona noroeste da capital, a educação caminha junto com a arte e a ancestralidade. Criado dentro da Comunidade Cultural Quilombaque, fundada em 2005, a entidade integra a Uneafro desde 2019 e atende estudantes todos os sábados.

‘Estamos no território em prol da educação, da arte e da cultura, priorizando a cultura negra e indígena’

Thais Santos, doutoranda em Bioenergia e cofundadora do Quilombaque

O espaço cultural começou com oficinas de tambores, que até hoje funcionam como guias no resgate ancestral e na troca de conhecimentos. Trabalhar a autoestima também é essencial, já que muitos estudantes abandonam o cursinho ao longo do ano para trabalhar ou após resultados negativos nos primeiros simulados.

“Você passa 14 anos do ensino regular copiando e colando, sem testar de fato os seus conhecimentos para um vestibular. Aí, quando chega o momento, percebemos as dificuldades que eles têm para avançar”, diz Thais.

As aulas são “horizontais” com a aposta na troca entre educadores e alunos, em vez de o estudante ser apenas um ouvinte. “Aquilo que chamam de bagunça, entendemos como criatividade”, complementa.

Todos os educadores do cursinho são pessoas negras oriundas da periferia, reforçando representatividade e proximidade com os alunos @Isabela Alves/Agência Mural

Outra característica é a presença de professores negros que também passaram pelos cursinhos, ingressaram na universidade e hoje retornam como educadores.

É o caso de Josuel Nascimento, 30, estudante de engenharia Aeroespacial na UFABC (Universidade Federal do ABC) e professor de física no cursinho.

“O vestibular é uma violência. Não passei de primeira e fiquei vários anos tentando. Teve época em que deixei de trabalhar e fiquei só estudando”, conta. “Todo mundo deveria ter oportunidade de acessar a universidade e ter caminhos possíveis.”

Para Josuel Nascimento, ter educadores que passaram pelas mesmas realidades que os alunos fortalece o aprendizado e a identificação @Isabela Alves/Agência Mural

Victor Matheus da Silva, 21, estudante e morador de Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo, destaca haver um estímulo ao senso crítico por mostrar a relação dos temas com a realidade dos jovens.

Nas aulas, ele vê temas como Racionais MC’s, a Constituição Federal e assuntos contemporâneos, como o assassinato de George Floyd, em 2020.

“Quando não associamos o conteúdo à nossa realidade, tudo se torna maçante. Essas metodologias têm falhado com a gente. Para além da universidade, aqui abrimos a mente politicamente e aprendemos a ser bons cidadãos”, conclui o estudante.

Victor Matheus encontrou no cursinho uma nova metodologia que facilita o aprendizado @Isabela Alves/Agência Mural

Ressignificar o território

Na zona sul de São Paulo, o Cursinho Carolina Maria de Jesus nasceu em 2010 e, atualmente, as aulas ocorrem na escola municipal M’Boi Mirim II, no Parque Santo Antônio.

O grupo reúne estudantes de distritos historicamente marcados pela violência nos anos 1990, como o Capão Redondo, Jardim Ângela e Parque Santo Antônio.

“É preciso tirar o periférico do lugar da carência e colocar o território em uma posição crítica sobre a própria realidade. É como dizer: eu sei que sou periférico e, por isso, estou lutando para fazer a diferença. É isso que a gente faz”, relata Danilo Dantas, 32, coordenador do cursinho e professor de matemática.

O nome do cursinho homenageia Carolina Maria de Jesus, uma das mais importantes escritoras negras do país e referência na literatura marginal @Isabela Alves/Agência Mural

As aulas valorizam referências culturais locais e resgatam a história indígena e negra da região. “Estamos em um território indígena, de ocupação preta e periférica”, afirma o coordenador.

O próprio nome M’Boi Mirim (ou Mboîa Mirim), que em tupi quer dizer “cobra pequena”, e a represa Guarapiranga, que significa “guarás vermelhos”, já traz elementos de reflexão para os estudantes.

Danilo Dantas, coordenador do cursinho e professor de matemática, e André Cristi, professor de filosofia @Isabela Alves/Agência Mural

O grupo também demonstra preocupação com os impactos do Novo Ensino Médio, que reduziu a carga horária de disciplinas cobradas nos vestibulares.

