Nas periferias da capital e da Grande São Paulo, coletivos e organizações criadas por moradores atuam nas comunidades promovendo conscientização e educação ambiental. Áreas antes usadas para o descarte de lixo foram transformadas em hortas comunitárias que hoje abastecem dezenas de famílias. Há ainda projetos voltados ao combate do desmatamento e do loteamento clandestino.
Esses exemplos são alguns dos selecionados por correspondentes da Agência Mural nos últimos dias como parte do projeto Planeta Território, do Território da Notícia.
Selecionamos quatro coletivos que atuam nos territórios em articulação com a população local e que buscam ações que possam amenizar os impactos das mudanças do clima e promover a educação ambiental.
Participante do projeto Observando os Rios @SEAE/ Divulgação
Plantando e colhendo
No Jardim Lapena, na zona leste de São Paulo, o que antes era um ponto de descarte irregular de lixo hoje se tornou uma horta comunitária que alimenta dezenas de famílias. Foi ali que Maria Edilene, 39, fundou o Coletivo das Marias.
“O maior prazer que tenho de abrir a boca e falar é que não foi o poder público que veio aqui acabar com o lixo”, afirma.
A mudança teve início há cerca de 14 anos, quando Maria se deparou com o acúmulo de resíduos em frente de casa.
Maria Edilene com um pé de alface da horta comunitária @Coletivo das Marias/Divulgação
Incomodada com a exposição dos filhos e de outras crianças a materiais tóxicos, mau cheiro, ratos e insetos, ela decidiu agir. “Me recusava a criar meus filhos em cima do lixo”, conta.
Sozinha, começou a limpar o espaço e, aos poucos, mobilizou outros moradores. Inicialmente, sete vizinhos se somaram ao mutirão.
Após a limpeza, Maria passou a cultivar chás no local, prática que remete à origem nordestina. O que começou de forma intuitiva se consolidou, com o tempo, como uma ação de educação ambiental. “Na época, nem sabia que era esse o nome, mas as pessoas foram se conscientizando”, diz.
Com o avanço do trabalho ao longo dos anos, a área se transformou em uma horta comunitária, com cultivo de hortaliças como alface, cenoura, beterraba e rabanete, além de plantas medicinais, conhecidas como “farmácia viva”.
Toda a produção é agroecológica, sem uso de agrotóxicos, respeitando o tempo da natureza e a polinização feita por abelhas, pássaros e borboletas.
O espaço abastece diretamente 72 famílias, que participam de um sistema de compostagem comunitária. A partir do cadastro, os moradores contribuem com resíduos orgânicos, que são pesados e monitorados, e, em troca, têm acesso aos alimentos produzidos na horta.
O que é compostagem?
A compostagem é um processo biológico de reciclagem que transforma resíduos orgânicos (restos de alimentos, cascas, folhas) em um adubo natural rico em nutrientes, chamado húmus ou composto. Microrganismos como bactérias e fungos, muitas vezes com ajuda de minhocas, decompõem a matéria orgânica, reduzindo o lixo enviado a aterros e enriquecendo o solo.
Para Nathalia Souza, 30, agricultora local, o trabalho representa uma mudança profunda de perspectiva. “Nunca imaginei que sairia do Nordeste para vir trabalhar com a terra aqui. Hoje, consigo ver o mundo de outra forma”, afirma.
A proximidade com a família, a redução dos deslocamentos e o contato com a terra estão entre os principais ganhos. “Aprendi a me comunicar com a natureza. Isso mudou minha rotina, minha alimentação e a forma como eu me vejo”, completa.
Nathalia, agricultora faz entregas de verduras de bicicleta @Coletivo das Marias/Divulgação
Maria também conta com parcerias, como o Ciclolog, organização de mobilidade e comunicação ambiental, responsável pelo projeto Bike Horta. A iniciativa promove a coleta de resíduos orgânicos por meio de bicicletas. Famílias e escolas recebem baldes para o descarte de restos de alimentos, que são recolhidos três vezes por semana e levados para a composteira.
“A parceria com a horta começou em 2021, com apoio aos mutirões e à comunicação local por meio da BikeSom”, conta Everton Silva, 35, coordenador da Ciclolog.
