Sentado atrás do balcão da loja de camisas com a logomarca da Associação Palmeirinha Jd. Paraisópolis, Francisco da Silva, 66, alagoano natural de Santana do Mundaú, aponta para a vitrine de vidro repleta de troféus do tradicional futebol de várzea.
Conhecido como Chiquinho do Palmeirinha, ele é uma figura histórica, com uma trajetória que se une com o esporte e a própria história de Paraisópolis, favela da zona sul de São Paulo.
Chiquinho chegou à comunidade ainda criança, aos 7 anos, em 1968, a pedido de duas irmãs que haviam migrado antes. O pai, João Luiz da Silva, cuidava de uma fazenda em Alagoas, mas, após perder o emprego, a família decidiu tentar a vida em São Paulo.
Francisco conhecido como Chiquinho ao lado de troféus conquistados por times de Paraisópolis @Glória Maria/Agência Mural
‘Aqui era gelo, muito frio. Tinha um terreno grande que era chácara, criação de porco. A partir da década de 1970 começou a fazer barraco e abrir rua’
Chiquinho, cofundador do time Palmeirinha
“A gente andava de cavalo e carroça. Aí começou a chegar nordestino, mineiro… foi uma explosão”, diz.
Desde cedo, Chiquinho se envolveu com o futebol, paixão que se transformaria em instrumento de organização comunitária.
As primeiras tentativas de criar um espaço esportivo aconteceram onde hoje fica o Beco do Jacaré. Depois, o campo foi transferido para uma área próxima, onde atualmente funciona o Ballet de Paraisópolis, mas o crescimento da comunidade tornou o espaço insuficiente.
Em 1981, houve nova tentativa no terreno onde hoje está a Escola Estadual Professor Homero dos Santos Forte, mas, após cerca de um mês, o governo solicitou a desocupação. Com apoio da prefeitura, a comunidade conseguiu outro espaço, um antigo lixão.
Chiquinho no campo do Palmeirinha, em Paraisópolis @Glória Maria/Agência Mural
“A molecada catava pirulito e chocolate no lixo”, conta Chiquinho, sobre o espaço que se tornou o Campo do Palmeirinha.
‘A gente limpou tudo, planejou, ganhou tela, estaca, trave. Cercamos tudo na mão. Foram mais de seis meses de trabalho. Em 1982 inauguramos e estamos aqui. São 43 anos’
Chiquinho
O envolvimento de Chiquinho com o futebol sempre esteve ligado à luta política e ao desenvolvimento do território. Ao lado de lideranças históricas como Maria Betânia, ele participou da criação da União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis.
A própria Associação Palmeirinha Jd. Paraisópolis e otime Palmeirinha Paraisópolis nasceu há 55 anos, quando Chiquinho tinha apenas 11 anos, antes mesmo da criação do campo atual, com foco no estímulo ao esporte como ferramenta de formação social. Ele é um dos cofundadores. Nos bastidores, uma curiosidade: apesar de o campo se chamar Palmeirinha, Chiquinho é corintiano.
Do Morumbi a Copa da Paz
Ainda na infância, Chiquinho conciliava os estudos com o trabalho como flanelinha, especialmente no Estádio do Morumbis. Décadas depois, essa relação com o futebol ganharia uma nova dimensão: Chiquinho é fundador da Copa da Paz, criada em 2008 a partir de conversas com companheiros do futebol de várzea.
Em 2024, a competição alcança um marco histórico ao realizar, pela primeira vez, a final fora de Paraisópolis, no Morumbis, estádio localizado a cerca de 4 km da comunidade.
Chiquinho na sala de troféus da Associação Palmeirinha @Glória Maria/Agência Mural
“A ideia sempre foi unir as quebradas. É um trabalhão, mas tudo é feito com amor e perseverança”, diz. A Copa da Paz está na 18ª edição, reúne cerca de 30 times e se tornou uma das principais competições do futebol de várzea da cidade.
Apesar da relevância, o torneio enfrenta dificuldades para se manter. “Não é uma Copa pra ganhar dinheiro. Esse ano não teve patrocinador. A gente paga transmissão, arbitragem, quem trabalha, tudo parcelado. Na maioria das vezes sai do nosso bolso”, afirma.
Atualmente, o Campo do Palmeirinha funciona como um polo esportivo e social. Durante a semana, o espaço abriga:
- Escolinha de futebol, com cerca de 80 crianças
- Categorias de base (do sub-10 ao sub-14)
- Times masculinos e femininos
- Categorias 35+, 45+ e 50+
- Projetos sociais
- Rugby, em parceria com iniciativas esportivas externas
- Aluguel do campo à noite, com prioridade para moradores da comunidade
“O nosso projeto é 360 graus. Não é só time. Todo bairro tem time, mas não tem projeto social”, explica.
Manter essa estrutura, porém, tem alto custo. “Só de luz chega a R$ 3.000”, diz.
A vitrine da Associação Palmeirinha reúne centenas de troféus, incluindo conquistas do futebol masculino, feminino e títulos como a Taça das Favelas, vencida pelo time feminino em 2022, onde conta com Mônica Melo, pedagoga, técnica do time feminino e filha de Chiquinho. “Nem time profissional tem a quantidade de troféu que a gente tem”, afirma.
Chiquinho chega ao campo às oito da manhã e muitas vezes sai depois da meia-noite. “É puxado, mas é gratificante.” Para ele, o maior retorno está nas histórias de jovens que passaram pelo projeto. “Já tirei muito moleque da rua. Alguns não morreram por causa disso. Futebol salva, sim, mas tem que andar junto com estudo.”
O sonho agora é ampliar a captação de recursos para garantir a continuidade dos projetos. “Nosso problema é financeiro. Mas com esse projeto social que está sendo elaborado, acredito que a gente vai conseguir melhorar.”
Ao falar do legado, Chiquinho não se coloca como herói. “Não sou dono do campo. Eu só acordei aqui. Mas se tem coisa boa em Paraisópolis, passa pelo Palmeirinha. É o cartão de visita daqui.”
