“Feliz e empolgado.” É assim que o mecânico Sandro Andrade, 58, descreve a última lembrança que tem do filho Samuel Gustavo, então com 19 anos.O jovem havia acabado de conquistar a habilitação e se preparava para iniciar um curso profissionalizante de informática quando desapareceu misteriosamente em 8 de dezembro de 2017, no Grajaú, zona sul de São Paulo.
Oito anos depois, o caso finalmente foi esclarecido, infelizmente da pior forma. Um exame de DNA confirmou que Samuel morreu no mesmo período em que desapareceu e que o corpo estava sepultado desde 2017 como não identificado no Cemitério Dom Bosco, em Perus, na zona norte da cidade.
O caso é um dos mais de 70 mil boletins de ocorrência por desaparecimentos registrados na cidade de São Paulo, nos últimos dez anos, aponta levantamento da Agência Mural.
A revelação trouxe alívio à família por encerrar a angústia da incerteza, mas também acendeu uma nova revolta: por que Samuel foi enterrado como indigente se seu caso era bastante conhecido? E por que isso aconteceu a mais de 30 km de onde ele sumiu?
Samuel se diverte com mãe Emilia durante festa @Arquivo Pessoal
O desaparecimento
No dia que sumiu, Samuel avisou aos pais que sairia para comer açaí com um amigo e, depois, iria a uma festa onde encontraria o irmão mais velho, Sandro Júnior. “Ele era muito caseiro, mas quando ficou maior de idade começou a sair pras festinhas com o irmão, que cuidava dele”, relembra o pai.
Foi apenas na manhã seguinte, antes de sair para o trabalho, que ele percebeu algo estranho: “Sempre passava no quarto dos meninos para dar um beijo, mas o Samuel não estava. Estranhei na hora, porque ele nunca havia dormido fora de casa”, completa.
Sandro conta que chegou a questionar o filho mais velho sobre o caçula, e ouviu que o irmão tinha ficado na festa com uma amiga. Mesmo com a justificativa, ele continuou preocupado, e com razão. As horas passaram, Samuel não voltou e começou ali uma busca angustiante que se estenderia por sete anos.
‘Eu saía todos os dias e dizia para a minha esposa Emília que voltaria com o nosso filho, até que um dia ela falou algo que me quebrou por dentro: ‘Vai, mas não me promete nada não’. Naquele momento uma ficha caiu: Eu perdi mesmo o meu filho’
Sandro Andrade, pai de Samuel Gustavo
O início das buscas
As últimas imagens de Samuel com vida foram registradas por câmeras de segurança. Ele caminhava sozinho pela avenida Senador Teotônio Vilela, perto do Terminal Grajaú, na zona sul da capital.
Nas gravações, não parecia desorientado, mas a família cogitou a possibilidade de surto psicótico provocado por algo consumido na festa. Samuel nunca apresentou episódios, mas era disléxico e, por dez anos, teve acompanhamento psicológico.
Apesar das pistas, as investigações não avançaram, mas Sandro nunca perdeu as esperanças. Em meio a lentidão do sistema, recorreu a delegacias, hospitais, IMLs (Instituto Médico Legal), redes sociais e imprensa.
Corpo identificado sete anos depois
Ao longo dos anos, o caso teve quatro investigadores e vários arquivamentos e, somente em 2024, após insistências da família, um novo profissional foi contratado pelo poder público.
Ele revisou relatórios da Prefeitura sobre pessoas sepultadas sem identificação na época do desaparecimento de Samuel e um detalhe chamou atenção: um dos corpos usava um sapato novo, algo incomum, já que pessoas enterradas dessa forma costumam estar em situação de rua. O calçado, portanto, sugeria que aquela pessoa provavelmente não vivia nessas condições.
Diante dessa pista, o investigador solicitou novos registros e convocou a família para o reconhecimento. Com cuidado e respeito, os poupou de imagens mais sensíveis e, diante da suspeita reforçada, pediu a exumação do corpo.
Por meio do material genético, foi possível confirmar em junho de 2025: era Samuel.
Busca por Samuel demorou oito anos até uma resposta @Isabela Alves/Agência Mural
A perícia apontou que Samuel morreu no mesmo período do desaparecimento e que o corpo foi encontrado às margens do Rio Pinheiros, na ponte Transamérica, região sul da capital.
A família, porém, foi surpreendida ao descobrir que ele foi levado ao IML da zona oeste, o que pode ter dificultado as buscas, já que, na época, a procura se concentrou apenas nas unidades da zona sul.
Essa é uma das principais queixas de Sandro: a falta de comunicação entre delegacias e IMLs. “As instituições não conversavam entre elas. Uma não fornecia informações para a outra. Me lembro dessa dificuldade, de colher relatos divergentes em cada uma. Isso atrasava a procura e nos deixava sem alternativas”, lamenta.
“Na época, o desaparecimento teve ampla repercussão. Ainda assim, quando o corpo foi encontrado, ninguém fez a conexão”, completa Sandro.
Estado
A Mural solicitou, via LAI (Lei de Acesso à Informação), detalhes à SSP (Secretaria de Segurança Pública) sobre os protocolos usados para a identificação de corpos e as medidas adotadas para evitar que pessoas desaparecidas sejam sepultadas como indigentes.
O órgão afirma que, seguindo o Procedimento Operacional Padrão da Perícia Criminal e com o apoio de tecnologias mais avançadas, cada corpo que chega ao IML passa por coleta de digitais, análise odontológica, exame de DNA e registro fotográfico.
Tatuagens, roupas e outras características físicas também são registradas no sistema. A comunicação com possíveis familiares fica a cargo da Polícia Civil e do Núcleo de Apoio Familiar do IML.
Se mesmo após esses procedimentos a identificação não ser possível, o corpo é sepultado em uma cova individual e numerada, sempre com os pertences, para permitir um eventual rastreamento no futuro.
Luta por justiça
A família de Samuel finalmente sabe onde ele está, mas contesta o fechamento do caso após o reconhecimento do corpo, já que há fortes indícios de crime.
“Nos deram 30 dias para recorrer da decisão. Fiz isso, inclusive solicitei que os dois inquéritos, o do desaparecimento e o da identificação do corpo, fossem unificados. Não vamos desistir até descobrir o que aconteceu com meu filho. Há muitos indícios de assassinato e queremos uma resposta”, afirma Sandro.
Não bastasse isso, a família ainda enfrentou dificuldades para recuperar o corpo e garantir um sepultamento digno. A situação só foi resolvida graças à atuação da Defensoria Pública, que também auxiliou na emissão do atestado de óbito.
Para Sandro, o descaso com o corpo de Samuel representou uma segunda violência. “Isso precisa ser mudado, não só a questão da identificação de desaparecidos, mas o cuidado com o corpo das pessoas, especialmente periféricas.”
Em agosto de 2025, Samuel Gustavo foi finalmente sepultado com dignidade no Memorial Parque Paulista, em Embu das Artes, na Grande São Paulo. A cerimônia foi marcada pela emoção, pela fé e pela presença de todos que acompanharam a longa trajetória da família.
Sandro comenta uma conquista recente que representa o encerramento de um ciclo de muita dor: o atestado de óbito de Samuel. “Meu filho era um garoto iluminado por Deus, que sempre carregava um sorriso no rosto. É assim que quero que ele seja lembrado.”

