Magno Borges/ Agência Mural
‘A pessoa só sobrevive’, reclama trabalhador por não conseguir conviver com família e amigos; PL que propõe um dia a mais de descanso avança no Congresso
Por: Ariane Costa Gomes | Ana Beatriz Alves | Daniel Santana | Egberto Santana | Jacqueline Maria da Silva
Notícia
Publicado em 28.05.2026 | 15:22 | Alterado em 28.05.2026 | 17:39
Empurra carrinho de um lado para o outro, devolve itens nas prateleiras, tira dúvidas de clientes, organiza os produtos no caixa… Ufa! Esse é um pouco do dia a dia do empacotador de supermercado Andrey Soares de Oliveira, 18. “A gente faz meio que de tudo”, resume o jovem morador de Suzano, na Grande São Paulo, que também é estudante do último ano do ensino médio.
“Eu acordo às 5h da manhã para estar no trabalho às 7h. Por volta das 15:15, venho para casa, tomo um banho, como algo e vou estudar. Quando volto para casa depois das 22h, já estou morto, só como e durmo “, detalha sobre a jornada de 8 horas de trabalho por dia, seis dias na semana.
Andrey é um dos jovens das periferias de São Paulo que trabalham na escala 6X1. São seis dias de trabalho na semana e apenas um de descanso, para encaixar compromissos pessoais, estudo e autocuidado.

Após um ano de trabalho, Andrey relata estar mais esquecido, exausto e com dores nas costas Egberto Santana/ Agência Mural
“No dia que tenho para descansar, preciso resolver algo ou cuidar da casa. Às vezes quero fazer alguma coisa no dia de folga, mas o cansaço é tão grande que só fico no quarto, nem tanto pelo cansaço físico, mas pelo mental”, conta o porteiro Guilherme Couto Bezerra Valério, 22, morador do Parque Dourado, em Ferraz de Vasconcelos, também na Grande São Paulo.
Ele tem apenas uma folga na semana, sem dia fixo. “A pessoa só sobrevive”, reclama por não conseguir aproveitar os dias com a família e os amigos. Até à igreja, que lhe traz tanto bem estar, não consegue frequentar.
Quem já viveu nesse ritmo e sofreu impactos na saúde defende a importância de rever o tempo de trabalho no Brasil. É o caso da enfermeira Gabriela Tavares dos Santos, 29, moradora no Jardim São Luís, zona sul de São Paulo.

Gabriela trabalhou por oito anos em um mercado na escala 6×1.Atualmente, atua em uma rede de farmácias @Arquivo pessoal
“[A jornada] te massacra. Chega um ponto em que o cansaço mental é maior que o físico e você não consegue se dedicar a nada. A escala 6×1 faz você viver só para o trabalho”.
Na época em que fazia a escala 6X1, Gabriela era atendente em uma grande rede de supermercados. Ela afirma que não conseguia fazer consultas médicas de rotina, terapia e atividades de lazer. O resultado: dois anos de medicação psiquiátrica para recuperar a saúde mental.
“Percebi que não estava vivendo mais, só trabalhando. Minha saúde estava zerada, meu lazer também. Foi aí que virou a chave: entendi que existe vida fora da escala 6×1”
Gabriela Tavares dos Santos, 29, enfermeira.
A escala 6X1 prevê um dia de folga semanal para seis dias trabalhados com carteira assinada. Ela foi criada pela Consolidação das Leis do Trabalho, a CLT, em 1943, pelo então presidente Getúlio Vargas.
Tanto a CLT quanto a Constituição Federal de 1988 determinam que a jornada de trabalho não pode ser superior a oito horas diárias e 44 horas semanais e garante ao empregado um descanso semanal remunerado de 24 horas.
Os deputados federais Reginaldo Lopes (PT-MG) e Erika Hilton (PSOL-SP) apresentaram Propostas de Emenda à Constituição para reduzir a jornada de trabalho, em 2019 e 2025, respectivamente. As pautas tramitam apensadas, com modificações após diversas negociações entre o governo Lula e o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos).
Na noite de ontem (27), a PEC foi aprovada na Casa, a partir do parecer do deputado Leo Dias (Republicanos-PB). A proposta, que reduz a jornada de trabalho semanal de 44 para 40 horas, teve 472 votos favoráveis e 22 contrários no primeiro turno; e 461 favoráveis e 19 contra no segundo.
O texto ainda precisa ser aprovado no Senado com ao menos 49 votos entre 81 senadores, em dois turnos, antes de ser promulgado. Não há previsão de data para a votação.
Limite na jornada semanal passa a ser de 44 horas para 40 horas, em qualquer regime.
Ao invés de um dia de descanso remunerado, seriam dois dias garantidos por lei.
A mudança ocorreria sem redução salarial.
Fonte: Governo Federal
Os entrevistados ouvidos nesta reportagem, trabalhadores jovens das periferias da Grande São Paulo, são unânimes: a escala 5X2 traria mais qualidade de vida, possibilidades de cuidar da saúde e até mais tempo para se dedicar aos estudos e ao aprimoramento profissional.
Gabriela, enfermeira, consegue viver hoje essa realidade e sente a diferença na sua saúde. Ainda que precise fazer plantões aos finais de semana, duas folgas garantidas na semana dão a ela o respiro que precisa.
“Dá tempo de fazer tudo. Ontem resolvi uma pendência na minha folga, hoje já estou mais tranquila, consegui curtir em casa com a minha mãe. Dá para organizar a vida”, diz.
Desde 2021, Douglas Haziel Alves Pereira, 23, do bairro Metalúrgicos, em Osasco, trabalha como representante de uma rede de fast food. O único dia de descanso na semana é apenas para repor as energias para começar novamente o trabalho.
‘Creio que a PEC ajudará não só [a aumentar a] produtividade, como a dar qualidade de vida ao trabalhador. Com um dia a mais de folga, consigo ter mais organização e foco’.
Por só ter uma folga, perdeu momentos pessoais importantes, como festas em família, casamentos e viu seu ciclo de amigos reduzir pela falta de tempo. Se tivesse mais um dia livre, acredita que aproveitaria com os parentes e se dedicaria aos estudos.

