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Centro de treinamento em Guarulhos amplia acesso às artes marciais na periferia

Por: Amanda Oliveira

No bairro do Cabuçu, na região periférica de Guarulhos, na Grande São Paulo, um centro de treinamento (CT) de artes marciais tem mudado a rotina e o futuro de jovens e adolescentes da região. O espaço, que começou em uma garagem há nove anos, hoje oferece aulas de sete modalidades e, mais do que golpes, ensina disciplina, acolhimento e novas possibilidades de vida.

O responsável é o instrutor e sensei Michael Jorge Leite Lira, 38, ex-atleta de vôlei e handebol, que encontrou nas artes marciais uma forma de recomeçar após uma lesão no joelho ainda na adolescência.

“Eu comecei a lutar como fuga. Tinha brigas na escola, problemas por morar na periferia. A arte marcial virou minha família.”

Sensei Michael Lira no Centro de Treinamento reformado a pouco tempo com ajuda de rifa @Amanda Oliveira / Agência Mural

O primeiro kimono que vestiu foi um presente e até hoje está guardado. “Eu nunca tive condições de comprar. A mãe de outro aluno que treinava comigo me deu. Foi alguém que acreditou em mim antes de eu acreditar.”

Hoje, ele tenta ser essa mesma mão estendida para outras crianças e jovens do Cabuçu. O Centro de Treinamento mantém o Projeto Pandora, que oferece aulas gratuitas para alunos que não podem pagar, nas modalidades Karatê, Boxe, Jiu-jitsu, Personal Figth, Muay Thai, Circuito de Treinamento, Kickboxer.

“Eu comecei de graça. Faço o mesmo por eles. Vejo jovens largando remédios [de ansiedade], melhorando a postura na escola, virando campeões. Isso não tem preço.”

Centro de Treinamento recém reformado @Amanda Oliveira / Agência Mural

Próxima parada: Chile

Dois talentos do Projeto Pandora são os jovens karatecas Alex Abdias, 22, e Flávio Ferreira, 22. Ambos começaram a praticar o esporte adolescentes, quando o Centro de Treinamento ainda funcionava em uma garagem.

Atraídos pela curiosidade e pelas cenas de luta que viam em filmes, eram tímidos e não acreditavam que o Karatê seria a maior conquista de suas vidas. Desde que pisaram o tatame pela primeira vez, nunca mais pararam.

Os frutos são colhidos pelo caminho. Em novembro de 2025, Flávio viveu uma virada na vida: fez sua primeira viagem de avião para competir no Chile, com tudo pago pelos organizadores de um campeonato internacional. “Eu estava perdido no aeroporto, nunca viajei de avião”, ri. “Mas só de me chamarem já foi emocionante. Lá, me trataram como profissional.”

A viagem foi também um teste. Para lutar, ele precisava ter exatos 80 kg, mas embarcou do Brasil com 84 kg. Em dois dias, treinou muito para conseguir lutar com seu oponente até alcançar o peso. “Foi pressão, mas foi o auge”.

O jovem venceu o campeonato e voltou para o Brasil com seu cinturão.

Flávio com o cinturão que trouxe do Chile @Amanda Oliveira / Agência Mural

“Estar no Chile foi muito gratificante. Foram muitos anos de esforço e dedicação que estão dando fruto. Quando você consegue ganhar um campeonato internacional, sente que dá uma virada de chave, como se precisasse se dedicar ainda mais para os próximos desafios”.

Flávio conta que ter iniciado no esporte na adolescência formou seu caráter e que, para ele, o Centro de Treinamento é um lugar de inspiração e esperança. Seu sonho é seguir como atleta e continuar lutando.

Se pudesse, Flávio, viveria apenas do esporte, mas as contas não esperam. Por isso, segue se esforçando para conciliar os treinos com o trabalho, no período noturno, em uma farmácia.

“No Brasil é difícil você manter uma vida de atleta e trabalhar ao mesmo tempo, mas a gente vai seguindo do jeito que dá”.

