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Blocos periféricos são minoria entre os aprovados para receber repasse da Prefeitura

Em 2026, o Bloco do Beco desfilará no sábado de carnaval, dia 14 de fevereiro

Por: Cleberson Santos

As semanas que antecederam o início da folia em São Paulo foram marcadas por debates sobre os valores repassados pela prefeitura da capital paulista aos blocos de carnaval de rua, para viabilizar os desfiles.

De um lado, blocos tradicionais da região central chegaram a cancelar apresentações por falta de patrocínio. Do outro, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) afirmou que os coletivos não podem ficar “acomodados” em realizar os desfiles apenas com verbas públicas.

Nas quebradas, a situação é ainda mais crítica. Dos 97 blocos habilitados para receber verba pelo Edital de Fomento ao Carnaval de Rua, um dos principais mecanismos de financiamento público dos desfiles, apenas 31 saem em regiões periféricas da cidade.

O total é pouco maior que o número de blocos registrado na Subprefeitura da Sé, que sozinha concentra 27 grupos aptos a receber os R$ 25 mil previstos no fomento em 2026.

Desfile do Bloco do Beco no carnaval de 2025 @Daniel Fagundes / Bloco do Beco

Desde 2024, o Edital de Fomento ao Carnaval de Rua repassa anualmente até R$ 2,5 milhões para a festa, distribuídos entre até 100 blocos, sem reajuste.

Trata-se de um dos menores investimentos da Prefeitura na festividade. Para comparação, o repasse para as duas ligas responsáveis pelos desfiles das escolas de samba ultrapassou R$ 68 milhões. O investimento com a contratação de guias turísticos bilíngues para o carnaval de rua foi de R$ 8,7 milhões. As informações são do portal Metrópoles.

O edital é dividido entre blocos cadastrados como pessoa física (56 habilitados, 20 fora do Centro) e como pessoa jurídica (41 habilitados, 11 fora do centro). As 97 agremiações habilitadas correspondem a apenas 15% dos 630 coletivos confirmados na programação oficial.

Ao todo, 14 subprefeituras não tiveram nenhum bloco aprovado no edital. Ainda assim, a programação oficial conta com blocos em todas as subprefeituras da cidade.

Desfiles nas quebradas

A região periférica com mais aprovados no edital foi a Subprefeitura do M’Boi Mirim, na zona sul de São Paulo, com nove blocos. O Bloco do Beco, que desfila no bairro Jardim Ibirapuera, foi o único da região que conseguiu o repasse no cadastro como pessoa jurídica.

“Esse valor a gente usou para pagar a diretoria da nossa bateria. São pessoas que durante muitos anos vieram voluntariamente, e hoje a gente consegue subsidiar pelo menos com o [valor] justo”, explica Lenon Farias, 29, produtor cultural e mestre de bateria do Bloco do Beco.

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Bloco do Beco foi fundado em 2003 e desfila no Jardim Ibirapuera, na região do Jardim São Luís @Daniel Fagundes / Bloco do Beco

Em 2026, o Bloco do Beco desfilará no sábado de carnaval, dia 14 de fevereiro @Daniel Fagundes / Bloco do Beco

Segundo Lenon, este é o segundo ano que o Beco acessa recursos do edital de Fomento ao Carnaval de Rua, mas ele não é a única fonte de renda do grupo. O Bloco funciona como uma organização social e alcançou verba também por meio do Promac (Programa Municipal de Apoio à Projetos Culturais) e com a venda de shows da bateria.

‘Entre os blocos da periferia, temos mais condição de disputar com a galera do centro, dos blocos que têm mais dinheiro. A gente entra na disputa com um projeto e um portfólio organizado’

Lenon Farias, produtor cultural.

Ele defende a descentralização dos recursos para o carnaval. “Não há subsídio para que os blocos se preparem para conseguir disputar editais, como o de fomento aos blocos. É um edital com regras que tornaram o acesso mais difícil”, diz Lenon.

“[Os blocos deveriam] apresentar o orçamento do ano anterior. Se ultrapassem uma margem com os patrocínios, não poderiam acessar [o edital]”.

Em 2026, o carnaval do Bloco do Beco custará cerca de R$70 mil. “Por mais que a gente tenha outros recursos, precisamos de renda. Fizemos um corre gigantesco para conseguir chegar ao custo [total] do nosso carnaval”, completa.

Para além dos R$ 25 mil repassados pelo edital, a Prefeitura oferece gradis e banheiros químicos aos blocos que fazem parte da programação oficial. Neste ano, a gestão de Ricardo Nunes contratou 15,3 mil diárias de banheiros químicos, menos da metade do contratado em 2025 (38,5 mil), como revelou o portal Metrópoles.

Outro grupo aprovado, também no M’Boi Mirim, foi o Bloco do Hercu, que desfila no Jardim Herculano, na zona sul de São Paulo. Assim como o Bloco do Beco, eles também tiveram outras fontes de renda para viabilizar o desfile de 2026, como apresentações, patrocínios de comerciantes locais e o edital Brinde à Rua, oferecido pela Ambev.

