Um equipamento público era esperado há décadas pela população de Cidade Ademar, na zona sul de São Paulo: o CEU, Centro Educacional Unificado da região. Quando ele foi inaugurado, em setembro de 2025, uma surpresa: no imenso muro externo estava a imagem de Silvio Santos, apresentador, empresário fundador do SBT (Sistema Brasileiro de Televisão).
Além da imagem, ele deu nome à instituição de ensino: “CEU Silvio Santos”. A homenagem causou questionamentos entre os moradores, sobretudo pelo espaço não trazer o nome de uma pessoa referência do território.
Depois de um abaixo assinado e de muita mobilização, a escola que fica dentro do Centro ganhou o nome de EMEF Padre Anthony John Conry, liderança comunitária, professor, morador que há tempos luta pelo direito à educação.
Após mobilização da comunidade de Cidade Ademar, EMEF no CEU Silvio Santos, recebeu nome escolhido pelos moradores @Wellington Nascimento/Agência Mural
Este não é um caso isolado. A cidade de São Paulo tem apenas cinco escolas de educação fundamental da prefeitura batizadas com nome de personalidades do bairro que viveram nos territórios onde estão, com relevância social para aquela comunidade. O levantamento foi feito pela Agência Mural com base nos dados do Portal Escola Aberta da Prefeitura de São Paulo.
Na semana em que se comemora os 472 anos de São Paulo e próximo ao retorno das aulas, a Mural foi entender quem são as figuras escolhidas para dar nomes às escolas da capital paulista e se os moradores do local se sentem (ou não) representados por elas.
Quem são os periféricos que dão nome às escolas?
Pedro Geral Schunck, conhecido pelo apelido de Pedrinho da Venda e Tio Pedrinho, era Alemão, e viveu por mais de 60 anos em Parelheiros. Fornecia iluminação para bairro gratuitamente por meio de um sistema caseiro de energia elétrica. Fundou o posto de saúde e o Centro Desportivo Municipal do bairro. Morreu aos 87 anos, em 1988.
Armando Cridey Righetti era filho de imigrantes italianos, nasceu em 1905, em Jardinópolis, interior de São Paulo. Foi morar em São Miguel Paulista em 1946, onde trabalhou em uma indústria farmacêutica e mais tarde abriu a Farmácia São José. Faleceu em 1974.
Não há muitas informações sobre a vida e o legado de Firmino Tiburcio da Costa. Segundo informações do Blog Vila Guilhermina, o patrono da escola foi fundador e presidente da Sociedade Amigos do Jardim Assunção, no bairro com o mesmo nome, localizado na Vila Guilherme. A instituição não foi encontrada em buscas.
Fonte: Blog Vila Guilhermina
Neusa Avelino da Silva Melo, nasceu em Maranhão em 1942 e viveu no distrito de São Miguel Paulista. Foi líder comunitária, fundadora e presidente da Associação Comunitária das Mulheres do Movimento Sem Terra, que mais tarde se tornou uma Organização Social.
Fonte: Museu da Pessoa
Ao que indica, Hercilia de Campos Costa nasceu em São Luiz do Paraitinga, no estado de São Paulo. Já na capital paulista, morou e foi líder comunitária do Parque Bristol e Jardim Savério.
Fonte: Blog Intervalos
Há representatividade no nome das escolas?
Até agosto de 2025, a capital paulista contava com 597 Escolas Municipais de Ensino Fundamental (EMEF) e CEUs EMEF, que são unidades de ensino dentro dos Centros Unificados. A maioria delas (30,65%) recebe o nome de professores, homenageando quem dedicou a vida à educação.
Na sequência (ao menos 12,73%), aparecem figuras políticas, de diferentes períodos da história. São vereadores, diplomatas, visconde e imperadores, por exemplo.
A EMEF em Cidade Tiradentes que homenageia um estudante de geologia, líder do movimento estudantil morto na ditadura militar @Léu Britto/ Agência Mural
Militares estão na sequência na lista dos mais homenageados (pelo menos 8,4%). Pensadores e pessoas ligadas às ciências humanas (como escritores, jornalistas e historiadores) são 7,87%, segundo levantamento da Agência Mural.
Dentre os menos homenageados estão os ativistas sociais (2,51%). Nesta categoria, são apenas cinco referências de pessoas das periferias da capital, homenageados no próprio território.Uma parcela dos nomes das escolas (13,07%) não foram identificados durante a pesquisa.
A lista dos nomes é variada. Tem personalidades ligadas ao esporte, religião, artes, empresariado e até datas comemorativas – como a EMEF 22 de Março, que homenageia o Dia da Água; a EMEF Zilka Salaberry de Carvalho, atriz que fez Dona Benta na primeira versão do Sítio do Pica Pau Amarelo; e a EMEF Cidade de Osaka, que destaca a cidade portuária Japonesa.
Quem acompanha o debate reforça que não há transparência sobre quem são as pessoas homenageadas nas escolas já nomeadas. Ainda que o nome escolhido não seja de um representante da comunidade, divulgar quem é a pessoa é considerado de extrema importância para a autonomia da região, de escolher se essa história deve ou não continuar sendo parte dela.
