Arquivo pessoal
Por: Jacqueline Maria da Silva
Notícia
Publicado em 09.05.2026 | 11:14 | Alterado em 09.05.2026 | 11:14
“Estava muito tempo sem fazer gol e a Juju falou: ‘mãe, bem que você poderia fazer um hoje’. E eu consegui! Ela falava pra todo mundo: ‘hoje minha mãe fez um gol para mim’. Sabe quanto isso é marcante?”, descreve Jéssica Paula dos Santos Menezes, 36, modelo, promotora de eventos e jogadora de futebol do Jardim Carumbé, na Brasilândia, zona norte de São Paulo.
Esse foi um dos tantos campeonatos de várzea em que ela levou a filha Juliana, na época com 8 anos (hoje com 17). Mas na verdade, Juju já participava do futebol antes mesmo de nascer, na barriga da mãe.

Jéssica ainda adolescente jogava com gestação avançada sem entender os riscos @Arquivo pessoal
Jéssica engravidou aos 19 anos, pouco depois de terminar o ensino médio e não aceitou bem o fato de ter que parar de jogar por conta da gravidez. Aos quatro meses de gestação fez a primeira “loucura”, durante uma festa na empresa em que a mãe trabalhava, e entrou em uma partida de futebol.
“Eu pensei: ‘ainda dá para jogar. É só proteger a barriga da bola e tudo certo.’ Mas minha mãe me tirou pelos cabelos da quadra falando: ‘presta atenção que você está grávida!’. Eu, chorando, falei: ‘mãe, era minha a bola’”, relata com humor.
A bronca só fez cócegas, porque com sete meses de gravidez lá estava Jéssica dentro da quadra do seu prédio, jogando novamente. De novo, saiu a pedido da mãe, que gritou: “olha o tamanho da sua barriga!”. “Foi aí que caiu a minha ficha e eu entendi que era perigoso e que podia prejudicar a minha bebê. Eu chorei de culpa”, conta.
Jéssica joga futebol desde os 11 anos em times de bairro e em projetos sociais na escola. Ela queria viver do esporte profissionalmente, mas o padrasto impediu ela e as irmãs de se dedicarem aos esportes. Quando a filha nasceu, a rotina de trabalho, faculdade e a maternidade a afastaram ainda mais do sonho.
Mas conforme Juju foi crescendo, a saudade das quadras também foi ganhando espaço até que um convite a levou de volta, em 2016, três anos depois de parar de jogar. Uma amiga da época da escola falou sobre os treinos do Magistral, um time feminino de Taipas, distrito vizinho ao onde Jéssica mora. Ela topou participar e passou a levar a cria para acompanhá-la nos treinos e torneios.
“Tive que me reinventar, pois meu corpo não era o mesmo após a maternidade, não tinha mais aquele domínio de bola, aquela leveza”.
Já que não podia se profissionalizar, viu na várzea, aos finais de semana, um refúgio para realizar seu sonho. O que ela não esperava era que no esporte amador ia encontrar mulheres que passavam por situações difíceis e tinham no futebol uma válvula de escape.

Foi nos times de Várzea que Jéssica encontrou e deu colo de mãe a outras mulheres em situações difíceis @Arquivo pessoal
Mães adolescentes, mulheres que passavam por violência doméstica, mães solos, dependentes químicos, pessoas em vulnerabilidade socioeconômica. Jogadoras que dividiram não só a paixão, mas desafios de gênero. Assim, elas criam um espaço de solidariedade na várzea.
Jéssica se mobilizou para ajudar uma mãe que sequer tinha o que comer, cuidou de uma jogadora que teve tuberculose e deu suporte à mulher que perdeu a casa na enchente. Até partiu para a briga com um homem para defender uma colega de ser agredida pelo marido em quadra.Ela mesma encontrou apoio no grupo, quando a filha foi internada com suspeita de apendicite.

Agora, a jovem da Brasilândia se dedica a carreira de modelo @Arquivo pessoal
Há um ano, Jéssica interrompeu os treinos e passou a se dedicar ao novo sonho: ser modelo. Uma das primeiras campanhas de publicidade que fez foi relacionada ao futebol. Por enquanto, se recupera de uma cirurgia para colocação de silicone e, agora mais prudente, lembra da mãe, falecida em 2020, e revela medo de levar uma bolada em quadra que comprometa a prótese.
Mas pretende voltar, mesmo que eventualmente, para esse espaço que lembra o colo de mãe. “Não era só um grupo de meninas reunidas para dar chute na canela, não era só um gol. Você aprende muito sobre coletivismo e a empatia. É um espaço de alegria.”, descreve. “A mãe é a base e o futebol de várzea é uma mãe. Ele acolhe”.
Jornalista, vencedora de prêmios de jornalismo como MOL, SEBRAE, SIP. Gosta de falar sobre temas diversos e acredita do jornalismo como ferramenta para tornar o planeta melhor.
A Agência Mural de Jornalismo das Periferias, uma organização sem fins lucrativos, tem como missão reduzir as lacunas de informação sobre as periferias da Grande São Paulo. Portanto queremos que nossas reportagens alcancem outras e novas audiências.
Se você quer saber como republicar nosso conteúdo, seja ele texto, foto, arte, vídeo, áudio, no seu meio, escreva pra gente.
Envie uma mensagem para republique@agenciamural.org.br