“A escola simplesmente não está mais oferecendo o que será cobrado na prova. O que eles aprendem aqui que não aprendem na escola? As matérias que caem no Enem e nos vestibulares”, explica André Cristi, 33, professor de Filosofia do cursinho.

Ex-aluna do projeto, Graziela Magalhães, 18, retornou como educadora após ser aprovada no curso de Ciência e Tecnologia da UFABC (Universidade Federal do ABC). Para ela, o desafio não é apenas ingressar na universidade, mas permanecer nela. “Aqui tive um ensino humanizado e peguei gosto por estudar”, afirma.

Graziela Magalhães é exemplo de aluna que ingressou na universidade pelo cursinho popular e voltou para dar aulas @Isabela Alves/Agência Mural

Grafite, literatura e identidade

Em meio aos cursinhos mais antigos, novas unidades nasceram em outros bairros nos últimos anos. Criado em 2021, o Cursinho Niggaz homenageia o artista visual Alexandre Niggaz, precursor do grafite no Grajaú, na zona sul de São Paulo. Ele morreu prematuramente aos 21 anos.

As aulas são realizadas no CEU Navegantes e combinam conteúdos tradicionais com rodas de conversa e atividades culturais no território.

“Muitos conteúdos vi pela primeira vez aqui”, conta o estudante Victor Gabriel, 18. Para a educadora de redação e literatura, Itanny Sousa, 22, trabalhar identidade e pertencimento é central.

Itanny Sousa, que se forma em Letras no fim de 2025, dá aulas voluntárias de redação e literatura no cursinho @Isabela Alves/Agência Mural

“Quando iniciamos o ano letivo, discutimos por que lutamos para ter um cursinho, para que pessoas como nós entrem nas faculdades e a importância das cotas. Tudo isso passa pela questão da afrodescendência e da identidade dos estudantes”, explica.

A Lei de Cotas, instituída no Brasil pela Lei nº 12.711/2012, estabelece a reserva de vagas em universidades e institutos federais para estudantes que cursaram integralmente o ensino médio em escolas públicas, levando em conta critérios de renda, raça e deficiência.

O objetivo é promover maior igualdade de oportunidades no acesso ao ensino superior, buscando reduzir desigualdades históricas e sociais que afetam principalmente estudantes de baixa renda, negros, pardos, indígenas e pessoas com deficiência. Ao reconhecer que o ponto de partida dos estudantes não é o mesmo, a lei atua como uma política de ação afirmativa, contribuindo para a democratização do ensino superior e para a diversidade no ambiente acadêmico.

Autores como Conceição Evaristo dividem espaço com textos indígenas, promovendo reflexões sobre desigualdade, colonização e território. “Com Canção para Ninar Menino Grande, aprendemos sobre a criação de uma pessoa pobre e o quanto isso interfere nas decisões ao longo da vida”, afirma a estudante Thayna Moura, 17.

Alunos do Cursinho Niggaz relatam enfrentar as mesmas barreiras sociais que o artista que dá nome ao curso enfrentava na década de 1990/2000 @Isabela Alves/Agência Mural

Os alunos também comparam obras sobre os povos originários de autores não indígenas, como Iracema, de José de Alencar, e Macunaíma, de Mário de Andrade, com textos de autoria indígena, como o cordel de Lurita Tabajara e a crônica Tietê, de Daniel Munduruku.

A partir deles, também estabelecem conexões com a carta de Pero Vaz de Caminha – o primeiro documento escrito da história do Brasil que registrou a chegada dos colonizadores portugueses.

Alunos relatam que o cursinho ajudou a compreender melhor o sentido de pertencimento ao território @Isabela Alves/Agência Mural

Moradores do extremo-sul da cidade, eles também descobriram que o território abriga diversas populações indígenas nas aldeias Tenondé Porã, Kalipety e Krukutu.

‘Saímos da sala de aula e exploramos os espaços e a cultura do Grajaú. Já acompanhamos eventos de grafite e colamos lambe-lambe. É um ensino voltado ao território’

Itanny Sousa, educadora do Cursinho Niggaz

Construção coletiva

Criado em 2022, após ações solidárias durante a pandemia de Covid-19, o Cursinho Lima Barreto funciona na Escola Estadual Vereador Antônio de Ré, no bairro do Macedo, em Guarulhos, e atende jovens de bairros periféricos. O trabalho é voluntário e enfrenta desafios como evasão escolar e dificuldades de transporte.

