Ansioso pelo novo material escolar, Pedro Aguiar*, 9, se prepara para uma tarde de compras ao lado da mãe, a maquiadora Diana Aguiar*, 28. Juntos, vão a uma das lojas credenciadas pela prefeitura de São Paulo em Paraisópolis, na zona sul da cidade, mas logo a alegria vira preocupação: o crédito para compra do kit escolar não é suficiente para adquirir todos os materiais necessários ao longo do ano letivo.
A família utiliza o crédito destinado pela Secretaria Municipal de Educação (SME) aos responsáveis pelos estudantes matriculados na rede municipal de ensino, para compra de materiais e uniformes. O recurso é disponibilizado às famílias por meio do aplicativo DUEPAY, desenvolvido pela empresa Personal Net.
Pedro* ao lado dos materiais escolares – crédito @Glória Maria/ Agência Mural
No caso de Pedro, que está na 4ª série, o valor disponível é de R$ 422,92 – mas pode ser de apenas R$ 149,97, já que a verba varia dependendo da etapa do ensino, do berçário às Escolas de Idiomas do Centro de Estudos de Línguas Paulistano (CELPs). A própria Prefeitura estabelece a lista de materiais de cada ciclo escolar.
“O crédito não dá para o ano inteiro, principalmente depois das férias escolares, quando sempre preciso repor os materiais, porque os cadernos acabam. Depois de julho, já tenho que comprar cadernos à parte para ele continuar usando”, comenta Diana.
Outra reclamação recorrente é sobre as opções de mochilas disponibilizadas no programa. Nas lojas credenciadas, apenas determinados modelos podem ser adquiridos com o auxílio – segundo famílias os de baixa qualidade.
“Ano passado, minha mãe comprou uma mochila com o auxílio, mas ela foi rasgando porque não era boa”.
Pedro, 9, estudante
Diana precisou fazer malabarismos para resolver o problema: “eu uso valor [do crédito] apenas para comprar o material. A mochila e o estojo eu compro por fora, porque quando incluía esses itens na compra quase não sobrava para os materiais”.
Até 2023, a lista de material escolar da prefeitura não previa um valor específico para a compra de mochilas. A inclusão desse item no benefício passou a valer a partir de 2024.
Já para o uniforme escolar, usado por estudantes da Educação Infantil até o Ensino Fundamental, os responsáveis recebem um crédito extra. O valor é de R$ 571,90, sendo R$491,32 para o vestuário (seis camisetas, uma bermuda, uma jaqueta, duas calças, um blusão de moletom e cinco pares de meias) e R$80,58 para a compra de tênis.
Materiais escolares adquiridos por Eduarda* com o crédito do kit escolar, para quatro estudantes @Glória Maria/ Agência Mural
Mochilas de doação
Quem também reclama do valor disponibilizado para o kit escolar é Eduarda de Oliveira*, 34, moradora de Paraisópolis, empreendedora na área de confeitaria e mãe de seis filhos, entre crianças e adolescentes. Quatro deles estão matriculados na rede municipal: Antonio*, 6; Maria*, 8; Estela*, 4; e Joana*, 14.
Segundo Eduarda, o recurso disponibilizado não é suficiente para cobrir as despesas ao longo de todo o ano letivo, especialmente para comprar mochilas.
“Eu compro o material — lápis, caderno, borracha, tudo o que pedem na lista —, mas não compro mochila. Para isso, peço doações em ONGs ou tento tirar do meu próprio empreendimento para comprar. É para suprir a necessidade deles, mas nem sempre dá”.
Maria*, 8, com a mochila que recebeu de doação @Glória Maria/ Agência Mural
Neste ano, os filhos dela utilizarão mochilas usadas, provenientes de doações recebidas no ano passado. Em relação aos demais materiais, ela afirma que a reposição é necessária ainda antes das férias de julho.
“Caderno de desenho, lápis de cor, tinta guache… para as crianças menores é o que mais falta. Elas usam muito, não só na escola, mas também em casa, nas tarefas e nos desenhos. Sempre acaba, e nem sempre eu consigo suprir essa falta”, lamenta.
O que diz a Secretaria Municipal de Educação
Em nota, a Secretaria Municipal de Educação informou que os valores do benefício são calculados com base na lista de materiais definida pela equipe pedagógica do órgão, considerando os itens exigidos em cada etapa de ensino, de acordo com o Currículo da Cidade.
O valor, segundo a Secretaria, segue critérios técnicos e é definido a partir de pesquisas de preços. Em 2026 foram investidos mais de R$700 milhões em créditos para material e uniforme escolar, beneficiando mais de 1 milhão de estudantes matriculados na rede municipal de ensino.
Questionada sobre a necessidade de reposição de materiais ao longo do ano, a pasta não informou se há monitoramento sobre a durabilidade dos itens no uso cotidiano escolar, nem se há previsão de reajustes no valor do auxílio.
Cardenos e materais de pintura acabam antes das férias de julho, diz mãe @Glória Maria/ Agência Mural
Pedido de reajuste
Tanto Diana quanto Eduarda defendem mudanças no modelo atual do benefício, com reajuste do valor do auxílio e liberação em duas etapas, no início do ano letivo e após as férias de julho. Elas também reivindicam melhoria na qualidade dos materiais.
“A Secretaria deveria dar um [crédito] no início e outro no meio do ano, quando entram as férias. Seria melhor pra gente, porque não precisaríamos tirar de onde não tem para comprar”, afirma Eduarda.
Diana reforça a necessidade de um valor maior para compra da mochila. “Eu acho que deveriam disponibilizar pelo menos um valor maior, para dar para comprar uma bolsa boa, resistente, que dure o ano todo. Algo em torno de R$300 a mais só para a mochila. Assim, a gente poderia usar o outro valor exclusivamente para o material”.
*Os nomes foram alterados para proteger a identidade das fontes