Flávio, karateka

Novos mestres

O também karateka Alex treina há nove anos e hoje dá aulas para uma pequena turma no Recreio São Jorge, bairro próximo ao Cabuçu. “Sempre quis dar aula, igual ao meu professor e pretendo seguir minha vida trabalhando, dando aula e treinando”, diz.

A rotina para Alex se divide em treinos e trabalhos como designer gráfico. “A maior parte das artes da academia fui eu que criei”, conta orgulhoso.

Até hoje, não esquece do seu primeiro campeonato, em 2019, com luta foi muito difícil. “Estava com falta de ar, passando mal, tentei focar na luta para competir. Depois do primeiro golpe, tudo passa e não existe mais nada”.

Alex sonha em seguir se dedicando ao Karatê @Amanda Oliveira / Agência Mural

Este foi só o pontapé inicial. Alex também já competiu fora do Brasil, e levou o orgulho pelo seu bairro para o campeonato no Chile que, assim como Flávio, teve tudo pago. “Eu não achava que eu ia chegar tão longe. Depois do meu primeiro campeonato percebi que [o Karatê] era para vida”.

Se engana quem pensa que só os jovens têm vez. A karateca Luciene Lima, 39, prova que a idade não é limite. A faixa preta de Karatê, começou a treinar aos 23 anos e já deu aulas da modalidade.

Ela superou três fraturas na clavícula e nunca pensou em desistir. “A luta tirou todos os meus sintomas de ansiedade, é minha maior fuga e minha maior paixão”, afirma. “Nunca é tarde pra começar. Nunca.”

Luciene teve oportunidade de ensinar para jovens o que aprendeu em anos de Karatê @Amanda Oliveira / Agência Mural

Desafios e vitórias

Apesar de colecionar troféus e cinturões – e até o reconhecimento em 1º lugar como empresa destaque de Guarulhos – o Centro de Treinamento enfrenta dificuldades para se manter em funcionamento.

O bairro do Cabuçu é distante do centro de Guarulhos e o acesso por transporte público, por vezes, acaba sendo caro e demorado. O local também é distante dos polos esportivos onde ocorrem os campeonatos, em geral localizados em São Paulo – o que encarece o deslocamento dos atletas.

“Tudo é longe, tudo é caro. Muitos pais não têm condições de levar os filhos”, relata o sensei Michael. “Na periferia tem talento, mas nem sempre tem caminho”.

Coleção de medalhas do Centro de Treinamento do Cabuçu @Amanda Oliveira / Agência Mural

Para participar de um campeonato, é preciso fazer rateio dos gastos, pedir ajuda a comerciantes e até pleitear apoio pontual com vereadores. “Nunca tive apoio direto da Secretaria de Esportes, mas alguns vereadores, mesmo antes de eleitos, ajudaram com condução ou equipamentos.”

Apesar dos desafios, Michael segue sonhando em ampliar o espaço de treinamento, uma obra em parte financiada por uma rifa criada com ajuda da comunidade.

“Eu consegui conquistar esse novo espaço e proporcionar para eles [alunos] um treinamento diferente. Faz muita diferença ter um ringue e equipamentos. É a realização de um sonho”.

Sensei Michael

Além das medalhas, o CT do Cabuçu coleciona histórias: jovens que chegaram tímidos e hoje dão aula, alunos que deixaram a ansiedade para trás, mulheres que encontraram força e autonomia, moradores que descobriram no tatame novos caminhos possíveis.

Para quem treina, a maior transformação é interna. Os alunos chamam o professor de “pai”, pedem conselhos, compartilham vitórias e dificuldades. Muitos começaram adolescentes e hoje viraram jovens adultos sob os olhos de Michael.

“Tem aluno que chega direto do [trabalho em] obra, suado, cansado, mas vem. Vem porque aqui é a chance deles. É a ferramenta que eles têm”, conta. “A disciplina que cobro aqui vai pra vida deles. Eles viram adultos comigo. É gratificante demais.”

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