Everton faz a comunicação para os moradores na Bike Som @Thauane Blanche/Agência Mural
Tirando o lixo
A 5 km de onde fica o Coletivo das Marias vive Ionilton Gomes de Aragão, 56, conhecido como Aragão, na comunidade Santa Inês, no distrito de São Miguel Paulista. Ele está no bairro há 50 anos, e acompanha de perto as transformações no território.
“Morar em um lugar limpo, organizado e iluminado melhora a autoestima”, afirma o criador do Varre Vila.
O projeto é uma iniciativa de educação ambiental voltada à participação popular. Criado em 27 de maio de 2012, a iniciativa já foi replicada em outros territórios do país, como Alagoas, onde inspirou o Projeto Varre Grota.
Aragão explica sobre o ponto certo da rua Dr. Fernandes Albanesa para as pessoas que vieram fazer turismo na vila Santa Inês com o Sesc de Itaquera @Diego Monteiro/Divulgação
Hoje, eles colocam caçambas identificadas para lixo orgânico e reciclável em diversos pontos dos territórios do Jardim Lapena e Santa Inês. Cerca de 34 toneladas de resíduos são retiradas por mês.
A manutenção é feita pelos próprios moradores. “Ainda não atingimos 100% do bairro, mas grande parte já entende a importância das nossas ações. Por isso, seguimos com essa educação ambiental contínua.”
‘É quase um clamor: cuide e ajude a cuidar do lugar onde você mora, trabalha e vive. Se a população não estiver junto, não funciona‘
Aragão, criador do projeto Varre Vila
O bairro conta com ações de conscientização sobre o descarte correto de resíduos, um cuidado essencial em uma região que enfrenta enchentes e alagamentos frequentes.
“Recebemos depoimentos de moradores de que, após as enchentes, a água tem escoado mais rápido e sem a presença de lixo boiando nas ruas”, afirma.
Aragão em uma oficina sobre revitalização dos bairros @Diego Monteiro/Divulgação
Apesar da trajetória consolidada, a iniciativa enfrenta desafios relacionados ao financiamento. O projeto tem parceria com o Galpão ZL e a Fundação Tide Setubal.
A parceria institucional se concentra apenas na atuação no Jardim Lapena, onde seis pessoas trabalham com remuneração, enquanto na Vila Santa Inês o trabalho segue por investimento próprio de Ionilton.
“A atuação é importante porque caminha na direção da mudança de comportamento da população em relação ao descarte irregular de resíduos”, completa.
Buscando soluções em rede
Para além de regiões mais urbanizadas, territórios onde o meio ambiente está fortemente presente também enfrentam desafios para a preservação. Na região sudoeste da Grande São Paulo, cidades como Embu das Artes, Cotia e Itapecerica da Serra, possuem 60% do território em Área de Proteção aos Mananciais e inseridos na Mata Atlântica.
Apesar disso, Rodolfo Almeida, 43, confessa ser uma tarefa árdua atuar na região. Ele é ambientalista e conselheiro da SEAE (Sociedade Ecológica de Embu).
ONG SEAE ajuda na educação ambiental com um ciclo de produção de materiais didáticos @SEAE/Divulgação
Rodolfo chegou ao bairro Itatuba, em Embu das Artes, em 2011, e desde então trabalha com a SEAE, ONG que atua há 54 anos na defesa ecológica dos três municípios.
Para fortalecer a fiscalização, a SEAE trabalha com projetos socioambientais em escolas e comunidades locais e conta com mais de 100 membros permanentes, que contribuem por meio de doações ou trabalho voluntário.
A entidade atua com os projetos “Conecta Cotia-Guarapiranga” e “Observando Rios”, que visam conscientizar o público sobre a importância da preservação de áreas de mananciais de água, utilizando diferentes abordagens técnicas. “Aquele rio ou nascente tão perto de casa precisa ser cuidado com o mesmo zelo que a água em nossas casas”, afirma Rodolfo.
O projeto “Observando Rios”, iniciativa da SOS Mata Atlântica em parceria com a SEAE, leva as comunidades para as margens dos rios e transforma cada um em cientista para avaliar o estado dos cursos d’água.
Enquanto isso, o “Conecta Cotia-Guarapiranga” é um guia de campo tecnológico que mapeia fontes de água e matas, a fim de orientar no monitoramento desses recursos naturais e no desenvolvimento de planos de conservação ambiental mais eficazes.
