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Arquivo pessoal/Divulgação

Por: Júllia Zequim

Notícia

Publicado em 07.03.2026 | 8:35 | Alterado em 07.03.2026 | 11:45

Tempo de leitura: 4 min(s)

Pioneira do hip hop no Brasil e a primeira mulher a fazer rap no ABC Paulista. Estes são apenas alguns destaques da trajetória de Ieda Hills, 59, rapper do Jardim Utinga, em Santo André, no Grande ABC. Há quase 40 anos, ela é peça chave da cena do hip-hop no país, com composições autorais, produção musical e lançamento de faixas icônicas.

“Às vezes toca uma música e eu falo: ‘poxa, acho que tô nessa!’”, brinca, contando que não lembra de tudo que gravou em sua carreira. Mas não esquece de uma das músicas mais marcantes, que a fez ganhar notoriedade nacional: a participação em “Sr. Tempo Bom”, de Thaíde e DJ Hum, de 1996, que considera um dos primeiros grandes hits do hip-hop brasileiro.

Ieda, que ‘caiu de paraquedas’ no hip-hop, construiu a trajetória na música com as pessoas que apoiaram desde o início @Arquivo pessoal/Divulgação

Desde jovem ela já gostava de rap e começou a compor por ter dificuldade de decorar músicas de outros artistas. Entrou de vez na cena no final da década de 1980, quando seu irmão, Ulisses Kazan, então integrante do grupo de rap ‘Paradise’, a convidou para fazer parte do coletivo. A partir daí, começou a fazer participações cantando com grupos de rap como Sampa Crew, Thaíde e DJ Hum.

Naquele momento, as pessoas ainda não a conheciam rimando, já que ela focava mais na composição e melodia das canções do Paradise. Assumiu seu sobrenome artístico “Hills” — diferente de seu nome de batismo, Ieda Maria Delfino — em 1989, inspirado no The Sugarhill Gang, a primeira referência de hip-hop americano que teve.

“Nós [do Paradise] éramos discriminados no próprio movimento. Não entendiam a mistura de melodia com rap. Dependendo de onde íamos, os grupos falavam: ‘agora vocês vão ver o que é rap de verdade’”, lembra. “Hoje, 40 anos depois, todo mundo faz rap com refrão cantado”.

Na época, no começo dos anos 1990, Ieda não tinha noção de que seria considerada a primeira mulher a fazer rap no ABC.

‘Era muito difícil encontrar uma mulher na cena. Me sentia intimidada muitas vezes. Não tinha esse empoderamento de hoje, de saber que o palco é meu, a partir do momento que eu estou nele’

Ieda Hills, rapper

Artista múltipla, fez grafite e artesanato, além de assinar roteiros e figurinos dos próprios videoclipes — ela tem grande parte do material guardado, mas quer reunir todas as produções para montar seu acervo e uma exposição.

Apesar de décadas de dedicação, seu primeiro álbum solo, “Hits Hills”, foi lançado apenas em 2021, seguido por “Chiado do Vinil” (2022), último até o momento. A demora, explica Ieda, se deu por atritos com a indústria musical e pela falta de um produtor executivo.

Para o ‘Chiado do Vinil’, a artista considera um dos melhores trabalhos, ela trouxe elementos que conectam com a nostalgia @Arquivo pessoal/Divulgação

“O que me manteve ativa durante os anos foram os convites para parcerias, mas as pessoas sempre quiseram me moldar, a partir do momento que o rap passou a ser visto como produto. Não aceitei isso e como não me encaixei nesse padrão comercial, deixei de ser interessante para eles [da indústria musical]”

Para sustentar a independência artística, ela conciliou os palcos com o serviço público: foi agente de organização escolar por 38 anos e hoje é aposentada. “As pessoas falam: ‘nossa, você deveria ser milionária’. E eu digo: ‘não estou, mas tenho talento e faço o que gosto’. Quero viver do meu trabalho, mas o bolso cheio de dinheiro nunca foi a única prioridade.”

Os álbuns saíram do papel após a pandemia. Orientada pelo cantor Arnaldo Tifu (que participa da faixa “Obsoleto”, no seu primeiro disco), Ieda inscreveu o álbum “Hits Hills” em um edital, garantindo financiamento. Com produção de Leandro Marques (no álbum “Hits Hills”) e Luciano Rocha (em “Chiado do Vinil”), ela considera o último disco um de seus melhores trabalhos.

Aos 59 anos, Ieda segue em atividade. Em dezembro de 2025, participou da faixa “Homenagem”, com as rappers Ana Preta, Rose MC e Rubia RPW, celebrando as mulheres do hip-hop.

O videoclipe de ‘Obsoleto’, faixa em parceria com Arnaldo Tifu, a artista comandou a parte criativa e visual. Fez o roteiro, para o cenário e figurino, usou papel E.V.A e se inspirou na cultura cosplay
A canção ‘Homenagem’ veio de um desejo de reunir e homenagear as pioneiras do hip-hop feminino
Ieda define Stefanie como uma intermediária entre gerações e conta que se sente acolhida e livre trabalhando junto com a artista

O videoclipe de ‘Obsoleto’, faixa em parceria com Arnaldo Tifu, a artista comandou a parte criativa e visual. Fez o roteiro, para o cenário e figurino, usou papel E.V.A e se inspirou na cultura cosplay @Arquivo pessoal/Divulgação

A canção ‘Homenagem’ veio de um desejo de reunir e homenagear as pioneiras do hip-hop feminino @Arquivo pessoal/Divulgação

Ieda define Stefanie como uma intermediária entre gerações e conta que se sente acolhida e livre trabalhando junto com a artista @Arquivo pessoal/Divulgação

É backing vocal da rapper Stefanie, também de Santo André, com quem fez uma série de shows, inclusive em festivais como The Town (2025) e Lollapalooza (com apresentação marcada na edição de 2026). Também colabora com a nova geração local, a exemplo do MC Pedro Simples, também do ABC, com participações em suas músicas.

‘Sei de onde vim, sei pra onde vou / Planto minha raiz onde houver amor / S.A., SP, R.A.P / Hip-Hop sempre”
Trecho de ‘S.A. State of Mind’, canção de Pedro Simples, Arnaldo Tifu e Ieda Hills’

Ver a ascensão feminina no rap é motivo de celebração. “Fico feliz de ver muitas de nós [na cena]. O pessoal fala que ainda tem pouca mulher, mas pouca tinha há 30 anos”, diz. “O empoderamento cresceu junto com os movimentos negros, que abraçaram o hip-hop. Estávamos defendendo a nossa raça e lutando contra dificuldades estruturais. Não era vitimismo, a gente estava batendo de frente com a realidade.”

Para o futuro, a pioneira tem desejos claros: “espero que a mulherada conquiste ainda mais espaço, porque nunca nos faltou capacidade, mas sim oportunidades. Quanto a mim, quero ter condições, tempo e saúde para viver plenamente das minhas músicas.”

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Júllia Zequim

Jornalista em formação e redatora. Aspirante a fotojornalista, saudosista do futuro e capricorniana. Apaixonada por cultura, arte e contar histórias.

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