A maioria dos estudantes vem de São Rafael ou Pimentas, regiões mais afastadas do centro da cidade, mas que se deslocam até a escola por ela estar em um trajeto relativamente acessível.

A Escola Estadual Vereador Antônio de Ré, no bairro do Macedo, exibe grafites e frases inspiradoras em suas paredes @Isabela Alves/Agência Mural

No passado, o cursinho também funcionava aos domingos, mas a falta de ônibus no município fazia com que muitos alunos esperassem mais de uma hora no ponto.

O estudante Felipe Paradinha, 17, relata que passou a ter uma visão mais política e a valorizar o senso de comunidade, especialmente por perceber que professores e coordenadores atuam de forma voluntária.

“É a ideia de que também somos donos do cursinho e peças fundamentais nesse processo. Não é um papel passivo, mas uma construção coletiva em prol do futuro”, explica.

Davi de Oliveira, professor e artista periférico, atua na promoção do senso de comunidade e de uma educação emancipatória @Isabela Alves/Agência Mural

Para os educadores, valorizar as culturas negra e indígena é um resgate político. “Você só se torna cidadão quando conhece a própria história”, afirma Davi de Oliveira, 24, arte-educador.

Walter Lima, 33, professor de história e um dos coordenadores, ressalta que a própria escolha do nome do cursinho carrega esse significado. “Lima Barreto foi um intelectual negro que adotava uma postura crítica em relação à sociedade. Sua obra aborda preconceito, racismo e desigualdade social”, observa.

São realizados cine-debates, oficinas e visitas à Aldeia Multiétnica Filhos desta Terra, no bairro do Cabuçu, rompendo com o modelo tradicional centrado apenas na lousa.

O nome “Guarulhos” vem do tupi e se refere aos indígenas Guarus, significando “homens barrigudos” ou “comedores”, em referência à aparência do grupo ou ao peixe guaru da região.

“A ancestralidade é um ponto de partida. O Brasil é um país indígena, com forte identidade africana, mas muitas vezes não estudamos isso. Para muitos, o primeiro contato acontece aqui”, diz Felipe.

Alunos refletem que o cursinho é o espaço para estudar temas que não são abordados na escola devido às reformas @Isabela Alves/Agência Mural

Permanência e acolhimento

Um dos desafios para os cursinhos é a falta de recursos para que os estudantes consigam se manter até o final das atividades. Em março de 2025, o governo federal lançou o CPOP (Rede Nacional de Cursinhos Populares). O programa oferece um auxílio de R$ 200 mensais para os estudantes selecionados, além de recursos destinados aos próprios cursinhos.

Uma das unidades contempladas foi o Cursinho Sabotage, na zona leste, onde as aulas são voltadas exclusivamente para alunos da rede pública no CEU Luiz Melodia, no Jardim Helena.

Com o nome do cantor que marcou uma geração das periferias de São Paulo, o cursinho foi criado em 2022 e também aposta na troca com os alunos. “Não é porque somos educadores que sabemos de tudo”, afirma Roberta Almeida, 33, historiadora e professora no cursinho.

Roberta Almeida, historiadora, é professora no cursinho desde a sua fundação, há três anos @Isabela Alves/Agência Mural

‘A escola tradicional é muito engessada. Tem um método muito rígido, de ser somente aquilo, e os professores também se sentem engessados para colocar suas opiniões em relação ao conteúdo’

Roberta, professora do Cursinho Sabotage

Para os alunos, a abordagem crítica fez diferença até na prova. “O Enem exige relacionar o conteúdo com o mundo”, diz Beatriz da Silva, 18, que conseguiu responder uma questão sobre arte e colonização a partir das discussões feitas em aula.

O estudante Arthur Ferreira, 19, deseja cursar psicologia e destaca que o cursinho também o preparou emocionalmente. “É importante que o jovem periférico ocupe a universidade pública, mas também é fundamental saber que queremos aprender pelo prazer. Foi isso que o cursinho despertou em mim, e é algo muito valioso.”

*Esta pauta foi selecionada pelo 7º Edital de Jornalismo de Educação, uma iniciativa da Jeduca e da Fundação Itaú

Sair da versão mobile