Sem folga fixa, o porteiro Guilherme critica o controle da jornada sobre sua vida pessoal. @Arquivo pessoal
“Caso seja aprovada como lei, a redução da escala de trabalho vai permitir mais tempo do trabalhador com a família e com sua vida pessoal, contribuindo para uma saúde mental”, afirma a advogada trabalhista, Alessandra Aparecida Pereira, do Jabaquara, zona sul de São Paulo.
Ela lembra que os moradores das periferias, além de serem a maioria na escala 6X1, também enfrentam mais tempo de deslocamento no transporte público e em funções mais precarizadas e exaustivas.
Alessandra identifica dois cenários com o fim da escala 6X1: um mais favorável, com mais contratações, melhora da produtividade e trabalhadores beneficiados pela redução da jornada. O outro, marcado pela resistência empresarial.
Setores da economia que operam continuamente, como comércio, podem buscar compensações, aumentando a intensidade do trabalho, reduzindo comissões, ampliando bancos de horas, apostando na terceirização ou na migração para o modelo PJ.

Alessandra aponta que a resistência empresarial pode afetar as melhorias trazidas pelo fim da escala 6×1 @Arquivo pessoal
Esse contexto pode fragilizar o mercado de trabalho, aumentar a informalidade e até afetar a arrecadação do INSS, caso o número de trabalhadores contratados em regime CLT caia consideravelmente.
‘A lei precisa ser robusta, com uma mudança que garanta fiscalização e proteção salarial, para não prejudicar o trabalhador’.
Alessandra Aparecida Pereira, advogada trabalhista
O PL ainda tramita no Congresso, onde há pressão para sanção antes do período eleitoral. Alessandra acredita que se não for votada logo, por ser um ano de Copa do Mundo e eleições, o processo pode acabar ficando para a próxima gestão.
Enquanto o 5X2 não vem, Andrey continua sonhando em ter mais tempo para aproveitar seu playstation, jogar vôlei na rua e passear no parque. “Só queria um pouquinho mais de liberdade”, desabafa.
Jornalista, acredita que a informação e a educação são ferramentas fundamentais para transformar as pessoas e a sociedade. Gosta de aprender e conhecer coisas novas, estar ao lado das pessoas que ama, ouvir música e ficar junto de suas duas cachorrinhas. Correspondente de Osasco desde 2015.
Jornalista, ferrazense e escritora. Boa ouvinte e contadora de histórias. Correspondente de Ferraz de Vasconcelos desde 2023.
Jornalista, apaixonado por livros, samba e carnaval. Corintiano, vivo o futebol de domingo a domingo. Adoro contar histórias através do jornalismo.
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Jornalista, vencedora de prêmios de jornalismo como MOL, SEBRAE, SIP. Gosta de falar sobre temas diversos e acredita do jornalismo como ferramenta para tornar o planeta melhor.
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