Cássia Caneco, diretora executiva do Instituto Polis e educadora cultural, que atua em temas de participação social e cidades mais justas, avalia que os nomes de escolas municipais dialogam com outras pesquisas para entender quais personagens e narrativas foram visibilizados na construção da história da cidade.
‘Em geral, são homens brancos que alcançaram postos de heróis, como militares e bandeirantes, ou que ocuparam cargos políticos. As pessoas que alçam lugares de poder e representação são as que têm as suas histórias contadas’
Cássia, diretora do Instituto Polis
Para ela, há falta de processos claros e determinados que facilitem a participação comunitária na escolha dos nomes das instituições de ensino. Somente comunidades muito engajadas conseguem homenagear suas figuras de representação em instituições públicas de ensino.
“Esses processos precisam ser documentados, fazer parte dos planos políticos pedagógicos da escola. Todo mundo que entra naquela escola deveria saber quem foi aquela pessoa, quem definiu aquele nome, qual foi o contexto, para que a gente possa, em algum momento, questionar essas escolhas”.
Maior parte das escolas com nome de professores estão nas periferias
O levantamento da Agência Mural revelou que das 183 escolas municipais da capital que possuem nomes de professores, a maioria (173) estão localizadas em distritos periféricos (94,5%).
Um dos motivos, segundo Cássia, se deve às mobilizações políticas de movimentos sociais nas quebradas, que são locais historicamente marcados por lutas sociais.
“Foi nos extremos que nasceu o SUS (Sistema Único de Saúde), os grandes movimentos de moradia e os grandes movimentos culturais. [Os moradores das periferias] reivindicam outras narrativas, que viabilizem e valorizem a produção cultural e intelectual de outros atores”.
O historiador Felipe Silva Avelino, 41, é a prova de que o movimento local por representatividade tem força. Durante seu mestrado em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades, na Universidade de São Paulo, ele sentiu o desejo de mobilizar a região onde mora para eternizar a memória da ”Tia Iraci”.
Mulher negra e forte referência na educação e lutas sociais do bairro Jardim das Flores, em Aricanduva, zona leste, Tia Iraci merecia uma homenagem, na visão de Felipe, seu afilhado.
Ele, então, iniciou uma mobilização para mudar o nome da escola em que Tia Iraci lecionou por 27 anos no ensino fundamental – e onde há dois anos ele leciona Geografia e História.
A ideia é que o colégio deixe de se chamar Escola Estadual Comendador Guilherme Jorge – homenagem a quem cedeu o terreno para a construção – e passe a ser EE Iraci Aparecida Lima Alves, mulher que ajudou a construir a história do bairro.
‘Quando citei [a ideia], as pessoas chegaram a chorar e dizer: ‘ela merece ter o nome dela aqui’. Ela era a cara dessa escola. A história dela é um resgate. Muitos dos avós dos meus alunos foram alunos dela’
Felipe, professor
Tia Iraci é lembrada pela proximidade com a comunidade, a ponto de trazer a famíliados estudantes para o cotidiano da escola; pelas aulas cantadas, que traziam leveza para a rotina escolar; e pela memória, que permitia lembrar o nome de cada aluno, pai e avó. Até a polenta com frango, marca dela nas festas juninas do bairro, deixou saudades.
Felipe tenta aproximação com vereadores e deputados estaduais para avançar com esse sonho. Por hora, ele está organizando um abaixo-assinado, que precisa de 400 assinaturas para ser levado à Assembléia Legislativa de São Paulo.
Quem foi Tia Iraci?
Iraci Aparecida Lima Alves nasceu em 19 de agosto de 1946 em Laranjal Paulista. Na cidade cursou magistério, na época era equivalente ao curso superior de pedagogia. Chegou em São Paulo na década de 1970 e em 1975 ingressou no serviço público de educação.
Apesar da ligação direta com educação, Tia Iraci também é lembrada pela atuação social e política na região. Integrava o programa Leve Leite, incentivava a cultura e esporte, dava aulas de reforço sem cobrar.
Incentivava o ingresso na universidade, ouvia as demandas da população e atuava junto às Comunidades Eclesiais de Base (CEBS), grupo progressista vinculado à igreja católica. Morreu em em 21 de novembro de 2012, um dia depois da Dia da Consciência Negra, e já é homenageada com nome em uma escola do município de Laranjal Paulista.
Para Felipe, é importante que as escolas levem nomes de professores das comunidades, como forma de legitimar e resgatar o valor da profissão. “Quando comecei, em 2005, perguntava para os meus alunos: ‘quem quer ser professor?’ Tinha dois ou três que levantavam a mão. Hoje, pergunto o mesmo e ninguém mais quer.”
Cássia concorda, mas lembra que só a homenagem não transforma a realidade dos educadores, que precisam de mais valorização, remuneração e melhores condições de trabalho e carreira.
“Agente precisa se apropriar da cidade a partir das histórias das escolas, dos nomes de ruas, das placas, dos espaços culturais. Quais são as histórias que estão sendo contadas hoje na cidade?”.

