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Agência de Jornalismo das periferias

Magno Borges/Agência Mural

Por: Carol Lima

Notícia

Publicado em 16.01.2026 | 8:43 | Alterado em 16.01.2026 | 15:08

Tempo de leitura: 4 min(s)

Moradora da Vila Aurora, em Itapevi, na Grande São Paulo, Alexsandra Nunes, 26, teve seu filho Dom em um parto prematuro. Com apenas 33 semanas, bem antes das 40 consideradas ideais, ele veio ao mundo com 49 cm e 1,690 kg. Mãe e filho permaneceram internados por 35 dias, sendo duas semanas na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) Neonatal.

Além dos cuidados com a saúde do bebê, Alexsandra contou com o apoio de profissionais para algo que nunca imaginou durante a gestação: se tornar doadora de leite materno para o próprio filho, uma ação comum nas UTIs neonatais, mas até então desconhecida para a família.

“Pelo fato dele estar sob uso de aparelhos e se alimentar por sonda, não foi possível realizar a alimentação direta ao seio naquele momento”, relata a mãe, que não pode pegar o filho no colo durante as duas semanas de internação.

Alexsandra e o filho Dom, ela afirma que o leite materno foi essencial para o desenvolvimento dele @Carol Lima/ Agência Mural

Esse apoio recebido por Alexsandra é um exemplo de uma ação que tem ajudado a salvar bebês prematuros: a doação de leite materno, por meio de bancos de doação.

‘As enfermeiras demonstram cuidado humanizado, compreendendo nosso emocional fragilizado. Cada gota de leite era tratada como ouro, e cada conquista era comemorada com carinho e incentivo’

Alexsandra, mãe do Dom

Hoje, ela e Dom colhem os frutos dessa dedicação. Após superar grandes desafios já nos primeiros dias de vida, ele caminha para completar 3 anos, com desenvolvimento pleno e saúde de ferro.

Alimento ouro

O leite materno é considerado um “alimento ouro” para recém-nascidos, especialmente os prematuros. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), o aleitamento pode reduzir em cerca de 13% as mortes de crianças de até 5 anos.

Em UTIs neonatais, um litro de leite doado pode alimentar até dez bebês por dia, e em casos de baixo peso, 1 ml já é suficiente para uma refeição de um recém-nascido prematuro.

Em Itapevi, uma dessas ações é o Banco de Leite Lactare, projeto que integra uma política pública da Fiocruz e do Ministério da Saúde, com apoio da farmacêutica Eurofarma.

O espaço tem a meta mensal de coletar e destinar 400 litros de leite materno, com ao menos 265 doadoras ativas, a maioria moradoras das periferias. Nos seis anos de atividade, mais de 15 mil litros já foram doados, beneficiando em média 5 mil bebês prematuros.

Uma dessas doadoras é a técnica de enfermagem Bianca Gonçalves Dias, 26, moradora do Grajaú, na zona sul de São Paulo. Ela conheceu o Banco de Leite por meio da Casa Ângela, um centro de parto humanizado na região onde mora. A indicação foi feita durante o planejamento do parto natural, quando foi orientada a procurar a Lactare, em Itapevi.

Bianca, o esposo e o filho Pedro na Lactare Itapevi
Bomba de leite ajuda na extração do leite das doadoras
Os potes de leite doados pela Bianca para outras mães

Bianca, o esposo e o filho Pedro na Lactare Itapevi @Carol Lima/Agência Mural

Bomba de leite ajuda na extração do leite das doadoras @Bianca Gonçalves Dias/ Divulgação

Os potes de leite doados pela Bianca para outras mães @Bianca Gonçalves Dias/ Divulgação

“Sempre quis fazer essa doação, então está sendo incrível poder ajudar outras crianças, outras famílias, através do excedente”, afirma Bianca. “A amamentação é tudo, é a minha doação para o meu filho, além do afeto, das vitaminas e nutrientes, que às vezes a mãe não consegue nutrir”.

