Mateus Borges/ Agência Mural
Por: Mateus Borges
Notícia
Publicado em 10.02.2026 | 12:24 | Alterado em 10.02.2026 | 12:24
Antes de assoprar as velas de oito anos, Karin Martins, 54, fez um pedido de aniversário que mudou a história dela e a do bairro. “Decidi pedir uma escola porque me apaixonei pelo samba. E não foi um pedido em pensamento: eu pedi em voz alta, e todo mundo achou o máximo ter uma nova escola de samba em Itaquera”, relembra Karin, que hoje é vice-presidente da escola Leandro de Itaquera.
Para tornar o desejo da filha real, o pai se juntou a outros sambistas e, assim, a Agremiação Leandro de Itaquera nasceu em 1982. Uma das principais escolas da zona leste de São Paulo, a agremiação relembra a trajetória com o enredo “Uma jornada de glórias e conquistas” e desfila no Grupo Especial de Bairros.
São 44 anos de histórias de glórias, como a entrada no grupo especial e se tornar um espaço de formação de diversos sambistas na capital, mas com momentos de provação, como incêndios nos carros alegóricos e os rebaixamentos.

Karin, vice-presidente da escola de samba Leandro de Itaquera @Mateus Borges/ Agência Mural
Em 1988, a agremiação foi a grande campeã do grupo de acesso com o enredo Elo da paz “O Arco-Íris do Oxumaré”, vitória que garantiu a entrada pela primeira vez no grupo especial no carnaval do ano seguinte.
Com o enredo “Babalotim – a História dos Afoxés”, a escola terminou em 7º lugar logo na estreia. Em 1991 atingiu o que, até hoje, é sua melhor posição, o 4º lugar com o enredo “Querem Acabar Comigo”.
Ao longo da trajetória, a Leandro de Itaquera esteve 21 vezes no grupo especial e foi campeã por duas vezes no grupo de acesso, se consolidou como uma grande escola de samba levando Itaquera para a elite do Carnaval Paulista.

A reverência da velha guarda ao pavilhão @Mateus Borges/Agência Mural
Mas a agremiação também passou por momentos de desafios nesses mais de 40 anos de história. Em 2014, ano da Copa do Mundo no Brasil, a escola escolheu o enredo “Ginga Brasil, Futebol é Raça”, mas amargou o rebaixamento com a 14º colocação.
Outro momento desafiador ocorreu em 2019, quando um incêndio atingiu o barracão da escola no Complexo Fábrica do Samba, na zona norte, meses antes do desfile. Com ajuda de outras agremiações, a Leandro conseguiu desfilar no carnaval de 2020. Mas os rebaixamentos se tornaram recorrentes.
Entre idas e vindas, no grupo especial e de acesso, a escola terminou a última edição do carnaval, de 2025, em 8º lugar do grupo Especial de Bairros e por conta de um novo incêndio foi penalizada para o carnaval de 2026.
‘O incêndio atingiu um dos nossos carros e também um carro de uma escola co-irmã. Algumas agremiações chegaram a colocar em pauta, em reunião extraordinária, o rebaixamento da Leandro’
Karin, vice-presidente da Leandro
“Era um ano de eleição da diretoria da UESP (União das Escolas de Samba Paulistanas) para que a escola não descesse, fomos penalizados com a perda de 0,5 ponto e o corte de 50% da verba”, diz a vice-presidente da Leandro.

Uma criança com seu pandeiro na quadra da Leandro de Itaquera @Mateus Borges/Agência Mural
“Desperta Brasil! Chegou a hora! Hoje é o dia da vitória! Leandro vai mostrar pro mundo inteiro a força e a garra do leão guerreiro” assim começa o enredo da Leandro de Itaquera para o carnaval de 2026.
Para Karin, o futuro da Leandro de Itaquera é pensado a partir das pessoas da comunidade do bairro, das crianças e jovens que poderiam seguir outros caminhos, mas encontram no samba uma possibilidade de pertencimento, aprendizado e transformação.

Debora Oliveira, Porta-Bandeira se prepara para o ensaio @Mateus Borges/ Agência Mural
“A Leandro de Itaquera é feita de frutos e hoje, vejo a escola como uma árvore frutífera, que já formou muitos sambistas e espalhou talentos por grandes escolas de samba de São Paulo. Agora, a nossa luta é garantir a continuidade desse legado, pensando nas crianças e na comunidade, com um espaço aberto onde possamos retomar e manter os projetos que existiam na antiga quadra”, acrescenta Karin.
Para Leandro Novelli, 38, atual mestre sala, a essência da escola de samba é formar pessoas e formar sambistas.
‘Essa formação começa desde criança. Quando a gente chega numa escola de samba, a gente observa tudo, passa por vários setores, até se identificar com algum’
Leandro, mestre-sala

Debora, porta-bandeira e Leandro, mestre-sala da agremiação Leandro de Itaquera @Mateus Borges/ Agência Mural
Novelli nasceu e foi criado no bairro de Itaquera e se apaixonou pelo carnaval através da Leandro, escola que se considera filho, e muito grato por ter sido escolhido como mestre sala para o carnaval de 2013, quando a escola foi vice-campeã do grupo de acesso, na primeira vez dele representando a escola.
Ele retornou, em dezembro de 2025, como mestre-sala depois de 7 anos por meio do convite de Débora Oliveira, 42, atual porta-bandeira, com quem ele já havia desfilado em outras oportunidades. “Apesar de fazer tanto tempo que não dançamos juntos, temos um sincronismo eterno”, enfatiza Débora.
Todos os domingos a escola se reúne embaixo de um viaduto da avenida Jacu Pessêgo para ensaiar. O ensaio começa às 17h com a equipe de bateria comandada pelo ‘Mestre Pelé‘ e se estende até às 19h, quando as demais alas chegam para começar o ensaio geral.
Este também é o momento em que os veteranos da velha guarda, com mais de 30 anos de escola, chegam com o estandarte e encaixa o mastro junto ao pavilhão.

O ensaio da escola fica em baixo do viaduto da Avenida Jacu-Pêssego @Mateus Borges/ Agência Mural
Saudar a bandeira é um gesto de respeito aos fundadores e a todos os antepassados que vieram antes da atual geração. A bandeira é o registro do símbolo e a história da fundação da escola.
“Existe um profundo respeito pela ancestralidade, em que os mais velhos são vistos como detentores da sabedoria, responsáveis por passar as tradições aos mais novos. O mastro é como um cordão umbilical que representa o nascimento da escola”, conta Karin, lembrando os valores que seu pai e fundador levou para a escola.
A principal lição deixada por Leandro Alves Martins, fundador e presidente, foi a valorização da comunidade. Desde o início, a escola se construiu como um espaço de respeito, acolhimento e convivência, reunindo famílias das periferias de Itaquera.

Pelé, diretor da batucada do Leão @Mateus Borges/Agência Mural
Formado em jornalismo pela UNIP, já foi redator no Lab Dicas e In Magazine. Ama tirar fotos, é fã de Dark e Game Of Thrones
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