Arquivo pessoal
Por: Jacqueline Maria da Silva
Notícia
Publicado em 09.05.2026 | 11:12 | Alterado em 09.05.2026 | 11:12
Um refrigerante, um salgado e um doce dentro de uma sacola de plástico. Um lanche preparado com carinho para sustentar os pequenos quatro fãs, que por horas ficam sentados na arquibancada assistindo e vibrando pela a mamãe em quadra.
“Eles cresceram me vendo jogar bola, eram a minha torcida. Conforme eles foram crescendo, eu fui ensinando eles a jogar”, conta orgulhosa Nanci Barbosa Barreto, 60, a auxiliar de faxina, moradora de Cidade Tiradentes, na zona leste da capital.
Quando nascia cada um dos seus filhos, ela tirava um ano para se dedicar a eles, e logo depois do desmame, voltava para jogo. A maternidade nunca foi um impeditivo para viver o sonho das quadras, ao contrário: envolver os filhos no esporte era uma forma de unir suas duas paixões.
Dona Anna, falecida em 2026, incentivou a filha a seguir na carreira de futebol @Arquivo pessoal
Nanci com Alan (laranja), Nilton (boné e camisa preta), Mira (preto) e Edilson com camiseta do Corinthians @Arquivo pessoal
Inspirados pela mãe, eles também se apaixonaram pelo futebol de várzea. Tanto que Nanci costuma dizer que o campo é como uma casa e a bola como um filho, que deve ser tratado com respeito e carinho, sempre fazendo o melhor que se pode.
“Quando eu entro no campo, a bola é minha filha. Ela depende de mim para chegar no seu objetivo. Eu cuidei dos meus meus filhos com o mesmo pensamento: tenho que encaminhar eles de alguma forma até que consigam se manter com as próprias pernas. Como o chute na bola, eu alavanquei eles para fazerem escolhas”, compara.

Além de ponta-esquerda nos times femininos de campo, Nanci era goleira nos times masculinos de futsal. Na várzea, assumia as duas posições @Arquivo pessoal
São lembranças nostálgicas que conectam a maternidade com o futebol. Ela conta que certa vez reuniu a família e formou time para um jogo entre amigos em um campo próximo de casa. Quando chegou no local, os parentes ocuparam toda a lateral da arquibancada e dominaram o jogo, para a surpresa do time adversário.
“Meu irmão falou: ‘aqui é todo mundo família, mãe, filhos, irmãos, sobrinhos’. Aí o pessoal achou super bacana, porque nunca tinha visto uma família toda jogando, brigando, reclamando, se abraçando e na arquibancada assistindo. O melhor, ainda ganhamos a partida”, conta com humor.
O quarteto de fãs cresceu: Alan, 41, Newton, 31, Mira, 25, Edilson, 24. Mas antes disso, foram muitos dribles de Nanci para avançar na carreira de jogadora profissional. Gratidão que ela tem a mãe Anna Feitosa, falecida em 2026, que ajudava a cuidar dos filhos para que ela conseguisse trabalhar e se dedicar aos treinos de futebol.
Ainda moleca, aos 8 anos, o caminho era da escola para os campos de terra da Cohab Prestes Maia, em Cidade Tiradentes, onde mora até hoje. Na época, dona Anna ficava brava e tentava impedir a filha de jogar.
“Eu fazia por insistência, primeiro porque eu gostava, mas não era só uma brincadeira, eu não sei explicar, mas era como se eu tivesse nascido com aquele dom já”.
Aos 10 anos fundou o próprio time “Unidos do Prestes Maia” com outras colegas do conjunto e passou a jogar em campeonatos em bairros próximos, como Cidade Líder e nas Olimpíadas Intercohabs, que já não existem mais.

Unidos do Prestes Maia, time feminino formado por Nanci e as amigas de bairro. @Arquivo pessoal
Com 11 anos, após uma partida de várzea, a então ponta esquerda, foi convidada por um olheiro do clube do São Caetano do Sul para o time feminino. A ajuda de custo apoiava o orçamento da família, na sua primeira possibilidade de profissionalização. Foi aí que dona Anna enxergou o talento da menina e começou a incentivá-la.
Nanci também experimentou o futsal e foi conciliando o jogo linha em times femininos e gol no futsal, em times mistos. Integrou clubes como Santo André, Juventus, Portuguesa e Corinthians, que acabou virando seu time do coração.
Adentrou grandes estádios como Morumbi e Pacaembu, em São Paulo, Brinco de Ouro da Princesa, em Campinas, e Maracanã, no Rio de Janeiro. Era um pé no profissional e outro na várzea, onde jogou em pelo menos 20 times da zona leste e quase todas as cidades do ABC.
Aos 35 anos, assinou um contrato com o União de Mogi das Cruzes e recebeu a grande oportunidade de sua vida. “Fui convocada para seleção brasileira. A primeira formação escalada para participar do primeiro mundial feminino, com Cenira, Roseli, Tafarel e Pretinha”, conta ela.
O sonho foi interrompido por uma fratura na tíbia, que fez Nanci ficar quatro meses afastada dos campos e fora da seleção. Ainda que frustrada, não deixou a bola parar de rolar e continuou a treinar, sem apagar o brilho da menina da dona Ana.
“Sou conhecida na cidade de São Paulo por ter sido a única mulher autorizada a jogar futebol masculino de salão pelas principais ligas de São Paulo, na linha e no gol. Um reconhecimento muito grande. Eu cumpri a minha parte, enquanto pude jogar, e levantei o nome de muitas equipes em campeonatos”.
No campo ou na arquibancada, ela não pretende se afastar da paixão. Tanto que só parou de jogar aos 58 anos, em decorrência de uma lesão no nervo ciático, que chegou a deixá-la por dois meses em uma cadeira de rodas.
Mas parou em grande estilo. “Eu queria encerrar a carreira em um time de várzea da zona leste, que foi onde eu comecei a jogar: o Coroa do José Bonifácio, e foi para que voltei em 2019 e fiquei até agora”.
Jornalista, vencedora de prêmios de jornalismo como MOL, SEBRAE, SIP. Gosta de falar sobre temas diversos e acredita do jornalismo como ferramenta para tornar o planeta melhor.
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