Minha avó materna se formou no EJA (Educação de Jovens e Adultos) aos setenta e poucos anos. “Setenta e poucos”, porque, até hoje, não sabemos ao certo sua idade. Seu nome é Maria Celina, mas todos a chamam carinhosamente de Nena.
Filha de Maria e Manoel Companheiro, ela foi registrada muitos anos após o nascimento, e a idade acabou se tornando quase uma lenda na família. “Naquele tempo, o povo não ligava. Registrava quando queria. A criança tinha 7 anos e, na certidão, aparecia como recém-nascida”, lembra.
Nascida em Penedo, cidade histórica às margens do Rio São Francisco, em Alagoas, frequentou a escola por pouco tempo, pois precisava ajudar os pais. Sendo a filha mais velha, assumiu cedo a responsabilidade de contribuir com as despesas de casa, vendendo quiabo, macaxeira, maxixe e o que mais aparecesse. “Fui eu que quis, por conta própria ajudar eles”, conta.
(Da esq. para dir.) Manoel, José, Maria das Graça e Maria Celina @Isabela Alves/Agência Mural
Seus irmãos são Manoel, 75, José, 67, e Maria das Graças, 62. Apenas esta, a caçula, conseguiu concluir a escola.
Aos 14 anos, Nena começou a trabalhar como doméstica, em Penedo. Na época, não sentia o impacto da falta de estudos. Aos 22, teve sua carteira assinada pela primeira vez.
‘A gente nem tinha noção da importância disso [de estudar] e a lei não era tão rigorosa. Meu patrão me cobrou quatro vezes e eu mesma não ligava’
Maria Celina, ex-aluna do EJA
Mais tarde, tornou-se mãe de cinco meninas: Vera Lúcia, 55 (minha mãe); Sandra, 53; Elisabeth, 49; Edna, 48; e Ednalva, 47. Ainda muito jovem, ficou viúva e precisou criar as filhas sozinha, com muita garra e determinação. Meu avô, Aluísio Ferreira, morreu aos 35 anos, vítima de problemas cardíacos. Ele trabalhava como balconista em uma padaria de Penedo.
No dia a dia, os desafios eram enormes para colocar as filhas na escola, trabalhar nas casas de família e cuidar da casa – que era de barro, e no inverno, quando chovia, parte dela deslizava. “Foi uma luta. Eu fui o homem e a mulher da casa, mas todas elas [as filhas] terminaram os estudos”, recorda Nena com orgulho.
(Da esq. para dir.) Edna, Elisabete e Ednalva, as filhas caçulas @Isabela Alves/Agência Mural
Minhas memórias de infância com minha avó sempre foram de muitas risadas. Até hoje, pelo seu jeito único de se expressar, ela consegue me arrancar gargalhadas como ninguém. Mas ela também sempre me ensinou o valor do estudo e do trabalho árduo.
Quando eu era criança, minha família morava no Parque Cocaia, bairro do Grajaú, na zona sul de São Paulo, e tinha uma pequena mercearia no Cantinho do Céu. Quando minha avó vinha do Nordeste nos visitar, aproveitava para vender milho. Lembro do quanto ela era querida por todos no bairro.
“Antes de fazerem o CEU [Navegantes], eu já andava aí. Agora tem tudo, está uma maravilha. Não era asfaltado antes e agora está tudo 100%”, diz. Com o dinheiro das vendas, conseguiu construir um banheiro em sua casa no Nordeste.
Mas também lembro das dificuldades, de não saber ler a placa do ônibus para conseguir ir e vir livremente. “Eu sabia qual era o ônibus pelos números. Aí perguntava ao motorista se ele passava no mercado e entrava”, conta, rindo.
Maria Celina ao lado dos pais, Maria e Manoel, no sítio da família, em Penedo @Arquivo pessoal/Divulgação
Também guardo boas recordações da infância, de quando visitava sua casa em Penedo, na Rua Ponta Mofina. As ruas de paralelepípedo conservam memórias de muitas risadas e também de algumas dores, quando jogávamos bola descalços e machucávamos a ponta do dedão no chão duro.
Por lá, eu também andava de bicicleta até o sítio dos meus bisavós e montava a cavalo com meus primos. Eram tempos de inocência e muita alegria. Uma magia que só quem conhece a simplicidade do Nordeste sabe como é.
O retorno aos estudo
“Voltei a estudar porque queria saber mais coisas: nome de frutas e assinar meu nome melhor”, conta. Na nova escola, em Penedo, aprendeu muitas coisas e também encontrou um lugar para fazer novas amizades.
Ela gosta de fazer leituras no caderno, embora ainda sinta dificuldades com matemática. “É ruim”, diz, rindo.
Na época em que estava aprendendo a ler, a presenteei com o livro “Já Sou Grande”, da escritora Laura Santos, que é uma grande liderança quilombola. Comprei durante um evento literário no Quilombo do Campinho, em Paraty (RJ), e me identifiquei imediatamente: a história retrata uma avó e uma neta que aprendem juntas sobre a terra e sobre confiar no próprio potencial, algo que sempre marcou a trajetória da minha avó.
Minha família no Cine Penedo, assistindo à exibição do meu curta-metragem @Arquivo pessoal/Divulgação
Quando voltei a Penedo em 2024, fiz questão de visitar a escola da minha avó, a Escola Municipal de Educação Básica Josef Bergmann, e fiquei feliz ao vê-la falar com orgulho sobre ter uma neta jornalista.
Em 2025, tivemos mais uma grande alegria em nossa família: meu curta-metragem mais recente “Vânia & Valéria” foi exibido na cidade da minha avó, e ela pôde ir ao cinema, no Centro de Convenções Zeca Peixoto, para assistir. A emoção foi tão grande que minha avó, que não costuma demonstrar sentimentos em público, chorou de alegria.
Agora, sou eu quem me emociono ao escrever sobre ela. A história inspira e se parece com a tantas outras mulheres negras que lutam pelo bem de suas famílias.
“Sinto muita felicidade e prazer em estudar. Estou feliz da vida, porque coisas que não sabia, eu estou sabendo agora”, diz ela. A formatura no ensino fundamental pelo EJA (Educação de Jovens e Adultos) é uma lição para todos nós. De que não importa a origem ou os obstáculos ao longo da vida, sempre existe uma oportunidade de realizar os sonhos e ser feliz.

