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Arquivo pessoal

Por: Jacqueline Maria da Silva

Notícia

Publicado em 04.02.2026 | 14:36 | Alterado em 04.02.2026 | 14:39

Tempo de leitura: 4 min(s)

Navegando pelas redes sociais, você fica sabendo que foi inaugurada uma Casa de Cultura bem ao lado da sua casa. Parece tudo certo: prefeito e subprefeitos presentes na cerimônia de abertura, comes e bebes e a divulgação de diversas atividades. Você, então, decide se matricular em uma oficina de produção musical.

Mas quando chega no primeiro dia de aula, se depara com um espaço vazio, com espumas coladas de qualquer jeito na parede. Esse é o estúdio, que além de não estar montado, não possui equipamentos básicos instalados – eles estão guardados no depósito da Casa de Cultura. 

Quase 5 meses da inauguração, o espaço feito para aulas práticas está vazio e sem isolamento acústico adequado @Agência Mural

Aconteceu exatamente assim com a Camila Eduardo da Silva, 23, operadora de caixa no Jardim Itacolomi, em Cidade Ademar, na zona sul de São Paulo. Ela compõe músicas e faz beats, por isso viu a chegada da Casa de Cultura como uma possibilidade de avançar na carreira artística. Então se matriculou na oficina de produção musical e começou a frequentar as aulas em novembro de 2025.

‘Achei que ia ter um estúdio completo, mas foi totalmente diferente. Queria continuar a fazer as oficinas, mas estou esperando uma resposta da administração, para ver o que a gente consegue fazer’.

Camila Eduardo, artista 

Situação parecida ocorreu com Lucas Fonseca da Silva, 17. Ele conheceu a Casa de Cultura de Cidade Ademar por meio da mãe, que faz aulas de dança. O interesse pela oficina de produção musical foi instantâneo, mas logo substituído pela frustração.

“Eu pensei que ia estar tudo preparado na sala de som, mas os equipamentos não estão montados. O cabo que a gente tentou usar não deu certo, teve que pegar outro, e tem muita coisa faltando”, desabafa o atendente de pizzaria.

A Casa de Cultura de Cidade Ademar foi inaugurada em 27 de setembro de 2025, com um ano de atraso, segundo a própria prefeitura. O investimento foi de R$12,9 milhões, em um prédio de cinco andares com telecentro, espaço para aulas de circo, terraço, cozinha solidária, estúdio de música e sala de edição. 

Estúdio de gravação planejado para acesso da comunidade de Cidade Ademar @Arquivo pessoal

Cinco meses após a abertura para o público, o estúdio de som projetado para aulas práticas está vazio. O local não tem isolamento acústico adequado, necessário para a qualidade da captação de som, e os ruídos da rua vazam pelas janelas da sala.

Alunos e trabalhadores do local afirmam que os equipamentos estão parados dentro de caixas em um depósito, incluindo mesa de som, conversor digital, microfone condensador, teclado MIDI, caixas de som e fone de ouvido, imprescindíveis para as aulas.

Aulas improvisadas, com equipamentos de casa

Alunos e educadores da Casa de Cultura concordam: sem os equipamentos há impacto direto na qualidade do aprendizado e na possibilidade de aprofundar conhecimentos e tirar dúvidas. As oficinas terminam em abril e até fevereiro os alunos tinham tido contato com os equipamentos profissionais.

“A comunidade não pode acessar e usufruir. O estúdio é só uma sala vazia e a gente está fazendo as nossas aulas de forma improvisada”, afirma um dos envolvidos na oficina, que não foi identificado pela Agência Mural para evitar represálias. “Cada um traz [de casa] o equipamento que tem, mas ele pode ser danificado ou roubado no caminho. Quando não tem, a gente foca em aula mais teórica”.

Ao reclamarem da falta de equipamento, alunos e professores ouviram da gestão que os responsáveis “estão correndo com burocracias” e que “iam deixar para 2026”. No entanto, ainda não há previsão da liberação dos equipamentos para as aulas.

Primeira Casa de Cultura de Cidade Ademar @Arquivo pessoal

Em nota, a Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa (SMC) informou que o estúdio de podcast da Casa de Cultura Cidade Ademar, assim como as instalações do prédio, estão “em processo de adequação”. Afirmou ainda que o uso está previsto a partir do início das próximas oficinas, mas não forneceu datas.

Outros problemas

As queixas não param no estúdio. Alunos das oficinas da Casa de Cultura de Cidade Ademar reclamam dos banheiros sem dispenser de sabonete e do elevador, que tem apresentado falhas técnicas desde o dia da inauguração, quando pessoas ficaram presas nele.

“Ficamos entre o terceiro e o segundo andar por mais de uma hora e meia. Era um final de semana, não havia suporte técnico. As pessoas perceberam que estávamos presos e conseguiram fazer com que o elevador se movesse até o primeiro andar. Só depois de algum tempo as portas se abriram e conseguimos sair”, descreve Luan Santiago, 34, autônomo, morador da Vila Missionária, em Pedreira, distrito vizinho.

A partir de então, o jovem observou lentidão na subida e descida, demora para abrir as portas e oscilação no funcionamento do equipamento. Além disso, soube que o mesmo incidente se repetiu com colegas. Segundo frequentadores, o elevador está quebrado há 17 dias.

Há quatro meses, usuários aguardam instalação de dispenser de sabonetes nos sanitários @Arquivo pessoal

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Jacqueline Maria da Silva

Jornalista, vencedora de prêmios de jornalismo como MOL, SEBRAE, SIP. Gosta de falar sobre temas diversos e acredita do jornalismo como ferramenta para tornar o planeta melhor.

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