Saúde para o bebê e para o meio ambiente

Em Itapevi, a engenheira Bruna Araújo, 29, é doadora da Lactare desde 2024 e descreve a doação como um gesto que atravessa o cotidiano da maternidade nas periferias. “Me coloco no lugar daquelas mães que estão com seus filhos nas UTIS Neonatais. O leite materno é uma dose de imunidade, de saúde para o bebê, é algo que transcende tudo que a gente quer explicar em palavras”.

Além do impacto direto na saúde, a doação de leite materno também reduz o tempo de internação hospitalar, o uso de medicamentos e os custos de tratamentos médicos no sistema público de saúde.

Bruna com o filho, ela é doadora de leite materno para Lactare @Carol Lima/Agência Mural

O processo de doação do leite começa quando a doadora entra em contato com a equipe. O banco entrega um kit com frascos, equipamentos de proteção e bomba de amamentação, e realiza a retirada semanal do leite congelado no domicílio da doadora.

Foi assim que a moradora do bairro do Monte Serrat, também em Itapevi, Maricelia Silva, 34, se tornou doadora. Ela encontrou o banco de leite pela internet após enfrentar uma crise de alta produção de leite, que acabou sendo desperdiçada. A partir disso, decidiu incluir a doação na rotina.

“Doei por 2 anos e 3 meses, foi muito gratificante, foi um ato de amor, de carinho com o próximo. Eu sempre indico para as grávidas, incentivo outras mães”, conta.

Maricelia Silva é incentivadora do projeto de doação de leite em Itapevi @Maricelia Silva/Divulgação

Para as famílias que recebem o leite doado, o impacto vai além da nutrição. “A maioria das doadoras da Lactare são moradoras das periferias da Grande São Paulo. Elas são heroínas, não é fácil, ter uma rotina com filhos em casa e ainda ter um tempo para ser doadora”, comenta a médica Fernanda Lajner, que atua no Banco de Leite Lactare.

Ela explica que o processo de doação segue protocolos rigorosos. É necessário fazer exames, porque existem muitas doenças que passam pelo leite. “Muitos desses bebês prematuros da UTI pesam de 400g a 600g, então temos que ter muito cuidado. A gente precisa fazer uma avaliação rigorosa para chegar apenas as coisas boas do leite, os nutrientes”.

Fernanda Lajner, atua como médica na Lactare Itapevi @Carol Lima/Agência Mural

A nutricionista Elienai Rodrigues, técnica de alimentos, afirma que o controle de qualidade é essencial para garantir a segurança alimentar dos bebês prematuros. Segundo ela, o processo assegura um leite com pH e acidez adequados, sem contaminação, antes de chegar às UTIs neonatais.

A enfermeira Sayonara Medeiros destaca que o serviço também tem impacto ambiental e econômico. “O banco de leite é uma conexão sustentável, existe um amparo para as famílias no puerpério, é uma rede de apoio”.

“São pessoas iluminadas, abençoadas, que fazem essa doação com todo carinho e cuidado”, afirma a médica Fernanda, que se dedica a acolher doadores e bebês, com todo empenho que a atividade exige.

A Lactare atende 36 municípios na Capital e na região metropolitana de São Paulo. Confira os locais de doação:

Hospital Geral de Itapevi

Hospital Geral de Carapicuíba

Hospital Regional de Cotia

Hospital Maternidade de Interlagos

Hospital Maternidade Amador Aguiar

Hospital Vila Nova Cachoeirinha

Hospital Regional de Itapecerica da Serra

Hospital das Clínicas

Hospital Geral do Grajaú

A doação é gratuita. Contato da Lactare: Whatsapp (11) 966290681

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Carol Lima

Jornalista e digital influencer, amo contar histórias. Mãe de dois meninos, atualmente produzo conteúdo sobre maternidade e lifestyle nas redes sociais

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