As pessoas conhecendo o projeto Observando os rios @SEAE/Divulgação
As regiões da zona sul da capital e sudoeste da Grande São Paulo são abastecidas pelos sistemas Guarapiranga e Alto Cotia. A Bacia do Guarapiranga abastece mais de 4 milhões de pessoas na Região Metropolitana de São Paulo e está sendo drasticamente prejudicada pelo desmatamento ilegal, ocupações irregulares e contaminação por esgoto não tratado.
Uma das análises mais recentes do projeto “Observando Rios” constatou que a água do córrego Ribeirão da Ressaca, localizado nos bairros Ressaca e Caputera, no limite entre Embu, Cotia e Itapecerica, é classificada como “ruim”.
‘Os indicadores evidenciam a falta de ações educativas e atuação política para garantir um saneamento eficiente’
Rodolfo, conselheiro da Sociedade Ecológica de Embu
Dentro das escolas
A educação ambiental também é um dos objetivos da ambientalista Adriana Abelhão, 59, vice-presidente da Preservar Ambiental, em Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo. A ONG nasceu em 2009, com foco em atuar contra o desmatamento no bairro Itaquaciara, alvo de loteamentos clandestinos e construções irregulares de galpões e aterros.
Adriana Abelhão explica para os estudantes a importância da educação ambiental nos territórios @Preservar Ambiental/Divulgação
Além disso, ela tem buscado meios de levar o tema ambiental para a comunidade. “Cada vez mais moradores das cidades dos entornos nos procuram para orientações sobre denúncias ambientais e projetos de educação ambiental”, conta a ambientalista.
“Desde a moradora que ama a árvore de sua rua e quer proteger, representantes da causa animal, até grupos de moradores que se organizam para enfrentar agressões de grande porte contra o meio ambiente”, ressalta.
Na educação ambiental, o grupo atua em duas escolas estaduais com o projeto Conexão Natureza, voltado para alunos e professores focado na transversalidade de questões ambientais no currículo pedagógico.
“Tratamos de temas como mudanças climáticas, mananciais, saneamento básico, resíduos sólidos e soluções baseadas na natureza, são dois anos de trabalho e 4 meses em cada uma das 4 escolas parceiras”, conta a ambientalista.
Educando para o plantar
No Cursinho Comunitário dos Pimentas, uma parte significativa dos alimentos consumidos por alunos e voluntários é cultivada no próprio local.
Situado em Guarulhos, na Grande São Paulo, o espaço reúne 130 jovens e 20 voluntários, com idades entre 18 e 23 anos. O espaço possui uma área verde, onde são realizadas iniciativas como pomar, hortas alimentares e medicinais.
Jovens, junto com Priscila, colhem na horta comunitária do cursinho @Marcus Vinicius/ Divulgação
O cursinho mantém ainda um meliponário de abelhas nativas da Mata Atlântica e promove a reciclagem de materiais entregues pela comunidade. Esses itens são comercializados pelos voluntários, e a renda obtida contribui para apoiar estudantes aprovados em universidades no interior ou em outros estados.
Ex-aluno e hoje voluntário, o biólogo Marcus Vinícius, 27, destaca que o cursinho se tornou um polo de oportunidades em uma região com poucos equipamentos ambientais. “É um trabalho coletivo, feito por muitas mãos. A gente colhe diariamente os resultados”, afirma Marcus.
Entre os avanços recentes estão a instalação de placas solares, em 2024, e de um biodigestor, em 2025, viabilizados por edital da Bloomberg Philanthropies. O equipamento transforma resíduos orgânicos, como restos de alimentos, em biogás (metano) utilizado no preparo das refeições, reduzindo custos e ampliando a autonomia do espaço.
Marcus também ressalta a importância de ensinar práticas acessíveis, como o cultivo de árvores frutíferas em vasos, mostrando que mesmo quem vive em casas alugadas pode transformar o próprio ambiente.
A gestora ambiental e professora voluntária Priscila Narcizio, 35, conta que os alunos chegam curiosos, se envolvem com as atividades e saem preparados para aplicar o que aprenderam.
“Eles replicam práticas em casa, como composteiras simples e captação de água da chuva, e ainda compartilham com a família. A gente vê esse retorno no dia a dia”, afirma.
Esse conteúdo é parte do projeto Planeta Território -Tecnologias de Letramento Climático realizado pelo Território da Notícia em parceria com o ICS – Instituto Clima e Sociedade.
