Jovem artista integra mostra no Museu das Favelas e articula afro-surrealismo, vivência periférica e referências musicais
Gabrielly Souza/Agência Mural
Por: Gabrielly Souza
Notícia
Publicado em 24.04.2026 | 11:37 | Alterado em 29.04.2026 | 13:04
A exposição “Imaginação Radical: 100 anos de Frantz Fanon”, em cartaz no Museu das Favelas, homenageia o psiquiatra e pensador que marcou os estudos sobre pós-colonialismo e racismo. A mostra reúne obras que discutem história, identidade e imaginação a partir de olhares negros de hoje.
Entre os artistas participantes está o jovem artista visual Isaac Sales, 25, cuja produção se destaca por articular crítica social, simbologia e fabulação em composições que transitam entre o onírico e o político.
Morador do bairro dos Pimentas, em Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo, Sales construiu a trajetória a partir de uma relação precoce com o desenho.
O primeiro contato com a prática surgiu ainda na infância, por volta dos quatro anos, quando, diante da insistência para que a mãe desenhasse para ele, passou a criar as próprias imagens, inicialmente, dinossauros. Desde então, o desenho deixou de ser uma atividade lúdica para se tornar o principal meio de expressão, comunicação e trabalho.

Quadro “O Povo” de Isaac Sales com o público ao fundo, pintado em 2024 @Divulgação/Isaac Sales
Ao longo dos anos, o percurso dele foi atravessado por experiências que extrapolam o campo das artes visuais. Entre 2013 e 2018, integrou a equipe de ginástica acrobática de um CEU (Centro Educacional Unificado), onde teve acesso a materiais, estrutura e circulação cultural.
No mesmo período, também atuou na criação de coreografias para escolas de samba da capital paulista. A vivência no carnaval é apontada por ele como fundamental para a construção de sua linguagem artística, especialmente pela incorporação de pesquisa histórica e narrativa nas obras.
“Nós fazíamos coreografias para carros alegóricos, ensaiava tudo certinho e depois desfilava. A arte sempre estava junto nisso. Foi aí que comecei a desenvolver outro lado meu: o de contar histórias. Foi no Carnaval que aprendi a construir e apresentar uma narrativa que fosse de verdade.”
É nesse contexto que o artista passa a desenvolver sua produção a partir do afro-surrealismo, abordagem estética que utiliza o fantástico, o onírico e o simbólico para retratar experiências negras e tensionar o racismo estrutural.
Nos trabalhos de Isaac, fatos e contextos reais são transformados em composições visuais que combinam crítica social e imaginação. A técnica surge como ferramenta de reinvenção, revelando experiências invisibilizadas e propondo novas narrativas de resistência.
A técnica do afro-surrealismo surge como ferramenta de reinvenção, revelando experiências invisibilizadas e propondo novas narrativas de resistência
Sales define a obra dele como um campo de associação entre música, literatura, imagem e história, organizado de forma metódica.
Apesar da aparência intuitiva, o processo criativo dele é estruturado: o artista seleciona referências específicas para cada trabalho, criando uma rede de significados traduzida na pintura. Com tinta a óleo, desenvolve composições que transitam entre abstração e figuração, explorando o que chama de “abstração com intenção”.
Ao comentar o papel do afro-surrealismo em sua prática, o artista destaca sua dimensão pessoal e política. “Estou com 25 anos entrando agora no mercado tradicional e percebo que os pioneiros do afro-surrealismo ainda estão vivos, não são figuras distantes”, afirma.
Uma das alas da exposição “Imaginação Radical 100 anos de Frantz Fanon” @Reprodução/Museu das Favelas
Exposição vai até o dia 24 de maio no Museu das Favelas @Reprodução/Museu das Favelas
Trabalhos homenageiam o psiquiatra e intelectual Frantz Fanon @Reprodução/Museu das Favelas
Para ele, o afro-surrealismo também se conecta diretamente à sua vivência como pessoa negra, queer e periférica. “Existem muitas realidades possíveis, e eu quero fugir de algumas delas. O afro-surreal é esse lugar de criar um novo mundo para sobreviver mentalmente”, diz.
Segundo Sales, esse processo implica construir, na arte, um espaço de autonomia e controle simbólico. “É permitir criar um ambiente onde eu tenho controle de tudo, assumir isso e criar possibilidades a partir daí”, completa.
A projeção de sua carreira ganhou novo impulso em 2025 a partir de uma residência artística de três meses na Domo Damo, que possibilitou sua aproximação com o curador do Museu das Favelas, Jairo Malta, após a exposição de encerramento. O encontro resultou no convite para integrar a mostra “Imaginação Radical: 100 anos de Frantz Fanon”, no Museu das Favelas, em cartaz até 24 de maio.
Domo Damo é uma residência artística e um oásis cultural fundado em 2023 em São Paulo por David Laloum (empresário francês) com Benjamin Trigano, fundador da galeria M+B, de Los Angeles, nos Estados Unidos
A relação entre arte e teoria ocupa papel central em sua produção. Parte de sua pesquisa dialoga com o pensamento de Frantz Fanon, especialmente no que diz respeito à compreensão das estruturas do racismo e seus impactos subjetivos. Em suas obras, Sales não apenas representa conflitos históricos e sociais, mas também investiga como essas dinâmicas moldam identidades e comportamentos.

