Entre mergulhos em expedições científicas e storyboards para animações, o biólogo e ilustrador Lucas Andrade, 35, transformou a curiosidade da infância, vivida no Jardim Iporanga, bairro do distrito Cidade Dutra, na zona sul de São Paulo, em uma trajetória que conecta ciência, arte e periferia.
Mais conhecido como Lukera, Lucas é biólogo, educador, divulgador científico, ilustrador e artista independente. Começou a desenhar de forma autodidata ainda pequeno, por volta dos 4 ou 5 anos.
Tímido quando criança, Lucas encontrou na arte um caminho para se expressar e demonstrar afeto. “Eu gostava de desenhar para as pessoas, queria ver a reação da minha mãe quando ela voltava do trabalho, dar orgulho para ela. Depois comecei a desenhar para meus amigos também”, relembra.
Lukera pintando uma camiseta a mão @Arquivo pessoal
Já na adolescência, fazia capas de trabalhos escolares e buscava referências em mangás na internet, praticando sozinho a observação e o desenho. Curioso sobre diferentes temas, encontrou na prateleira de livros da mãe uma das motivações para estudar desenho e aprender mais sobre filosofia, biologia e literatura infantil.
Durante o ensino médio, Lukera passou a reconhecer a importância do território onde vivia, especialmente a partir do contato com o movimento cultural da região, marcado pela influência do rap. Artistas como Rael, Pentágono e Criolo, vindos do Grajaú, se tornaram referências.
Aos 15 anos, começou a trabalhar como jovem aprendiz. Com o incentivo de um colega, decidiu investir parte do salário em um cursinho pré-vestibular. Apesar de considerar áreas como web design e design de games por conta da afinidade com o desenho, seu sonho de infância era ser médico veterinário.
Foi no cursinho, aos 16 anos, que descobriu a paixão pela biologia. Após três anos de estudo, foi aprovado em ciências biológicas na USP (Universidade de São Paulo). Para se manter, passou a produzir camisetas pintadas à mão, personalizadas com temas escolhidos pelos clientes, desde bandas de rock até personagens da literatura brasileira.
“A ilustração das camisetas foi uma forma de bancar o meu sonho de estudar Biologia. O cursinho popular impactou muito a minha vida, me trouxe perspectiva social sobre a história do Brasil e geopolítica”, afirma. Mesmo seguindo na área científica, nunca abandonou a arte, que continuou presente em sua trajetória profissional e pessoal.
Lukera com seu primeiro quadrinho Servo dos Servos @Arquivo pessoal
Histórias em quadrinhos
A arte começou a se tornar fonte de renda com as camisetas, mas logo ganhou novos caminhos. Lukera participou de um coletivo do Capão Redondo, selecionado pelo edital público VAI (Valorização de Iniciativas Culturais), e ilustrou 20 páginas da HQ Servo dos Servos, que abordava grupos extremistas na periferia.
Em 2015, ao lado do colega Diego Torres, criou a HQ Kauira Dorme. A obra foi impressa apenas em 2019, por meio de financiamento coletivo, e lançada na primeira edição da PerifaCon, evento dedicado à cultura nerd e geek nas periferias.
“Esse momento foi lindo. Um dos melhores da minha vida. A galera fez fila pedindo autógrafo. A PerifaCon abriu muitas portas e me deu confiança no meu trampo”, conta.
Lukera com sua banca na Perifacon, em 2024 @Arquivo pessoal
Apesar dos avanços, Lucas enfrentou dúvidas sobre seguir na arte por questões financeiras. A participação em coletivos foi fundamental para fortalecer sua trajetória como artivista. Em 2020, integrou o Corre Coletivo e produziu o roteiro e a ilustração da HQ O Inimigo Invisível, em parceria com o Sesc Interlagos.
A obra, vencedora do Prêmio HQ Mix 2021, aborda a prevenção da Covid-19 nas periferias, unindo arte, educação e divulgação científica. Como o lançamento foi na época da pandemia, a distribuição do livro foi realizada de casa em casa, pelas ruas dos bairros Jd. Guanhembu e Jd. Gaivotas.
Ciência em podcast
Como biólogo, Lukera sempre sonhou em explorar a natureza: mergulhar, viajar e conhecer o mundo. As memórias de infância pescando com o pai na Represa Billings e o interesse por documentários e revistas como a National Geographic marcaram esse desejo.
Depois de atuar como professor, passou a se dedicar também à divulgação científica acessível. Em 2023, durante um voluntariado na Ilha Anchieta com a bióloga Gabriela Longo, nasceu o podcast Sinal de Vida.
A ideia surgiu de forma espontânea: com um gravador em mãos, começaram a registrar a experiência de campo. Durante a expedição, fizeram um registro raro da raia-chita (Aetobatus narinari), tipo de raia preta com pintinhas brancas que está em risco de extinção na lista global de ameaça às espécies.
“Todo dia a gente mergulhava em busca dela. No podcast, você se sente lá com a gente, como se fosse um diário de campo”, explica.
O podcast narra a jornada dos dois biólogos em uma ilha desabitada, entre mergulhos, desafios, descobertas e histórias do território. O projeto é uma produção do Alô, Ciência? com apoio do Instituto Serrapilheira.
Lucas Andrade no set de filmagem com o cachorro Caramelo @Arquivo pessoal
Desenhando novos caminhos
A entrada de Lucas na animação surgiu de forma orgânica: das camisetas aos quadrinhos, dos quadrinhos às ilustrações e aos storyboards, técnica utilizada para desenhar cenas antes de um filme ser produzido.
Com experiência em publicidade e audiovisual, foi convidado para desenvolver storyboard e animação do filme Caramelo, da Netflix. Antes disso, já havia produzido animações para documentários do Corre Coletivo e para o documentário Vânia e Valéria.
O convite para ilustrar a animação Caramelo simbolizou um momento de reconhecimento e expansão na trajetória de Lukera. O artista afirma que sempre teve o desejo de desenvolver um trabalho capaz de impactar positivamente as pessoas e encontrou, na união entre arte e biologia, o caminho para concretizar esse propósito.
Ao comunicar a ciência de maneira afetiva, a partir da perspectiva de quem veio da periferia, Lukera também utiliza a arte como ferramenta para abordar causas importantes e ampliar representações.
“Se eu posso inspirar a pessoa a acreditar um pouco mais em si, na quebrada onde ela está, é também manter essa chama acesa, se eu não seguisse meus sonhos, eu faria coisas copiadas, sem identidade. Eu agradeço muito por ter ouvido essas batidas do meu coração”, finaliza.