Leandro Opazo, 37, um dos coordenadores do Bloco do Hercu, lembrou que os blocos centrais têm mais facilidade para contratar pessoas apenas para cuidar da escrita de projetos.

‘Os coletivos de periferia estão se educando para entrar nesses contextos burocráticos. Enquanto [blocos maiores] têm alguém para escrever [editais], temos que por a mão na massa, não podemos contratar pessoas’

Leandro Opazo, coordenador do Bloco do Hercu.

O Bloco do Hercu foi aprovado como pessoa física, mas o grupo tem a meta de se formalizar e ter um CNPJ. “Talvez assim a gente consiga mais recursos para dar continuidade ao que a gente faz, que não é só o carnaval, mas trazer mais cultura para o nosso bairro, que historicamente é visto como carente de política pública”, afirma Leandro.

Para além do desfile, o Hercu promove oficinas de percussão e planeja contar com uma feira para comerciantes locais durante a concentração.

“A gente só consegue passar pelas dificuldades unindo quem tem interesse em fazer algo pelo local, pela cultura, pelas pessoas. Sempre tem quem não gosta, quem não respeita outras culturas, mas a gente lida da melhor maneira, mostrando o valor do nosso bloco e a diferença que ele faz para a quebrada”.

Bloco do Hercu desfila desde 2013 no Jardim Herculano, na região do Jardim Ângela qdeqbrada / Bloco do Hercu

O custo de bater na trave

Dos 56 blocos aprovados como pessoa física, seis eram suplentes e só conseguiram acessar o recurso por problemas na inscrição de blocos com pontuação maior. O União dos Bairros, do Campo Limpo, também na zona sul, é um deles.

Conhecido por apresentar um repertório focado em sambas-enredo, o União dos Bairros completa 20 anos em 2026. O diretor de marketing do bloco, Robson Albuquerque, 37, afirma não entender o que faltou para o União não ficar entre os 50 coletivos com melhor pontuação.

União dos Bairros desfila no Parque Arariba, na região do Campo Limpo, e foi fundado em 2007 @Viviane Simão / União dos Bairros

“Eu acho que falta transparência. Você não tem a grade de acertos ou erros [na inscrição do edital] para que você possa corrigir alguma coisa, com base na nota que foi aplicada. Foi uma das coisas que contestei no pedido de recurso”.

O edital detalha os critérios que são avaliados para ranquear os blocos e lista também quais são os critérios de desempate, porém o feedback que os coletivos recebem é somente a lista final com as notas.

“Acho que isso faz com que os blocos periféricos fiquem cada vez mais distantes dos do centro, que têm produtores e sabem mais ou menos como funciona [para ser aprovado em editais]. Isso torna o processo muito desleal”.

De acordo com o item 9 do regulamento do Edital de Fomento ao Carnaval de Rua, a pontuação dos blocos é montada com base nos seguintes critérios:

  • Adequação ao Tema e à Identidade Cultural
  • Histórico e Relevância do Bloco
  • Planejamento e Estrutura Organizacional
  • Sustentabilidade e Responsabilidade Social
  • Capacidade de Mobilização e Segurança
  • Viabilidade Financeira e Parcerias

O item 1 destaca que o bloco precisa ter participado do carnaval de rua de São Paulo em pelo menos dois dos últimos seis anos.

Segundo Robson, o União dos Bairros é mantido exclusivamente com apoio dos comerciantes locais: “a gente troca ideia com lojistas do bairro para auxiliar. A maioria das vezes não é nem recurso em moeda corrente, é um restaurante que oferece salsicha, molho, tem a padaria do bairro que ajuda a gente também”.

Para ele, o prefeito Ricardo Nunes foi “elitista” ao dizer que os blocos são acomodados em exigir mais dinheiro público no carnaval de rua.

“‘Esse dinheiro não é da prefeitura, é nosso. Isso deixa a gente cada vez mais desgostoso com o Poder Público. Mas se a gente faz algo por conta, o que acontece? A prefeitura manda a polícia intervir, [alegando] que é um bloco clandestino. Não dá para aceitar isso numa boa”.

A Prefeitura considera como “clandestinos” blocos que promovem desfiles fora da programação oficial do carnaval de rua. Na lista dos 97 blocos habilitados no edital, a Agência Mural identificou nove que não constam na programação. Três deles são blocos de enredo, que fazem parte dos desfiles promovidos pela UESP (União das Escolas de Samba Paulistana) e não necessariamente promovem o carnaval de rua.

Questionamos a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo sobre porquê a maioria dos grupos habilitados para receber a verba são das regiões centrais da cidade. Não obtivemos resposta até o fechamento da reportagem.

Desfile do Bloco do Beco

Data e horário: 14/2, das 13h às 18h

Endereço: Rua Salgueiro do Campo, 612, Jardim Ibirapuera

Desfile do Bloco do Hercu

Data e horário: 15/2, das 12h às 17h

Endereço: Rua Ignácio Limas, 14, Jardim Herculano

Desfile do União dos Bairros

Data e horário: 22/2, das 13h às 18h

Endereço: Praça Luiza Pera dos Santos, Parque Arariba

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