Isaac Sales em seu ateliê, localizado na laje de sua casa @Gabrielly Souza/Agência Mural
Séries como “O Povo”, em cartaz no Museu das Favelas, articulam elementos simbólicos, como as cores associadas ao pan-africanismo (vermelho, verde e preto), para abordar questões políticas e culturais, resultando em composições que funcionam como “quebra-cabeças visuais”.
Ao explicar uma das obras, o artista detalha: “A bandeira está de um lado e tudo que se constrói a partir das cores dela aparece nas figuras. As próprias figuras constroem essa bandeira. O jacaré, por exemplo, aparece como símbolo de um perigo constante, algo que sabemos que está ali, mas sobre o qual mantemos uma falsa sensação de controle”.

Quadro “O Povo”, pintura a óleo de 2024, de Isaac Sales, em cartaz no Museu das Favelas @Reprodução/Museu das Favelas.
Na obra também é possível identificar referências à cultura negra global, como a presença de músicos de jazz e R&B, incluindo Nina Simone, além de jovens com saxofones que remetem ao Festival do Harlem, em 1969 — evento histórico que celebrou a cultura negra com artistas como Stevie Wonder e B.B. King.
Essa lógica de associação e construção simbólica também atravessa outro marco recente: a criação da capa do álbum “Carranca”, da cantora Urias. O primeiro contato entre os dois ocorreu de forma indireta, após a repercussão de uma das obras de Isaac nas redes sociais durante o período eleitoral. A visibilidade chamou a atenção da artista, que passou a acompanhar seu trabalho e adquiriu uma de suas telas.

Isaac ao lado de sua criação para a capa do álbum Carranca, da cantora Urias @Divulgação/Isaac Sales
A aproximação evoluiu para trocas frequentes e resultou no convite para integrar o projeto do álbum. O processo de criação da capa envolveu uma ampla troca de referências, textos, músicas, paletas de cores e imagens de bastidores. “Quando recebi o projeto, percebi que tudo estava alinhado com o que eu já vinha produzindo”, afirma.
A construção da imagem contou com colaboração direta entre artista e cantora, resultando em uma composição que articula tradição africana, estética urbana e elementos do fotorrealismo. Para Sales, o trabalho representa uma investigação sobre como práticas visuais urbanas se tornam tradição e como o corpo negro pode ser representado a partir de uma perspectiva de liberdade extrema.
“É sobre entender o fotorrealismo dentro dessa dinâmica de tradição e relacionar isso à liberdade — pensar o corpo negro a partir desse lugar de liberdade absoluta”, resume.
Museu das Favelas: Largo Páteo do Colégio, 148 — Centro Histórico de São Paulo (SP)
Horário de funcionamento: Terça a domingo, das 13h às 17h até o dia 24/05
Preço: Gratuito – Mais informações: via Sympla
Jornalista e pós-graduanda em Jornalismo Cultural pela UERJ. Correspondente local em Guarulhos e moradora do bairro dos Pimentas. Também atuo como jornalista na TV Cultura.
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